Por Adriana Cardoso
A liquidação do Will Bank, decretada pelo Banco Central em 21 de janeiro deste ano, pegou funcionários de surpresa e lançou cerca de 1.200 trabalhadores em um limbo trabalhista. Na quinta-feira (12), o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região realizou a segunda plenária virtual com cerca de 300 trabalhadores da instituição e, conforme a entidade, os empregados relataram ainda não ter recebido comunicados formais sobre datas de desligamento nem orientações claras sobre os próximos encaminhamentos do processo.
Imediatamente após o anúncio da liquidação, o sindicato enviou ofício ao interventor nomeado pelo Banco Central solicitando reunião urgente para tratar da situação dos trabalhadores, mas até o momento não houve resposta.
O gerente de marketing de produto da fintech, Pedro Pacheco, de 35 anos, disse, em entrevista ao ICL Notícias, que os funcionários foram surpreendidos sem qualquer aviso prévio sobre a liquidação e agora não sabem se poderão manter seus empregos ou receber todos os direitos trabalhistas.
Ele descreve a experiência como “acordar de um dia para o outro sem ter mais acesso a nada do que construímos”. Muitos trabalhadores, como ele, tinham investimentos na própria instituição e agora estão sem acesso a esses recursos, o que aumenta a sensação de vulnerabilidade.

“Não estávamos preparados para isso. Acordamos, todos os sistemas cortados, e não houve nenhuma comunicação oficial antes da notícia”, lembra Pacheco. Ele conta que soube da liquidação pelo noticiário, minutos antes de uma reunião de trabalho.
O Will Bank faz parte do conglomerado do Banco Master, instituição que já havia sido liquidada pelo Banco Central anteriormente. Mas, segundo Pacheco, o Master tinha pouca influência dentro do Will.
Tanto que muitos dos funcionários tinham investimentos pequenos na instituição. “Isso mostra que o Will Bank, para nós, nunca foi uma operação fraudulenta, feita pra enganar pobre como foi dito, porque os próprios funcionários foram prejudicados pela liquidação.”
Insegurança e medo do futuro
O maior impacto para os funcionários não é apenas financeiro, mas emocional. Salários e benefícios estão sendo pagos de forma provisória. “Estamos presos nesse limbo. Não sabemos quando vamos ser demitidos, temos medo de aceitar outro emprego e perder direitos”, relata Pacheco.
Metade dos funcionários atuava no atendimento, muitos em início de carreira e com salários próximos de dois mínimos, segundo Pacheco.
O contato com a administração do banco é limitado. Mensagens para o liquidante demoram a ser respondidas, e dúvidas sobre pagamento de salários, vales e benefícios permanecem sem resposta. “Vivemos de surpresa. Não sabemos o que vem pela frente”, diz Pacheco.

Origem e proposta do Will Bank
O Will Bank surgiu a partir da startup capixaba Meu pag!, inicialmente focada em crédito. A partir de 2019, alterou o nome para Will Bank, passando a atuar como banco digital, oferecendo conta corrente, empréstimos e antecipação de FGTS, entre outros produtos. A empresa era parte de um grupo financeiro controlado pelo Grupo Avista.
Segundo Pacheco, a proposta da empresa era ampliar o acesso ao crédito para pessoas rejeitadas por grandes bancos e outras fintechs. “O Will nasceu com essa proposta de dar acesso a crédito a pessoas que não tinham acesso. Em palavras mais simples, confiava que o pobre ia pagar a conta dele no final do mês”, diz.
Ele afirma que a base de clientes era de aproximadamente 12 milhões de pessoas em todo o Brasil, majoritariamente das classes C, D e E. A inadimplência, segundo ele, estava dentro dos padrões de mercado. “Não era uma operação arriscada”, sustenta.
Entre os produtos oferecidos pelo Will Bank estava transformar o celular em maquininha de cartão para pessoas físicas sem CNPJ, como ambulantes e personal trainers. “Era um nicho ignorado pelas outras empresas. Conseguimos fazer com que essas pessoas pudessem aceitar cartões nas suas vendas.”
Sindicato segue monitorando a situação
A presidenta do Sindicato, Neiva Ribeiro, diz que o foco da entidade é garantir prioridade aos trabalhadores no recebimento de salários e demais direitos.
“Assim que nós soubemos da liquidação, já entramos em contato com o liquidante e tomamos todas as medidas para garantir que os trabalhadores fossem prioridade em receber o salário e tudo o que é de direito”, afirmou.
De acordo com Neiva, o sindicato enviou ofício ao liquidante listando os direitos previstos na Convenção Coletiva de Trabalho, inclusive em caso de desligamento, e solicitou reunião para tratar das demandas. “Temos pessoas que saíram de férias e não receberam, trabalhadoras em licença-maternidade e uma série de questões que precisam ser discutidas caso a caso”, disse.
Neiva também relatou denúncias de que o liquidante estaria incentivando pedidos de demissão. “Na primeira semana tivemos denúncias de que o liquidante estava incentivando as pessoas a pedirem demissão para que não recebessem os direitos devidos”, afirmou.
Para a dirigente, a situação expõe fragilidades na regulação do sistema financeiro e deixa os empregados em posição vulnerável.




