Por Cleber Lourenço
O vazamento das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro marca a primeira vez em que o escândalo do Banco Master deixa de ser apenas uma crise financeira e policial para se transformar, de maneira concreta, em um problema eleitoral para o principal nome da família Bolsonaro na corrida presidencial de 2026.
Até poucas semanas atrás, o caso ainda orbitava principalmente o noticiário econômico, as decisões judiciais, os bastidores de Brasília e as investigações sobre o colapso do banco. A divulgação dos áudios, porém, alterou o eixo da discussão política. O que antes aparecia para parte do eleitorado como uma disputa técnica envolvendo o sistema financeiro passou a atingir diretamente a imagem pública de Flávio Bolsonaro, hoje tratado dentro do bolsonarismo como herdeiro natural do espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A nova rodada da pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta terça-feira, mostra justamente esse ponto de virada. O levantamento indica que o caso ultrapassou a bolha política, alcançou praticamente todo o eleitorado brasileiro e passou a produzir efeitos concretos sobre a percepção da candidatura presidencial de Flávio.
Entre os principais dados da pesquisa estão:
95,6% disseram ter tomado conhecimento do vazamento
93,9% dos que souberam afirmam ter ouvido o áudio
43,3% apontam aliados de Bolsonaro como os mais envolvidos no escândalo do Master
Associação do caso ao bolsonarismo subiu 15 pontos desde março
64,1% dizem que o caso enfraqueceu a candidatura de Flávio
51,7% veem indícios de envolvimento direto de Flávio com o escândalo
84,2% dos eleitores de Jair Bolsonaro defendem manutenção da candidatura
Os dados revelam uma mudança importante na forma como os eleitores enxergam o escândalo. A maior parte dos entrevistados passou a associar o Banco Master principalmente ao campo bolsonarista, interpretar o vazamento como resultado de investigação legítima e avaliar que as conversas com Vorcaro enfraqueceram a candidatura do senador.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que o desgaste não se converteu em abandono dentro da base bolsonarista. O eleitorado de Jair Bolsonaro segue majoritariamente fechado em torno de Flávio, rejeita a troca de candidato e, em muitos casos, interpreta o episódio como perseguição política ou tentativa legítima de captação privada para o filme sobre o ex-presidente.
O resultado desenha um cenário delicado para a direita. O caso Vorcaro aumenta a resistência a Flávio fora da bolha bolsonarista e amplia sua contaminação pelo escândalo do Master, mas também evidencia que a extrema direita ainda não possui um caminho simples para substituir o senador sem abrir fissuras internas ou correr o risco de fragmentar sua base eleitoral.
A pesquisa mostra ainda que o episódio atingiu um nível raro de capilaridade política. Segundo o levantamento, praticamente todo o eleitorado tomou conhecimento das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, transformando o caso em um dos temas mais disseminados do ambiente pré-eleitoral de 2026.
Segundo a pesquisa, 95,6% dos entrevistados afirmaram ter tomado conhecimento do áudio e das mensagens vazadas de supostas conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Entre os que souberam do episódio, 93,9% disseram ter ouvido o áudio.
O levantamento também mostra mudança significativa na percepção pública sobre qual grupo político estaria mais envolvido no esquema de fraudes financeiras do Banco Master.
Quem os eleitores associam ao escândalo do Master
43,3% apontam principalmente os aliados de Bolsonaro
32,8% apontam principalmente os aliados de Lula
16,1% dizem que todos estão igualmente envolvidos
7,1% apontam principalmente o Centrão
O dado representa uma mudança importante em relação à rodada de março da própria Atlas. Naquele momento, 28,3% apontavam os aliados de Bolsonaro como os mais envolvidos no escândalo. Agora, esse índice subiu para 43,3%, avanço de 15 pontos percentuais.
No mesmo período, os aliados de Lula caíram de 39,5% para 32,8%.
A pesquisa também mostra que a maioria dos entrevistados não interpreta o vazamento apenas como uma operação política contra Flávio Bolsonaro.
Como os eleitores interpretam o vazamento
54,9% dizem que o caso representa evidências obtidas em investigação legítima
33% afirmam que houve tentativa de prejudicar politicamente Flávio Bolsonaro
9,7% acreditam que as duas situações ocorreram ao mesmo tempo
A divisão se torna mais evidente quando o recorte considera o voto presidencial de 2022.
Entre eleitores de Lula:
92,1% veem evidências de investigação legítima
4,8% veem tentativa de perseguição política
Entre eleitores de Jair Bolsonaro:
71,8% dizem que houve tentativa de prejudicar Flávio politicamente
19,5% enxergam investigação legítima
Outro ponto central da pesquisa envolve a interpretação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
O que os eleitores enxergam nas conversas
51,7% dizem que o áudio retrata evidências de envolvimento direto de Flávio com o escândalo do Banco Master
33,3% afirmam que se tratava de tentativa legítima de conseguir apoio financeiro para o filme sobre Jair Bolsonaro
12,1% veem proximidade entre Flávio e Vorcaro, mas sem comprovação de ilegalidade
2,9% não souberam responder
Os dados mostram que, embora a percepção negativa seja majoritária, existe um bloco relevante de eleitores que ainda não vê ilegalidade direta nas conversas.
Somadas, as respostas que consideram a conversa uma tentativa legítima de financiamento do filme ou apenas uma relação sem comprovação de crime chegam a 45,4%.
Entre os eleitores de Jair Bolsonaro, a blindagem da candidatura aparece de maneira mais evidente.
Como a base bolsonarista interpreta o caso
68% afirmam que o áudio mostra tentativa legítima de financiar o filme
17,3% veem proximidade sem comprovação de ilegalidade
8,7% dizem que há evidência de envolvimento direto de Flávio com o escândalo
Apesar disso, o impacto eleitoral no eleitorado geral aparece de forma ampla.
Efeito do caso sobre a candidatura de Flávio
45,1% dizem que a candidatura foi muito enfraquecida
19% afirmam que ela foi um pouco enfraquecida
13,4% avaliam que o caso fortaleceu Flávio
15% dizem que não houve impacto
Somados, 64,1% afirmam que a candidatura de Flávio Bolsonaro saiu enfraquecida após o vazamento das conversas.
A pesquisa também mediu o impacto do caso sobre a disposição de voto.
Impacto na disposição de voto
47,1% dizem que já não votariam em Flávio de qualquer forma
21% afirmam que o caso não alterou sua disposição de voto
18,8% ficaram mais ou muito mais dispostos a votar no senador
13% ficaram menos ou muito menos dispostos
Entre os eleitores de Jair Bolsonaro, o cenário muda significativamente.
Reação da base bolsonarista
39,8% dizem que o caso não afeta sua disposição de voto
39,8% afirmam que ficaram mais ou muito mais dispostos a votar em Flávio
9,7% ficaram menos ou muito menos dispostos
A pesquisa ainda mostra resistência da base bolsonarista à troca de candidato para 2026.
O que eleitores de Jair Bolsonaro defendem
84,2% dizem que Flávio deve manter a candidatura presidencial
12,6% defendem retirada da candidatura e apoio a outro nome
3% não souberam responder
O único sinal mais forte de desgaste dentro do próprio eleitorado aparece entre jovens bolsonaristas de 16 a 24 anos. Nesse grupo, 34,9% defendem que Flávio retire a candidatura.
Os números indicam que o caso Vorcaro ampliou o desgaste de Flávio Bolsonaro no eleitorado geral e consolidou a associação do Banco Master ao campo bolsonarista. Ao mesmo tempo, os dados mostram que a base do ex-presidente Jair Bolsonaro ainda resiste à substituição do senador como principal nome do grupo para a disputa presidencial de 2026.



