Projeto Órfãos do Feminicídio da Defensoria Pública do Amazonas, vira lição de abraço no Jorge Teixeira pelas mãos da professora Edvania Marinho

MANAUS – Há conquistas que nascem na Justiça e há conquistas que nascem no coração de uma professora. Nesta sexta-feira, 28 de agosto de 2026, Manaus celebrou as duas no mesmo lugar: no bairro Jorge Teixeira.

A convite do chefe da Divisão Distrital Zonal Leste II, Daniel Laborda, professores e alunos se reuniram das 8h às 12h, no CIME Josefina Rosa de Mattos Pereira de Castro, para a XIV Feira Municipal de Ciências, Tecnologia e Educação Ambiental. Entre maquetes e experimentos, um estande roxo parava todo mundo: o “Guardiãs do Futuro”.

Ali estava o projeto Órfãos do Feminicídio, da defensora pública Carol Braz, coordenadora do Nudem da Defensoria Pública do Amazonas. O projeto está entre as quatro experiências premiadas em 2026 com o Selo FBSP de Práticas Inovadoras de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. A premiação ocorrerá durante o 20º Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 15 a 18 de setembro, em São Paulo.

Se o amparo virou lei em Brasília, o abraço veio do Jorge Teixeira.

A ponte entre a Justiça e a vida real só existiu pela sensibilidade da professora Edvania Marinho, da Escola Municipal Francisco Maia de Amorim. Foi ela quem tirou a prática jurídica da gaveta, levou para a sala, conversou com calma com 40 alunos e depois disse: agora vamos para a rua contar para a nossa comunidade.

A professora Edvania Marinho explicou: “Quando ocorre o feminicídio, a criança fica praticamente invisível. Ela perde a mãe e, muitas vezes, perde também o olhar da sociedade. O que estamos fazendo aqui é ensinando os colegas a serem acolhedores, para não reproduzir violência”.

Ao ver sua iniciativa transformada em cartazes feitos à mão por crianças da Zona Leste, a defensora Carol Braz se emocionou: “O maior prêmio é ver as crianças crescendo com outra consciência. São elas que vão mudar essa história”.

Quem segura essa rede de cuidado todos os dias, há cinco anos, também estava lá. A psicóloga do projeto, Polyana Peixoto Pinheiro: “É um dia de esperança. A Defensoria saiu de quatro paredes, está no território. E essa iniciativa está sendo reescrita pelas próprias crianças, no seu próprio ambiente, principalmente dentro da escola Francisco Maia de Amorim”.

E foram elas que deram a aula mais importante do dia. O estudante Lorenzo, aluno da professora Edvania Marinho, traduziu em uma frase o que a lei tenta garantir e o que o Selo nacional reconhece: “Quando tiver um órfão, a gente tem que abraçar e dar carinho para ele”.

“Percebemos que precisávamos falar sobre quem fica. Quem cuida dos filhos das vítimas? A partir disso, mobilizei as alunas para pesquisar a rede de proteção e levar essa informação para fora dos muros da escola. Fomos para a rua porque combater a violência doméstica é também um ato de educação”, afirmou a professora Edvania Marinho.

Em outro trabalho selecionado, o exemplo foi apresentado pela Escola Municipal São Luís, da Colônia Antônio Aleixo. A professora Débora Zambrano da Silva, com os alunos Analu Lopes, Pedro e Taísa, do 3º ano B, levou o projeto “Da sala de aula à gestão escolar”, que resgata a trajetória da diretora Noélia. Ela começou na educação aos 15 anos e, após presenciar um acidente com alunos que atravessavam o Lago do Aleixo de catraia, construiu a Escola Francisco Nunes na Comunidade Bela Vista. O trabalho foi construído com diário de bordo, entrevistas com ex-alunos e rodas de conversa.

Iniciativas como essa integram uma rede municipal. A Feira ocorre nas sete DDZs e é seletiva para a Expocreati. Somente em 2025, foram cerca de 300 escolas e mais de 1.500 alunos envolvidos, segundo a Gerência de Tecnologia Educacional da SEMED. Na Zona Leste, a DDZ Leste 1 reuniu 73 escolas em uma única etapa e a Centro-Sul, 40. É nesse circuito que projetos de bairro ganham escala de cidade.

“A feira da DDZ Leste 2 mostra a força do nosso território. Um projeto que nasce da mobilização de uma professora como a Edvania, que vai para a rua e chega aqui com rigor científico e relevância social, mostra o comprometimento dos nossos professores e o protagonismo dos estudantes”, disse o chefe da DDZ Leste 2, Daniel Laborda.

“As feiras nas DDZs valorizam o que é produzido em cada território. A educação é o caminho que transforma vidas e amplia horizontes. Quando a escola se mobiliza e leva o debate para a comunidade, estamos avançando concretamente na educação de Manaus”, finalizou o secretário municipal de Educação, Arone Bentes.

A etapa da DDZ Leste 2 ocorreu das 8h às 12h. Os trabalhos selecionados seguem para a fase municipal promovida pela Semed.

Uma defensora no Amazonas criou o acolhimento. Uma deputada gaúcha transformou em lei sancionada pelo presidente da República. Uma professora no Jorge Teixeira transformou em abraço. E a comunidade entendeu o recado.

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