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Hoje a leitora, o leitor, vai ter que me perdoar, pois vou vestir a roupa preta do roqueiro que um dia fui, das canções que embalaram a minha revolta num mundo de miséria e invariavelmente cheio de guerras. Pois é. Há mortes que nos atravessam feito faca, cortando de dor algo que nem sabíamos que existia em nós. A notícia da morte de Ozzy Osbourne – o Príncipe das Trevas, o homem que mordeu a cabeça de um morcego e transformou o desespero em arte – chegou como um assombro para uma geração inteira que cresceu embalada pelos acordes distorcidos do Black Sabbath e pelos gritos guturais que ecoavam das periferias industriais do mundo. Mas por que a morte de um homem que jamais conhecemos pessoalmente nos afeta de forma tão visceral? Por que sentimos como se perdêssemos um irmão, um companheiro de trincheira numa guerra que nem sempre conseguimos nomear?
A resposta, creio eu, reside na natureza mesma da arte como expressão coletiva da dor. Ozzy não era apenas um músico, ele era a voz rouca e desesperada de milhões de jovens operários, filhos da classe trabalhadora que encontraram no heavy metal não apenas entretenimento, mas uma linguagem para expressar aquilo que a sociedade burguesa insistia em silenciar: a revolta contra a exploração, a angústia existencial diante de um futuro incerto, a raiva contra um sistema que os condenava às fábricas antes mesmo que pudessem sonhar com algo diferente.
Quando Ozzy berrava “Iron Man” ou “Paranoid”, não estava apenas cantando – estava canalizando o grito abafado de uma geração inteira de jovens que acordavam às cinco da manhã para enfrentar mais um dia nas linhas de produção, que viam seus corpos sendo consumidos pelas máquinas, que sentiam suas almas sendo trituradas pela engrenagem implacável do capitalismo industrial. O heavy metal, nesse sentido, nunca foi apenas música, foi sempre um manifesto, uma declaração de guerra contra a normalização da miséria.
É impossível falar do impacto de Ozzy Osbourne sem compreender a gênese histórica e social que deu origem ao Black Sabbath. Birmingham, cidade industrial inglesa dos anos 1960, era o epicentro de uma transformação brutal: a desindustrialização acelerada, o desemprego em massa e a degradação urbana. Era ali, entre as chaminés fumegantes e os operários desesperançados, que quatro jovens da classe trabalhadora – Tony Iommi, Geezer Butler, Bill Ward e John “Ozzy” Osbourne – forjaram um som que seria a trilha sonora da desesperança proletária.
O som pesado, distorcido, quase industrial do Black Sabbath não era acidental. Era o reflexo sonoro de uma realidade social específica: a do proletariado urbano em decomposição. Quando Tony Iommi perdeu as pontas dos dedos num acidente de trabalho aos 17 anos – ironia cruel do destino que o forçou a desenvolver um estilo único de tocar guitarra – estava sendo forjado não apenas um músico, mas um símbolo. Suas mãos mutiladas pelas máquinas da indústria se transformariam nas mesmas mãos que criariam os riffs mais pesados e desesperados da história do rock.
E aqui me permito – pra variar – uma digressão pessoal, porque a música de Ozzy e do Black Sabbath não é apenas uma questão estética ou cultural – é uma questão profundamente política e existencial. Cresci entre o Sul de Minas e o ABC paulista nas décadas de 1980 e 1990, filho da classe trabalhadora, numa época em que o neoliberalismo se consolidava como projeto hegemônico e as fábricas da região começavam a sentir os primeiros impactos da reestruturação produtiva. Aos 14 anos, eu mesmo trabalhava numa dessas fábricas, junto com centenas de outros meninos menores de idade, numa realidade brutal que hoje – mesmo com outras roupagens – ainda existe.
Era 1998, e o Brasil vivia os “anos dourados” do Plano Real, quando a estabilidade monetária mascarava – como sempre – as contradições sociais mais profundas. Nas fábricas do ABC, a modernização tecnológica caminhava lado a lado com a precarização do trabalho. Meninos como eu, de 14, 15 anos, trabalhavam feito adultos, operando máquinas perigosas, cumprindo jornadas extenuantes, respirando gases tóxicos e esquentando seus míseros pães de café da manhã nos mesmos fornos onde eram feitas as pequenas peças de carro. Era o neoliberalismo como ele realmente é: a exploração do trabalho infantil vendida como suposta oportunidade.
Foi nesse contexto que descobri o Black Sabbath e o heavy metal, ouvindo de tabela junto com minha prima mais velha, uma verdadeira e clássica roqueira do ABC. Meus cabelos compridos não eram apenas uma questão estética adolescente. Eram uma declaração de guerra contra um mundo que queria me transformar numa peça da engrenagem, que queria que eu aceitasse passivamente meu destino de operário explorado. Quando eu ligava meu som analógico e comprado à prestação, (sim, ainda na era pré-digital) e ouvia “War Pigs” ou “Children of the Grave”, sentia que havia outros como eu, que havia uma linguagem comum para expressar nossa revolta.
O heavy metal, naqueles anos, era nossa forma de resistência cultural. Não tínhamos consciência política organizada – éramos jovens demais, cansados demais, alienados demais para isso. Mas tínhamos a música. E a música de Ozzy, com sua melancolia agressiva, com seus gritos de dor e raiva, era nossa forma de dizer “não” a um sistema que nos queria dóceis e submissos.
Lembro-me de um episódio específico e doloroso que ilustra perfeitamente essa dinâmica. Meu irmão, dois anos mais velho que eu, trabalhava na mesma fábrica, operando uma prensa hidráulica. Aos 16 anos, numa manhã qualquer de segunda-feira, a máquina esmagou os dedos de sua mão esquerda. O acidente foi tratado pela empresa como “fatalidade”, como se fosse algo inevitável, natural. Meu irmão recebeu uma indenização patética e um afastamento, um tipo de exílio. Voltou para casa com a mão mutilada e uma raiva surda que até hoje ele não sabe bem como expressar.
Foi nessa época que comecei a ouvir Black Sabbath obsessivamente. “Iron Man” se tornou minha música favorita – e hoje entendo por quê. A letra fala de um homem transformado em ferro, desumanizado, que se torna uma máquina de destruição. Era a metáfora perfeita para o que o capitalismo industrial fazia conosco: nos transformava em ferro (ou melhor, em ferro-velho) em máquinas, nos desumanizava. E quando a máquina nos rejeitava – quando nos mutilava, quando nos descartava – sobrava apenas a raiva. E dá muita raiva também saber que a indústria cultural transformou “Iron Man” num hino de um playboy da indústria das armas, o tal Tony Stark.
O som do Black Sabbath – aqueles riffs pesados, distorcidos, industriais – não era apenas música, era a sonorização da dor proletária. Quando Tony Iommi tocava aqueles acordes sombrios com seus dedos mutilados, quando Ozzy gritava com aquela voz rouca e desesperada, eles estavam traduzindo em linguagem musical algo que nós, jovens operários, sentíamos na pele mas não conseguíamos verbalizar: a sensação de estar sendo triturado por um sistema implacável.
A guitarra distorcida do Black Sabbath era o som das máquinas que nos exploravam. O baixo pesado de Geezer Butler era o ruído surdo das prensas que mutilavam nossos corpos. A bateria frenética de Bill Ward era o ritmo alucinante das linhas de produção que consumiam nossa juventude. E a voz de Ozzy – ah, aquela voz! – era nosso próprio grito de dor e revolta, amplificado e devolvido para nós como arte.
Não é coincidência que o heavy metal tenha nascido nas regiões industriais da Inglaterra e tenha encontrado eco imediato nas periferias operárias do mundo inteiro. Não é coincidência que bandas como Black Sabbath, Judas Priest, Iron Maiden tenham surgido de cidades como Birmingham, Sheffield, Londres – centros industriais em crise. O heavy metal é, fundamentalmente, a música da classe trabalhadora em decomposição, a trilha sonora do proletariado urbano abandonado pelo capital.
E aqui reside uma das grandes ironias da história cultural contemporânea: o mesmo sistema que nos explorava, que mutilava nossos corpos e nossas almas, acabou transformando nossa dor em mercadoria. O heavy metal se tornou um produto cultural global, vendido para milhões de jovens que encontravam nele uma forma de canalizar suas frustrações. Ozzy Osbourne, o jovem operário de Birmingham que gritava sua dor nos bares da periferia, se transformou numa estrela mundial, num ícone pop.
Mas isso não diminui a autenticidade de sua arte nem o impacto que ela teve em nossas vidas. Pelo contrário: o fato de que a dor de Ozzy tenha encontrado eco em milhões de jovens ao redor do mundo apenas confirma o caráter universal da exploração capitalista. Sua música se tornou global porque a dor que ela expressava também era global.
Ozzy Osbourne e os roqueiros de sua geração – os roqueiros “raiz”, como bem observou um leitor, não os reacionários nutellas de hoje – eram, fundamentalmente, românticos. Românticos no sentido mais profundo e político do termo: eram artistas que compreendiam a gênese social de sua tristeza, que sabiam que sua melancolia não era apenas individual, mas coletiva, estrutural.
Quando Ozzy cantava “Paranoid”, não estava apenas expressando uma angústia pessoal – estava dando voz à paranoia coletiva de uma geração que cresceu sob a ameaça da guerra nuclear, da crise econômica e da degradação ambiental. Quando cantava “Children of the Grave”, não estava apenas fazendo uma música de protesto – estava criando um hino para todos os jovens que se sentiam enterrados vivos pelo sistema.
O romantismo revoltado dos roqueiros dos anos 1970 e 1980 era um romantismo de classe, um romantismo que compreendia que a beleza e a arte podiam nascer da dor e da exploração, mas que essa dor tinha causas concretas, materiais, históricas. Eles não romantizavam a pobreza – eles a denunciavam. Não glorificavam a violência – eles a explicavam. Não celebravam a alienação – eles a combatiam.
É isso que diferencia os roqueiros daquela geração dos pseudo-rebeldes de hoje, que transformaram o rock em veículo de conservadorismo e reação. Ozzy e seus contemporâneos sabiam que sua revolta tinha um alvo específico: o sistema capitalista que os explorava. Sabiam que sua música era uma arma na luta de classes, mesmo que não usassem essa linguagem explicitamente.
Por isso a morte de Ozzy nos afeta tanto (pelo menos os bons roqueiros). Porque com ele se vai não apenas um músico, mas um símbolo de resistência. Se vai uma época em que o rock ainda podia ser revolucionário, em que a música popular ainda podia ser um veículo de consciência crítica. Se vai um tempo em que os artistas ainda sabiam de onde vinha sua dor e para onde direcioná-la.
Hoje, quando olho para trás e penso naqueles anos de fábrica, naqueles cabelos compridos que defendia como bandeira de guerra, naquelas tardes ouvindo Black Sabbath no meu quarto pequeno de casa operária, compreendo que Ozzy Osbourne foi muito mais que um músico para a minha e para outras gerações. Ele foi um professor de resistência, um mestre da melancolia revolucionária, um poeta da dor proletária.
Sua morte marca o fim de uma era – não apenas musical, mas política e cultural. Com Ozzy se vai um dos últimos grandes representantes de um rock que ainda sabia ser rebelde, que ainda compreendia sua função social, que ainda podia ser instrumento de conscientização e luta. O rock de hoje, domesticado pelo mercado e cooptado pela direita, perdeu essa dimensão crítica. Transformou-se em entretenimento vazio, em produto cultural despolitizado.
Mas a lição de Ozzy permanece. Sua música continua ecoando nas periferias do mundo, nas fábricas onde jovens operários ainda lutam contra a exploração, nos quartos de adolescentes que descobrem no heavy metal uma linguagem para sua revolta. Porque a dor que Ozzy expressava – a dor da exploração, da alienação, da desumanização – continua atual. O capitalismo mudou de forma, mas não de essência. Continua mutilando corpos e almas, continua transformando seres humanos em máquinas, continua produzindo a mesma dor que Ozzy soube traduzir em arte.
E talvez seja essa a maior lição que podemos tirar da vida e da obra do Príncipe das Trevas: que a arte verdadeira nasce sempre da dor, mas que essa dor pode ser transformada em consciência, em resistência, em luta. Que a melancolia pode ser revolucionária quando se compreende suas causas. Que o romantismo pode ser subversivo quando se recusa a aceitar o mundo como ele é.
Ozzy Osbourne morreu, mas sua música permanece como testemunho de uma época em que ainda era possível acreditar que o rock podia mudar o mundo. Como hino de uma geração que soube transformar sua dor em arte, sua revolta em música, sua melancolia em resistência. Como lembrança de que os verdadeiros roqueiros – os roqueiros raiz, os românticos das trevas – sempre souberam que sua tristeza tinha nome e endereço: chamava-se exploração, morava no coração do sistema capitalista.
Descanse em paz, Príncipe das Trevas. Sua voz continuará ecoando enquanto houver jovens operários que precisem gritar sua dor, enquanto houver máquinas que mutilem corpos, enquanto houver um sistema que transforme seres humanos em miséria. Porque você nos ensinou que mesmo nas trevas mais profundas, mesmo na dor mais lancinante, ainda é possível encontrar beleza. Ainda é possível fazer arte. Ainda é possível resistir. Que pieguice a minha, não? Pois deixem minha elegia em paz.
E resistir é a forma mais romântica de amar. Por isso, sempre passo por “changes” e também por isso, numa espécie de casa eterna, sempre estaremos cantando com você: “Mama, I’m coming home.”
Fonte: ICL Notícias




