O ano de 2026 marca as quatro décadas da adesão de Portugal ao projeto de integração europeia. Num momento de questionamento do bloco e de uma verdadeira crise existencial na UE, atacada tanto por russos como por americanos, a transformação gerada num pequeno país que beira o Atlântico deveria servir de recado aos que questionam sua relevância.
Em 12 de junho de 1985, Portugal aderiu à então Comunidade Económica Europeia, ao lado da Espanha. O projeto entrou em vigor em 01 de janeiro de 1986.
Um levantamento do jornal Observador é revelador sobre o impacto dessa decisão. Em 40 anos, Portugal recebeu 154 bilhões de euros em recursos da UE. Chamados de Fundo de Coesão, o objetivo dos recursos era o de trazer países com menor desenvolvimento social aos patamares mais próximos possíveis da média do continente.
Naquele momento de adesão, por exemplo, apenas 50% dos portugueses tinham água encanada e apenas 37% das residências contavam com saneamento básico. Hoje, a taxa é de 99,7%.
Não existia uma rodovia que ligasse as cidades de Porto e Lisboa. Hoje, Portugal é um dos lideres no continente no número de quilômetros por habitantes. Foram dezenas de obras transformadoras no país que, junto com a construção da democracia, revolucionaram Portugal.
Hoje, 93% das casas contam com cobertura de fibra ótica nas zonas rurais, inclusive em locais onde falta gente.
Antes da adesão ao projeto europeu, mais de um terço população ativa ainda vivia na zona rural e a distância econômica de Portugal ao restante da Europa era profunda. O PIB per capita representava apenas 55,4% da média do continente. Hoje, é de 88%.
No momento da queda de Salazar, dez anos antes da adesão ao pacto europeu, 25% dos portugueses eram analfabetos e o país tinha a população menos escolarizada da Europa.
Hoje, a taxa de analfabetismo é de apenas 3,1% e um quinto da população possui ensino superior.
No campo da saúde, a taxa de mortalidade infantil caiu de 55 óbitos por cada mil nascimentos em 1970 para 2,5 em 2023.
Os desafios ainda são profundos, o projeto de integração foi repleto de problemas, escândalos surgiram e questionamentos são pertinentes sobre como se gastou a ajuda da UE. Exigir transparência, democracia e respeito pela soberania de um povo também devem fazer parte de qualquer pacto político.
Mas é inquestionável a transformação que a democracia e a adesão ao projeto de integração representaram para Portugal.
Quando alguma nostalgia – ou saudades, para usar nossa palavra mágica – se transforme em um instrumento político de populistas, ter a noção correta do que foram os últimos 40 anos em Portugal é um primeiro passo significativo como antídoto ao discurso “patriótico”.
Sob ataque e também por sua própria responsabilidade, a UE precisa urgentemente redescobrir seu lugar no mundo. Como poucas vezes na história, seu papel está sendo profundamente questionado na ordem internacional.
O que não se pode é esquecer que a UE jamais foi apenas um projeto de integração econômica. Trata-se do maior plano de paz social do século 20, colocando fim a uma sucessão de conflitos que desmontaram qualquer ideia de autoridade moral por parte do Ocidente. Mas é também um projeto – ainda que imperfeito – de paz social.
Substitui-lo por nacionalismos calhordas seria o grande erro de uma geração.




