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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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A velha ordem que está morta e a nova que ainda luta para nascer


A guerra da Ucrânia mudou o mundo. Melhor – mudou uma parte do mundo, o Ocidente, que por sua vez mudou o resto. O “resto do mundo”. Era assim que o Ocidente se referia aos outros, aos que estavam afastados das decisões globais. Agora, a tristeza europeia é que os outros nem sequer reparam nela – o “resto do mundo” olha para o declínio europeu com indiferença. No Brasil quase não se fala da guerra da Ucrânia, um dos conflitos mais sangrentos das últimas décadas. Parece que só a Europa está agarrada à continuação da guerra – ou, melhor dizendo, é a ela, Europa, que vão ser imputados os custos da derrota militar.

O plano de paz de vinte e oito pontos (negociado entre russos e americanos) incluía o reconhecimento americano da anexação da Crimeia, de Lugansk e de Donetsk, o abandono definitivo da integração da Ucrânia na OTAN, a limitação das forças armadas ucranianas a 600. 000 homens e a amnistia total de crimes de guerra. Face à contestação europeia a administração Trump reviu a proposta – de vinte e oito pontos passou para vinte, mantendo o essencial do dispositivo inicial e alterando a dimensão do exército ucraniano para oitocentos mil homens. É ao que se chama uma operação de cosmética. O essencial manteve-se: acabar rapidamente com a guerra fazendo uma gestão controlada da derrota ucraniana. Basicamente, uma capitulação.

O objetivo do acordo americano nunca foi punir a invasão russa, mas legalizá-la. Esta posição, por mais que doa aos europeus, desenvolve-se a partir de uma lógica geopolítica implacável – a manutenção do conflito custa mais aos americanos do que a sua resolução e a consequente libertação dos recursos militares para o indo-pacifico. A prioridade já não é a Europa, mas a rivalidade com a China; o ponto de conflito já não é Berlim, mas Taiwan. É importante compreender a assimetria da ameaça da guerra: para os americanos a Ucrânia não é uma guerra existencial, mas um instrumento táctico num confronto mais alargado com a China. A Europa demorou a entender: aos americanos basta-lhes que a vitória russa seja organizada sob supervisão americana.

Em que é que isto muda a ordem mundial? Muda tudo, porque muda a ordem ocidental que sempre esteve no coração da ordem global– a Europa era o parceiro júnior da aliança atlântica; os Estados Unidos, o parceiro dominante. A Europa era o soft power; os Estados Unidos, o hard power. A Europa aspirava a ser a potência normativa do mundo, colocando-se ao lado do direito internacional, ao lado da paz, ao lado do diálogo e do respeito mútuo entre as nações. Os Estados Unidos, em contrapartida, consultavam os aliados europeus e negociavam antes de usar a força militar. A guerra da Ucrânia, fez ruir todo o edifício. O novo método de governação é este: os Estados Unidos já não negoceiam previamente com os seus aliados, os Estados Unidos já não informam antes os aliados, os Estados Unidos comunicam as suas decisões – depois de negociar com a Rússia. A humilhação institucional são as fugas de imprensa: os líderes europeus sabem das negociações com os russos pelos jornais.

Compreendamos bem o significado do que está a acontecer. A negociação direta com a Rússia altera a relação de forças na Europa na medida em que negociar diretamente com Putin sem consulta prévia aos países europeus estabelece um novo e importante princípio: os Estados Unidos discutem o futuro da Europa em negociações bilaterais com as potências adversárias e sem que os estados-membros da Europa tenham uma palavra a dizer sobre a sua própria segurança. A mudança da ordem mundial é, no essencial, uma crise ocidental, uma crise europeia – tão europeia que o resto do mundo quase não repara. Na bela formulação de Gramsci, a crise consiste precisamente em saber que a velha ordem está morta, mas a nova ainda luta para nascer – no entretanto, dizia ele, surgem fenómenos mórbidos. Para a Europa o fenómeno mórbido, o monstro na sala, consiste em deixar de ser informada sobre as questões que envolvem a sua própria segurança.

No entretanto a guerra da Ucrânia continua. Todos os dias morrem soldados e civis e todos os dias há mais caos e mais destruição. Uma catástrofe humana. Os números são horripilantes – dois milhões de vítimas militares, o que faz desta guerra a mais sangrenta desde a segunda guerra mundial. Este mês a guerra faz quatro anos e ultrapassa a duração da última guerra germano-soviética (junho de 1941 a maio de 1945). À Europa parece restar o sofrimento próximo e indiferença longínqua do “resto do mundo”. O papel que os Estados Unidos lhe reservam é o de explicar às suas opiniões públicas a derrota militar.





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