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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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A verdade sobre Epstein nunca foi segredo


 

Há dois anos escrevo esta coluna no ICL sobre temas relacionados ao que orbita a existência das mulheres. Inevitavelmente trago histórias de homens poderosos e mulheres descartáveis. Notícias sobre como o mundo protege predadores e pune vítimas.

Há dois anos escrevo sobre como a violência contra mulheres raramente começa com um soco — ela começa com um silêncio.

Os chamados “arquivos” de Jeffrey Epstein não são somente um choque. São a versão burocrática de tudo que as mulheres contam há séculos.

Listas. Nomes. Registros. Voos. Convites. Dinheiro.

Documentos que, agora, fingem inaugurar uma verdade que sempre esteve exposta. A diferença é simples e brutal: quando mulheres falam, é “acusação”. Quando um homem deixa papelada, vira “revelação”.

Os arquivos não criam o horror. Eles confirmam o que foi ignorado. Sempre existiu um sistema de caça.
Sempre existiu uma engrenagem que transforma corpos femininos em moeda de troca. Sempre existiu um clube fechado onde homens ricos se protegem enquanto meninas pobres são oferecidas como custo operacional.

Nada disso é novo.O novo é a encenação coletiva de espanto.

Enquanto isso, textos como os meus — e de tantas outras mulheres — seguem sendo tratados como exagero, ressentimento, militância histérica, feminismo radical, texto raivoso. Raiva, aliás, é uma palavra curiosa.

Ela nunca é aplicada a homens que destroem países. Só a mulheres que se recusam a engolir a própria destruição em silêncio.

Escrevo sobre violência contra mulheres não porque gosto do tema. Escrevo porque ele me persegue. Porque ele atravessa a história. Porque ele organiza o mundo.

Os arquivos de Epstein não são uma exceção. São o manual. Mostram o que sempre esteve em funcionamento:  homens comprando acesso, homens vendendo silêncio, homens terceirizando a culpa,
homens alegando ignorância com a naturalidade de quem sempre foi absolvido.

E mostram, em especial, como a sociedade só acredita em mulheres quando um homem confirma. Quando uma mulher diz “fui abusada”, pedem provas. Quando dezenas dizem, pedem calma. Quando centenas dizem, pedem tempo. Quando surge um documento, pedem justiça.

Mas justiça para quem?

Porque até agora, o que vemos é o mesmo roteiro: nomes circulam, manchetes explodem, debates fervem — e o sistema permanece intacto. Não é falta de informação.

Nunca foi. É escolha.

Escolhemos conviver com a violência desde que ela não atrapalhe o conforto. Escolhemos proteger reputações em vez de pessoas. Escolhemos desacreditar mulheres porque acreditar nelas desmonta impérios.

Meus textos em defesa das mulheres não nascem de ideologia. Nascem de observação. Do histórico. Do padrão. Do fato de que toda menina aprende cedo demais a ter medo. E todo menino aprende cedo demais que provavelmente ficará impune.

Os arquivos de Epstein deveriam ser lidos como prova material de uma cultura. A cultura que ensina homens a tomar. E mulheres a suportar. A cultura que chama abuso de “caso”. Que chama exploração de “escândalo”. Que chama estupro de “polêmica”.

Escrevo porque sei que amanhã haverá outro nome. Outro arquivo. Outro conjunto de documentos.

Enquanto homens continuarem ocupando todos os lugares de poder, decidindo o que é verdade, o que é dúvida e o que é esquecido, mulheres continuarão morrendo duas vezes: uma no corpo, outra na credibilidade.

Os arquivos não contam uma nova história. Eles apenas colocam carimbo na história que as mulheres sempre contaram. A verdade, quando finalmente aparece, quase sempre chega atrasada.
Mas as mulheres estavam lá desde o início.

Falando. Avisando. Sobrevivendo.

E ninguém pode dizer que não sabia.





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