Por Cleber Lourenço
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) participou do trabalho de identificação e acompanhamento do grupo extremista investigado por planejar ataques contra autoridades, prédios públicos e eventos em Brasília. A atuação ocorreu antes da Operação Rede Interrompida, deflagrada nesta terça-feira (4) pela Polícia Civil do Distrito Federal em cinco estados.
O ICL Notícias recebeu uma nota da INTELIS, entidade que representa profissionais da área de Inteligência, segundo a qual o caso demonstra como a atuação integrada entre os órgãos de Inteligência e a polícia permitiu que a ameaça fosse identificada antes que os planos avançassem para uma ação violenta.
“A Inteligência produz o conhecimento; a Polícia transforma esse conhecimento em ação”, afirma a entidade.
Segundo a INTELIS, a operação evidencia a complementaridade entre as duas áreas e reforça a importância do trabalho de antecipação de riscos. A entidade também defende o fortalecimento institucional da Abin, destacando a necessidade de profissionais especializados e formação permanente para o enfrentamento de redes extremistas.
“A produção de conhecimentos estratégicos para antecipar ameaças à segurança do Estado e da sociedade exige profissionais altamente especializados”, diz a nota.
A operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão contra investigados de 19 a 31 anos localizados em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Não houve prisões.
Segundo as investigações, o grupo utilizava comunidades no Telegram para disseminar conteúdos neonazistas, antissemitas, racistas e misóginos, recrutar integrantes e discutir a organização de ataques durante o período eleitoral.
Entre os planos investigados estavam atentados contra prédios da Esplanada dos Ministérios, invasões de edifícios públicos e a possibilidade de uso de explosivos em um debate entre candidatos à Presidência da República. O Palácio do Planalto teria sido classificado como um dos alvos prioritários.
A investigação teve origem em informações produzidas pelo Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça, o Ciberlab. O órgão atuou na análise de evidências digitais, na identificação das conexões entre os suspeitos e na produção de Inteligência cibernética. A operação também contou com o apoio da Abin e das polícias civis dos estados onde os mandados foram cumpridos.
Inteligência atuou antes dos mandados
A participação da Abin ocorreu em uma fase diferente daquela conduzida pela Polícia Civil. Enquanto a investigação policial busca provas para demonstrar a prática de crimes e responsabilizar os envolvidos, a atividade de Inteligência procura antecipar ameaças, identificar riscos e acompanhar processos de radicalização antes que a violência aconteça.
Segundo servidores da Agência Brasileira de Inteligência ouvidos pelo ICL Notícias, o monitoramento de grupos ligados ao extremismo violento é permanente e integra a rotina da área de Inteligência. De acordo com as fontes, o objetivo é identificar quando integrantes deixam de apenas compartilhar discursos radicais e passam a apresentar sinais concretos de preparação para atos violentos.
Ainda segundo esses servidores, o grupo investigado já vinha sendo acompanhado quando analistas identificaram uma escalada no nível de radicalização. As informações reunidas pela Abin foram consolidadas em um relatório de Inteligência e compartilhadas com a Polícia Civil do Distrito Federal pelos canais previstos no Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), permitindo o início da investigação criminal que culminou na Operação Rede Interrompida.
O Ministério da Justiça informou que o Ciberlab participou da análise de evidências digitais e da identificação das relações entre os investigados. O trabalho permitiu conectar suspeitos espalhados por diferentes estados e subsidiou as medidas cumpridas pela polícia.
Grupo discutia alvos e explosivos
As conversas obtidas durante a investigação mostram que os integrantes discutiam uma mobilização violenta para outubro, mês em que serão realizados os dois turnos das eleições.
Os suspeitos compartilhavam mapas, plantas arquitetônicas, modelos tridimensionais de prédios públicos e materiais com instruções para a fabricação de explosivos. Também debatiam a divisão de funções, o recrutamento de novos integrantes e a classificação dos possíveis alvos.
Além do Palácio do Planalto, estavam entre os locais mencionados o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e edifícios ministeriais.
Uma das hipóteses investigadas era a colocação de explosivos em um prédio que recebesse um debate presidencial, possivelmente durante o segundo turno. Até agora, porém, a investigação não indicou que algum candidato específico tenha sido escolhido como alvo individual.
A Polícia Civil também não informou ter encontrado bombas prontas nos endereços investigados. Os equipamentos eletrônicos apreendidos serão periciados para determinar até que ponto os planos haviam avançado e se o grupo já possuía capacidade material para executar os ataques.
Segundo os servidores da ABIN ouvidos pela reportagem, o tempo de acompanhamento varia conforme cada caso. Alguns grupos permanecem sob monitoramento durante anos, enquanto outros evoluem rapidamente, exigindo respostas mais imediatas. Eles ressaltam que a função da Inteligência é antecipar ameaças e subsidiar a atuação dos órgãos de investigação, e não produzir provas para utilização em processos criminais.
As fontes acrescentam que a cooperação entre a Abin e polícias estaduais em investigações envolvendo extremismo violento não é inédita, embora detalhes sobre outras operações permaneçam sob sigilo para não comprometer investigações em andamento nem expor métodos de Inteligência.
A investigação prossegue sob sigilo. Os suspeitos são apurados por associação criminosa, incitação ao crime, apologia de crime ou criminoso e delitos previstos na legislação antirracismo. Até o momento, o caso não foi enquadrado na Lei Antiterrorismo.





