Por Beatriz Drague Ramos – Brasil de Fato
A recente divulgação de mais de três milhões de arquivos relacionados ao caso Jeffrey Epstein, financista acusado de chefiar uma rede de tráfico sexual e abuso de menores, que morreu antes de ser julgado, trouxe à tona o envolvimento da elite global entre celebridades e políticos. O nome de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, aparece mais de mil vezes.
Apesar da gravidade das revelações sobre o mandatário dos EUA, que incluem acusações de estupro contra uma menor na década de 1990, a estrutura política do país parece manter o republicano estável no cargo.
Especialistas explicam que a sobrevivência de Trump se deve a uma combinação de rigidez institucional e uma base eleitoral altamente radicalizada. Segundo o analista geopolítico Hugo Albuquerque, a divisão social impede que escândalos morais rompam o apoio político tradicional.
“Acho que cada grande bloco tem 40% do eleitorado, 40% da sociedade americana. Tem um bloco que é conservador e neofascista e tem um outro bloco que reúne liberais e socialistas. As eleições são decididas ali por uma pequena parte do eleitorado que não se alinha automaticamente com nenhum dos dois grupos. É um eleitorado ultra centrista, altamente volátil, ideológico e muitas vezes até amoral. Esse polo de 40% é a base, é o piso que a direita tem, e atualmente eles têm o Trump.”
Segundo o analista, o escândalo não ganha força, pois há um pacto para manter um ultra direitista no poder. “O Trump só vai cair se esse bloco tirar o apoio. O que aconteceu, por mais chocante que seja, é que ele é colocado debaixo dos panos por parte desse grande bloco de poder direitista, que só vai transigir e tirar o Trump, independentemente do que ele faça, caso eles tenham uma opção.”
Albuquerque ressalta ainda que, diferentemente de outros sistemas jurídicos, o controle do Executivo sobre o Departamento de Justiça e a maioria na Suprema Corte criam um escudo quase intransponível. “Não há uma independência do Ministério Público deles para derrubar o presidente. Não existe essa separação. Em suma, os Estados Unidos não são o Brasil. O presidente da República, controlando o seu ministro da Justiça, tem um poder muito grande, inclusive sobre a acusação contra a própria presidência. Se ele tem a maioria na Suprema Corte, é realmente muito complexo que o Trump seja derrubado, a menos que tenha uma prova muito contundente.”
Albuquerque também descarta um processo de impeachment contra o atual presidente. “Sofrer um processo de impeachment no atual grau de polarização e semi guerra civil dos Estados Unidos é algo muito delicado. É algo que só aconteceria se a cúpula do poder da direita conseguisse criar uma alternativa para o Donald Trump no curto prazo. Talvez uma traição do vice, o que não está perto de acontecer. Então, o que a gente tende a ver é uma aceleração da crise socioeconômica e política dos Estados Unidos.”

‘Chantagem global’
Já para o jornalista e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), José Arbex Jr., o caso Epstein é o sintoma de algo muito mais profundo: uma engrenagem de chantagem global que envolve agências de inteligência e o alto escalão do capital financeiro, o que explicaria a dificuldade em responsabilizar figuras centrais.
“O caso Epstein é muito mais complicado e grave do que aparece à primeira vista. Como mostra a jornalista Whitney Webb, num livro de dois volumes (1.150 páginas), intitulado “One Nation under Blackmal” (Uma Nação sob Chantagem), os aspectos sexuais do escândalo, embora sejam explosivos e revoltantes, são apenas um componente de uma rede mundial que envolve o capital, agências de espionagem (CIA, MI6, mossad etc), grupos mafiosos (italianos, judaicos, irlandeses etc.) e, claro, bilionários e “personalidades”, entre os quais, Bill Clinton, Donald Trump, Bill Gates, Steve Bannon, Elon Musk, Woody Allen, príncipe Andrew, o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak e muitos outros”, alega.
A rede, que inclui relações entre a CIA (Central Intelligence Agency), principal agência de inteligência estrangeira dos EUA, o Instituto de Inteligência e Operações Especiais e outros serviços de espionagem, começou a ser formada em 1942. Diante disso, Epstein é só a “ponta do iceberg”, diz o professor.
“A autora vem advertindo, em várias lives e podcasts nos Estados Unidos, que embora seja importante investigar e punir os envolvidos na rede de pedofilia, o foco deveria ser centrado na investigação de uma rede mundial de crime e espionagem, que movimenta centenas de bilhões de dólares em tráfico de armas, drogas, pessoas, e promove golpes de Estado e insurreições. É essa rede que, com a ‘ajuda’ da mídia dos patrões, mantém Trump no poder. Vão fazer de tudo para não deixar o edifício ruir. No limite, não descarto o assassinato de Trump, como ‘queima de arquivo’.”
Revitimização e falhas do Estado
Enquanto o debate político segue acalorado, 43 das vítimas envolvidas no caso enfrentam uma nova forma de violência, desta vez praticada pelo próprio Estado. O Departamento de Justiça descumpriu a lei aprovada no ano passado ao permitir que imagens de mulheres nuas na ilha particular de Epstein e dados sensíveis, como endereços residenciais, fossem tornados públicos sem a devida tarja.
A advogada de uma das mulheres cujo nome apareceu nos arquivos, Brittany Henderson, classificou a atuação do departamento como um “nível de descaso” chocante, ao New York Times. A sobrevivente Annie Farmer reforçou o impacto psicológico da falha: “É difícil imaginar uma forma mais flagrante de não proteger as vítimas do que disponibilizar imagens delas completamente nuas para download no mundo todo”, afirmou ao New York Times.
O deputado democrata Ro Khanna classificou o episódio como um dos maiores escândalos da história estadunidense e não descarta pedir a demissão da secretária de Justiça, Pam Bondi.
Para Trump, as menções nos documentos são tratadas com desdém. Questionado sobre os registros que citam abusos e sua proximidade com Epstein, o presidente afirmou estar confiante de que o conteúdo, na verdade, o absolve, mantendo a retórica que sustenta sua base fiel de apoio.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o vice-secretário de Justiça, Todd Blanche, afirmou que parte dos arquivos divulgados nesta sexta-feira (30) podem ser falsos.
“Alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump que foram submetidas ao FBI pouco antes da eleição de 2020. Para deixar claro, as alegações são infundadas e falsas, e se tivessem qualquer fragmento de credibilidade, certamente já teriam sido usadas contra o presidente Trump”, disse Blanche.
Quem foi Epstein
O falecimento de Jeffrey Epstein em 2019, ocorrido antes de seu veredito, não encerrou o impacto de seus crimes. Pelo contrário, sua rede de contatos com a alta sociedade e o histórico de exploração sexual continuam alimentando debates políticos.
Durante a campanha de 2024, Donald Trump utilizou o tema estrategicamente, prometendo revelar uma lista de clientes do financista que, segundo ele, comprometeria figuras democratas como Bill Clinton e Barack Obama.
Após a vitória de Trump, a secretária de Justiça, Pam Bondi, chegou a indicar que os nomes seriam revelados, embora a defesa de Epstein e de sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, duvidasse da existência de tal documento. O impasse foi esclarecido meses depois pelo FBI, que confirmou a inexistência da lista. A negativa da polícia federal, no entanto, não aplacou a ala republicana, que passou a exigir transparência total sobre os arquivos do caso.
Essa mobilização, que uniu pressões da base governista e da oposição, colocou em risco a agenda legislativa no Congresso, forçando a aprovação de uma lei de abertura de dados. Mesmo contra sua vontade inicial, Trump se viu compelido a sancionar a medida que retirou o sigilo do processo.




