Ações da Moderna sobem 150% após vacina contra câncer ter resultado positivo


As ações da Moderna dispararam mais de 150% na Bolsa de Nova York nesta quarta-feira (19), configurando o melhor pregão da história da farmacêutica. O salto veio após a empresa anunciar que a fase final do estudo de sua vacina personalizada contra o câncer teve resultado positivo, em parceria com a Merck, cujos papéis também subiram cerca de 12% na sessão.

A vacina, batizada de intismeran autogene, foi testada em combinação com o Keytruda, imunoterápico da Merck já usado contra o melanoma, forma mais letal de câncer de pele. Diferentemente das vacinas tradicionais, que previnem doenças antes que elas surjam, essa é fabricada sob medida para cada paciente, a partir das mutações genéticas específicas do tumor já existente.

O tratamento combinado atingiu os dois principais objetivos do estudo: reduziu significativamente o risco de o melanoma retornar após a cirurgia de remoção do tumor e diminuiu as chances de o câncer se espalhar para outras partes do corpo, quando comparado ao uso isolado do Keytruda.

Mão de homem com câncer de pele
Teste bem sucedido da vacina foi para o combate do melanoma, forma mais letal de câncer de pele (Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil)

Como a vacina age no organismo

O processo começa com o sequenciamento de uma amostra do tumor, para identificar suas mutações genéticas específicas, uma espécie de assinatura molecular daquele câncer. A partir disso, é produzida uma molécula de mRNA capaz de sinalizar até 34 alvos exclusivos daquele tumor. Ao ser injetada no paciente, ela ‘treina’ o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células que carregam essas mutações.

Já o Keytruda atua bloqueando uma proteína usada pelos tumores para escapar da resposta imune, o que permite que as células de defesa ajam com mais força. A combinação une, portanto, dois mecanismos complementares: um aponta o alvo e o outro retira o freio da resposta do organismo.

O estudo reuniu 1.137 pacientes com melanoma cutâneo. Dois terços receberam a combinação da vacina com Keytruda, e o restante foi tratado apenas com o imunoterápico por cerca de um ano.

Numa análise feita antes da conclusão prevista da pesquisa, o grupo que recebeu os dois tratamentos juntos apresentou resultados superiores tanto na sobrevida sem recorrência quanto na sobrevida sem metástase à distância. As empresas não divulgaram os percentuais exatos dessa nova análise, mas um estudo anterior, de fase intermediária, já havia mostrado redução de 49% no risco de recorrência ou morte após cinco anos de acompanhamento. O perfil de segurança da combinação seguiu consistente com o observado em estudos anteriores.

Tecnologia é testada contra outros tipos de câncer

A mesma plataforma de mRNA usada na vacina contra melanoma, que também serviu de base para o imunizante da Moderna contra a Covid-19, está sendo testada em outros tipos de tumor. O programa de pesquisa da empresa reúne nove estudos em fases avançadas voltados a cânceres de pulmão, bexiga e rim, além de pesquisas em estágio inicial para tumores de pâncreas, estômago e outro subtipo de câncer pulmonar. Câncer de ovário também está entre os próximos alvos de investigação com a tecnologia.

Efeito se espalha pelo setor

A valorização não ficou restrita à Moderna e à Merck: ações de empresas que integram a cadeia de produção de vacinas, como fornecedoras de equipamentos e reagentes, também subiram entre 5% e 10% no mesmo pregão, em movimento associado ao otimismo com a nova aplicação da tecnologia de mRNA.

Apesar do entusiasmo do mercado, o avanço científico ainda precisa passar por outras etapas antes de se traduzir em mudança na prática clínica, já que a adoção ampla de vacinas personalizadas contra o câncer depende de fatores que ainda não podem ser avaliados apenas com os dados divulgados até agora.





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