Por Cleber Lourenço
A influência de Pablo Marçal sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante o debate presidencial de domingo (18) reacendeu entre aliados o temor de que o influenciador se transforme em uma espécie de “nova Carla Zambelli”, provocando desgaste à campanha na reta final do segundo turno. A postura provocativa do senador no confronto com o presidente Lula (PT) desagradou integrantes de seu próprio campo político, incluindo o governador eleito do Paraná, Sergio Moro.
Segundo o jornalista Guilherme Amado, Moro criticou, em conversas com interlocutores, a decisão de Flávio de reproduzir o estilo de Marçal. Na avaliação atribuída ao ex-juiz, o candidato desperdiçou a oportunidade de demonstrar preparo para a Presidência ao privilegiar provocações, em vez de apresentar propostas capazes de conquistar eleitores indecisos.
As críticas também vieram de Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação de Jair Bolsonaro. Na manhã desta segunda-feira (19), ele publicou uma mensagem questionando o tipo de estratégia adotada no debate e cobrando que os profissionais da campanha se concentrem em suas funções.
“Não é mídia de dancinha nem de lacração. Quem tá vendo não está passando com o dedo e arrastando para cima. Não é possível que não entendam isso”, escreveu.
Wajngarten também afirmou que o público de um debate presidencial quer propostas e respostas, não apenas provocações. Ao final, mandou um recado aos responsáveis pela estratégia: “Que cada profissional da campanha foque e fique no seu quadrado. Não inventem.”
Embora não tenha mencionado Flávio ou Marçal nominalmente, a publicação foi feita poucas horas depois do confronto e questionou justamente a aposta em provocações e conteúdos voltados às redes sociais.
O episódio ganha relevância porque Wajngarten já havia entrado em confronto público com Marçal durante a eleição municipal de São Paulo, em 2024.
Na ocasião, o ex-secretário de Bolsonaro criticou o influenciador por comparar a cadeirada que recebeu de José Luiz Datena, durante um debate, à facada sofrida por Jair Bolsonaro em 2018 e ao atentado contra Donald Trump. Wajngarten considerou inadmissível a comparação.
Dois anos depois, os dois voltam a aparecer em lados diferentes de uma discussão sobre o uso de provocações e episódios de grande repercussão como estratégia eleitoral.
Marçal orientou Flávio durante o debate
A participação de Marçal na preparação de Flávio não se limitou aos bastidores anteriores ao confronto. O influenciador acompanhou o debate da plateia e fez gestos para orientar o senador, que olhava discretamente em sua direção.
Durante os intervalos, Marçal e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também transmitiam instruções à assessora econômica Daniella Marques, responsável por repassar os recados ao candidato.
Flávio adotou uma postura marcada por provocações, interrupções e tentativas de constranger Lula. Em um dos momentos mais comentados, posicionou-se atrás do presidente enquanto ele respondia a uma pergunta, buscando aparecer nas imagens da transmissão. A orientação específica para essa movimentação partiu do marqueteiro Duda Lima.
A estratégia dividiu aliados. Enquanto alguns avaliaram que as provocações conseguiram desestabilizar Lula, outros consideraram que o senador exagerou e transmitiu uma imagem de arrogância, deixando em segundo plano as respostas e propostas.
O temor de repetir o episódio de Zambelli
A preocupação com o surgimento de uma “nova Zambelli” já circulava entre aliados de Flávio desde abril. O receio era de que o comportamento de uma figura próxima ao candidato provocasse desgaste eleitoral justamente entre os eleitores que a campanha precisava conquistar.
A comparação remete ao episódio protagonizado por Carla Zambelli às vésperas do segundo turno de 2022, quando a então deputada perseguiu um homem com uma arma de fogo pelas ruas de São Paulo. As imagens tiveram ampla repercussão e provocaram críticas ao bolsonarismo.
Em março de 2025, o próprio Jair Bolsonaro responsabilizou publicamente Zambelli por parte do desgaste sofrido por sua campanha na eleição anterior, embora não haja comprovação de que o episódio tenha determinado o resultado.
No caso de Marçal, a resistência também tem antecedentes. Durante a disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2024, o influenciador acumulou conflitos com integrantes do campo bolsonarista e protagonizou episódios que provocaram forte repercussão.
O mais grave ocorreu às vésperas do primeiro turno, quando divulgou um laudo médico falso para tentar associar Guilherme Boulos (PSOL) ao uso de cocaína. A falsidade do documento foi confirmada por perícia.
A aproximação posterior entre Marçal e Flávio já havia provocado desconforto entre aliados do prefeito Ricardo Nunes (MDB), preocupados com os efeitos dessa associação sobre o eleitorado paulista.
Levantamentos identificam críticas à agressividade e às evasivas de Flávio
O desconforto com a postura de Flávio também apareceu em diferentes levantamentos realizados durante e depois do debate, inclusive em pesquisas internas da própria campanha do senador.
Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira (19), o monitoramento do PL identificou entre eleitores indecisos a percepção de que Flávio “fugiu demais das perguntas”. A campanha também reconheceu que o confronto acabou concentrado nas bases eleitorais dos dois candidatos, sem conseguir ampliar significativamente o diálogo com os indecisos.
A avaliação contrasta com a estratégia de apostar em provocações para produzir vídeos de repercussão nas redes sociais. Embora integrantes da campanha considerem que Flávio conseguiu desestabilizar Lula em determinados momentos, o monitoramento revelou críticas à falta de respostas objetivas do senador.
A reação também apareceu em grupos focais acompanhados durante o debate. Eleitores indecisos classificaram o comportamento de Flávio como agressivo e, em alguns casos, intimidador. A insistência em permanecer atrás de Lula enquanto o presidente falava foi um dos episódios mencionados negativamente.
Em cinco grupos focais realizados para a campanha petista, participantes consideraram algumas atitudes do senador infantis e provocativas. Em contrapartida, abordagens de Lula sobre custo de vida, SUS, fim da escala 6×1 e privatizações receberam avaliações positivas.
O desafio feito pelo presidente para que ambos abrissem seus sigilos bancários e telefônicos também foi apontado como um dos momentos de repercussão favorável a Lula.
Apesar das críticas ao senador, a maioria dos participantes permaneceu indecisa, e Lula também recebeu avaliações negativas por momentos de irritação. Os levantamentos qualitativos não permitem medir o comportamento de todo o eleitorado.
WhatsApp registra 69% de menções negativas a Flávio
O monitoramento da Palver sobre mensagens compartilhadas no WhatsApp identificou que 69% das menções a Flávio no universo analisado foram negativas.
Entre as opiniões que compararam o desempenho dos dois candidatos, 62% apontaram Lula e 31% Flávio.
Outro dado chama atenção: 47% das críticas ao senador estiveram relacionadas à falta de respostas durante o debate e à repercussão da palavra “corrupto” escrita em sua mão.
O levantamento também registrou avaliações negativas sobre Lula. Considerando as menções individuais ao presidente, 48% foram negativas e 45% positivas.
Os resultados dizem respeito ao conjunto de mensagens monitoradas pela plataforma e não constituem uma pesquisa representativa dos eleitores brasileiros.
Vídeos de Lula alcançam 65,7 milhões de visualizações
A repercussão digital também apresentou números relevantes para a estratégia adotada pelas campanhas.
Um levantamento da Ativaweb Datalab identificou que os 12 vídeos publicados pela campanha de Lula durante a madrugada posterior ao debate acumularam 65,7 milhões de visualizações. Os quatro vídeos divulgados pela campanha de Flávio somaram 22,1 milhões.
No conjunto analisado, Lula concentrou 74,8% das visualizações, além de 62,8% das curtidas nos comentários e 56,3% dos novos seguidores. Flávio teve participação maior no volume de comentários, com 51,6%.
Um dos conteúdos de maior circulação foi o vídeo em que Lula desafiou o adversário a abrir seus sigilos bancários e telefônicos. A publicação alcançou 10,2 milhões de visualizações.
A diferença no número de publicações é relevante para interpretar os resultados: a campanha petista divulgou três vezes mais vídeos que a de Flávio. As visualizações também não correspondem necessariamente a usuários únicos.
O levantamento identificou ainda forte repercussão de críticas à condução do próprio debate, especialmente à ausência de checagem de fatos em tempo real.





