Auditoria no BC mira gestão Campos Neto e apura se liquidação do Banco Master foi tardia


O Banco Central abriu uma investigação interna sigilosa para apurar possíveis falhas na condução do caso envolvendo o Banco Master, com foco nas decisões adotadas desde 2019, período que coincide com a gestão do ex-presidente da instituição, Roberto Campos Neto.

A apuração foi determinada pelo atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, logo após a decretação da liquidação extrajudicial do banco, em novembro do ano passado. A existência do procedimento só veio a público nesta quinta-feira (29), justamente por tramitar sob sigilo dentro da autoridade monetária.

Apesar das alegações de ex-gestores do Banco Master de que a liquidação teria sido precipitada, a principal linha de investigação aponta para a possibilidade oposta: havia elementos para que a intervenção tivesse ocorrido antes.

A liquidação de uma instituição financeira é considerada uma medida extrema, mas, segundo fontes envolvidas no processo, poderia ter evitado um impacto bilionário. Somente o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) deve arcar com um custo próximo de R$ 50 bilhões, além de perdas de fundos de pensão e investidores que não contam com a proteção do fundo.

A sindicância interna acompanha todo o histórico da relação do Banco Central com o Master. Isso inclui:

  • a autorização para a transferência do controle do antigo Banco Máxima para o Master;
  • o processo de consolidação da instituição, que se estendeu por cerca de dois anos;
  • e a identificação dos problemas de liquidez, que passaram a ficar mais evidentes em 2024.

A investigação também responde ao avanço das apurações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF), que apontam indícios relevantes de crise de liquidez e de venda de carteiras de crédito sem lastro ainda antes da liquidação.

Haddad afirma que faltou diálogo na gestão anterior do BC

Em meio às revelações, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que não houve interlocução entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda durante a gestão de Roberto Campos Neto. Segundo ele, o diálogo só foi retomado com a posse de Galípolo, que teria identificado rapidamente a gravidade do problema.

“Não houve dialogo do BC com Fazenda a não ser a partir da posse do [atual presidente, Gabriel] Galípolo. O Gabriel, logo que assumiu, percebeu o tamanho do ‘abacaxi’ que ele tinha, viu que a situação era muito grave, em poucos meses envolveu Ministério Público e Polícia Federal porque havia suspeitas de fraude em carteiras”, afirmou Haddad, acrescentando que, diante de indícios criminais, a questão deixou de ser apenas administrativa.

Antes da liquidação do banco, em entrevista à GloboNews em outubro, Roberto Campos Neto afirmou que não teve conhecimento das negociações entre o BRB e o Banco Master, cuja compra acabou vetada pelo BC.

Na ocasião, Campos Neto declarou que soube das tratativas apenas pela imprensa e avaliou que o banco não representava um risco sistêmico, mas sim um risco de imagem para o sistema financeiro.

A sindicância foi instaurada ainda em novembro e conduzida de forma independente, como exige um processo de liquidação extrajudicial, considerado um dos atos mais graves no âmbito da supervisão bancária.

Após a abertura da auditoria, os então chefes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, foram afastados de seus cargos. Até o momento, não há acusações formais contra os dois.

O procedimento permanece em sigilo dentro do Banco Central, e novas informações devem ser divulgadas conforme o avanço das investigações administrativas e criminais relacionadas ao Banco Master.





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