O economista José Kobori, convidado do ICL Notícias 1ª edição desta quarta-feira (19/11), comentou sobre o resgate histórico do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) como consequência do escândalo envolvendo o Banco Master. A operação envolve 1,6 milhão de depósitos elegíveis para resgate, totalizando cerca de R$ 41 bilhões, caracterizando um movimento sem precedentes do FGC.
“O FGC suporta até R$ 250 mil por CPF [ou CNPJ]. Já tentaram elevar esse limite para R$ 1 milhão, o que ficou conhecido como ‘emenda Master’, uma pressão do [senador] Ciro Nogueira [PP-PI] para tentar ajudar esse esquema de pirâmide do Banco Master”, explicou Kobori.
Ele ressaltou que o investidor pequeno muitas vezes perde cerca de 30 dias úteis no processo de resgate, mais dois dias para receber o dinheiro, sofrendo custo de oportunidade ao deixar de ganhar rentabilidade. “Mas de qualquer forma, o pequeno investidor até esse limite [R$ 250 mil] está protegido pelo FGC.”
Risco ao FGC e especulação do Banco Master
Kobori criticou a operação do Banco Master, que, segundo ele, “já estava chegando a quase 40% do valor do FGC”, embora representasse apenas 0,57% dos ativos totais do sistema financeiro.
“Um banco muito pequeno para oferecer risco ao sistema, mas oferecia um risco muito grande ao FGC. Isso mostra que estavam especulando com o próprio fundo para captar dinheiro a taxas altas e tentar ‘pedalar’ uma operação fadada ao fracasso”, analisou.
O economista ainda comentou a rede de proteção ao Banco Master:
- Relações do presidente Daniel Vorcaro com políticos do Centrão, que teriam protegido interesses da instituição no Legislativo e Executivo;
- Conflitos de interesse do próprio sistema financeiro, com XP Investimentos e BTG Pactual distribuindo os CDBs do Master com comissões muito acima da média, atraindo investidores mesmo com altos riscos.
“Ele pagava comissões de até 4%, quando a média do mercado é 0,5%. Isso atraiu mais de R$ 40 bilhões em CDBs, enganando pequenos investidores e o próprio sistema financeiro”, afirmou Kobori.
Desde 2019, a carteira do Banco Master saltou de R$ 2,5 bilhões para mais de R$ 40 bilhões em depósitos de CDB, fruto de estratégias de remuneração agressivas e distribuição massiva via grandes players do mercado.
Atuação do Banco Central
Segundo Kobori, a atuação do Banco Central foi marcada por critérios técnicos. “A liquidação de um banco é uma decisão radical, pois pode gerar instabilidade, mas o Master tinha apenas 0,57% dos ativos do sistema, então não oferecia risco sistêmico.”
Ele explicou que, em dezembro de 2024, o BC exigiu aporte de R$ 2 bilhões do banco, coincidentemente valor oferecido pelo BRB (Banco Regional de Brasília), em condições que levantaram suspeitas sobre interferência política.
Apesar disso, Kobori destacou que “o Banco Central mostrou independência, mesmo diante da pressão política, e a atuação da PF [Polícia Federal] e do Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras] ajudou a blindar a instituição contra interferências externas.”
Tentativa de ampliar cobertura do FGC
“Quadruplicar o limite do FGC ajudaria o Banco Master a captar mais recursos no mercado. Muitos políticos teriam interesse nisso, buscando proteção com dinheiro de terceiros”, afirmou o economista.
Kobori classificou como “uma articulação tenebrosa, temerária e fraudulenta” a tentativa de alterar a lei para beneficiar interesses privados, mostrando “o nível de desfaçatez da política brasileira, usando o Legislativo para legalizar fraudes”.
Avaliação do risco sistêmico e Will Bank
O economista afirmou que o Will Bank, braço digital do Master, operava dentro da normalidade e poderia ser vendido sem riscos adicionais ao sistema. O problema central, segundo Kobori, era o próprio Banco Master, que atuava de forma especulativa, investindo em empresas com alto risco, sem se comportar como um banco de varejo tradicional.
Contratos com Rioprevidência e Aeronáutica
Houve também envolvimento político em crédito consignado, com dinheiro de servidores e previdências investido em CDBs do Master. “O que está fora da cobertura do FGC vai gerar perda de recursos para trabalhadores e prefeituras”, alertou Kobori.
Segundo o economista, servidores e trabalhadores são investidores indiretos, pois não controlam a gestão desses fundos que escolhem os investimentos, ao contrário do gestor privado, que assume o risco. “Esse é um crime que não deveria ser perdoado. No limite bloquear bens dos responsáveis para cobrir esse rombo”, disse.
Sobre o FGC
O Fundo Garantidor de Crédito foi criado em 1995 para proteger o capital e a rentabilidade do investidor em renda fixa.
Principais pontos:
- Entidade privada e sem fins lucrativos, sem vínculos com o governo;
- Garante pagamento ao credor caso a instituição financeira coberta não consiga honrar seus compromissos, em casos de intervenção ou liquidação;
- Mantido por instituições financeiras, que contribuem com 0,0125% dos valores transacionados em produtos cobertos;
- Atua também de forma preventiva, monitorando o sistema financeiro e evitando crises sistêmicas;
- Segue o princípio de risco x retorno: quanto maior o risco do investimento, maior a expectativa de retorno.
Assista à participação de José Kobori no vídeo abaixo:




