Jeff Bezos, o oligarca que ganhou um lugar de destaque na posse de Donald Trump, promoveu uma das maiores demissões da história do mítico jornal The Washington Post.
Nesta quarta-feira, a empresa anunciou o corte de centenas de postos de trabalho, atingindo cerca de 30% de todos os funcionários do jornal de mais de 150 anos.
Um caso, porém, foi considerado como emblemático. Depois de dias cobrindo a guerra na Ucrânia e percorrendo locais sem aquecimento ou luz, a jornalista Lizzie Johnson ficou sabendo que havia sido demitida, ainda sob as bombas russas.
“Acabei de ser demitida do The Washington Post no meio de uma zona de guerra. Não tenho palavras. Estou devastada”, escreveu Johnson nas redes sociais. Há uma semana, ela havia relatado sobre as duras condições que enfrentou para fazer reportagens em Kiev.
“Acordando sem energia elétrica, aquecimento ou água corrente. (De novo.)”, escreveu. “Mas o trabalho aqui em Kiev continua. Me aquecendo no carro, escrevendo a lápis — a tinta da caneta congela — com a luz da lanterna de cabeça. Apesar de quão difícil este trabalho possa ser, tenho orgulho de ser correspondente estrangeira do The Washington Post”, escreveu há poucas semanas.
Sua demissão é parte de um enxugamento sem precedentes na cobertura internacional do jornal.
Os cortes eliminaram o editor para a Ásia, os chefes de redação em Nova Déli, Sydney e Cairo, toda a equipe de reportagem do Oriente Médio e os correspondentes que cobriam a China, o Irã e a Turquia.
A chefe da redação da Ucrânia, Siobhan O’Grady, havia apelado diretamente ao proprietário Jeff Bezos nas redes sociais nas últimas semanas. “Jamais esqueceremos o seu apoio ao nosso trabalho essencial de documentar a guerra na Ucrânia, que ainda continua”, escreveu O’Grady. “Arriscamos nossas vidas pelas histórias que nossos leitores exigem. Por favor, acreditem em nós e #SalvemOPost.”
No site The Atlantic, uma reportagem foi explícita. “Estamos testemunhando um assassinato”, afirmou.
“Jeff Bezos, o bilionário dono do The Washington Post, e Will Lewis, o editor que ele nomeou no final de 2023, estão embarcando na mais recente etapa de seu plano para matar tudo o que torna o jornal especial”, disse. “O Post sobreviveu por quase 150 anos, evoluindo de um jornal familiar local para uma instituição nacional indispensável e um pilar do sistema democrático. Mas se Bezos e Lewis continuarem em seu caminho atual, ele pode não sobreviver por muito mais tempo”, alertou.
Ao ICL Notícias, um funcionários do jornal admitiu: “é um banho de sangue”. “Esse é o cálice envenenado que se ganha quando um oligarca salva teu jornal”, comentou outro.
Durante uma reunião matinal para anunciar as mudanças, o editor-chefe, Matt Murray, disse aos funcionários que o jornal estava passando por uma “reestruturação estratégica”. Segundo ele, a maior equipe do Post se concentraria na cobertura de política e governo, e o jornal também priorizaria a cobertura de notícias nacionais.
“Hoje, o Washington Post está tomando uma série de medidas em toda a empresa para garantir nosso futuro”, disse ele. Serão eliminados ainda as editorias de esportes, cortando sua editoria de finanças e suspendendo seu principal podcast diário de notícias, o Post Reports.
A decisão foi recebida com duras críticas. Martin Baron, editor-executivo do Post até 2021, disse: “Este é um dos dias mais sombrios da história de uma das maiores organizações de notícias do mundo”.
Após anos de crescimento sob a gestão de Bezos, o Post vem reduzindo seu quadro de funcionários nos últimos anos. Cerca de 240 funcionários deixaram a empresa por meio de programas de demissão voluntária oferecidos no final de 2023, e outro grupo aceitou esses programas no ano passado. No outono de 2024, o Post demitiu 54 funcionários e, em janeiro de 2025, demitiu cerca de 4% dos funcionários que trabalhavam em publicidade, marketing e operações de impressão.
“Bezos não está tentando salvar o The Washington Post. Ele está tentando sobreviver a Donald Trump”, disse Glenn Kessler, ex-verificador de fatos do Post. Em 2024, Bezos promoveu uma ruptura na tradição do jornal, ao não tomar uma posição clara sobre quem apoiaria para a eleição.




