Bilionários têm 4 mil vezes mais chances de ocupar cargos políticos que a população em geral


Por Rodrigo Chagas – Brasil de Fato

A presença de bilionários na política não é novidade na história, mas nos últimos anos tornou-se uma estratégia de poder consolidada por grupos econômicos cada vez mais ricos e restritos. Segundo novo relatório da Oxfam, esses indivíduos têm hoje quatro mil vezes mais chances de ocupar cargos públicos do que a população em geral, resultado de um sistema moldado para preservar privilégios e bloquear qualquer tentativa de redistribuição. O documento foi divulgado neste domingo (19), na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

A captura dos Estados pela elite econômica é uma das principais teses do relatório Resistindo ao domínio dos ricos: protegendo a liberdade do poder dos bilionários, que analisa a atuação política dos super-ricos em escala global. A Oxfam afirma que os governos estão “tomando decisões deliberadas para agradar à elite”, enquanto reprimem protestos e enfraquecem direitos sociais e democráticos.

Para a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, essa dinâmica representa uma ameaça direta às democracias. Ela avalia que “esses grupos pressionam os Estados e, ao mesmo tempo, começam cada vez mais a compor os próprios governos”. Segundo ela, “há uma tendência comprovada de captura do Estado por interesses oligárquicos, que atuam para bloquear reformas e manter privilégios”.

De acordo com Viviana, o poder dos bilionários não se limita a influenciar políticas públicas. Ela afirma que essas estratégias de dominação incluem também a repressão a quem contesta o modelo vigente. “A atuação desses Estados deixa de ser voltada à redistribuição e ao reconhecimento da cidadania e passa a ser voltada à repressão”, diz ao Brasil de Fato.

A Oxfam destaca que os retrocessos democráticos estão diretamente ligados ao aprofundamento da desigualdade. O relatório cita uma Pesquisa Mundial de Valores, feita em 66 países, que mostra que quase metade das pessoas acredita que os ricos frequentemente compram eleições em seus países. Além disso, o risco de erosão democrática – como enfraquecimento de instituições, censura e perseguição a opositores – é sete vezes maior em países com alta concentração de riqueza.

Super-ricos no governo, protestos reprimidos nas ruas

O relatório descreve o avanço global de uma elite política formada por bilionários ou diretamente conectada a seus interesses. Um exemplo citado pela Oxfam é o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em 2025. A organização aponta que a nova gestão estadunidense seguiu uma agenda abertamente pró-bilionários, promovendo cortes de impostos para os super-ricos, fragilizando regulações sobre grandes corporações e impedindo avanços na taxação de lucros e dividendos e, mais, fazendo isso para enriquecimento próprio.

Em dezembro de 2025, segundo levantamento da revista Forbes, o patrimônio pessoal de Trump chegou a US$ 6,7 bilhões (cerca de R$ 37 bilhões) após a valorização de ações da Trump Media, sua empresa de mídia e tecnologia. A fusão da companhia com a TAE Technologies, avaliada em US$ 6 bilhões, deve transformar a holding do ex-presidente em controladora de negócios de energia, rede social e serviços financeiros. A operação prevê ainda aportes de até US$ 300 milhões em caixa – tudo isso enquanto Trump ocupa o cargo de chefe de Estado da principal potência econômica do planeta.

Para Viviana Santiago, a eleição de Trump foi um “ano de presente para os super-ricos”. Ela destaca que sua administração “atuou para enfraquecer legislações de proteção trabalhista, manter monopólios e frear qualquer avanço na tributação dos setores mais lucrativos, como o de inteligência artificial”. Segundo ela, esse tipo de governo atua sistematicamente “para impedir a redistribuição de renda e aprofundar a exploração”.

Estados privatizados: bilionários têm 4 mil vezes mais chances de ocupar cargos políticos que a população em geral
Donald Trump

Enquanto o topo da pirâmide concentra poder político, as vozes dissidentes são silenciadas. O relatório da Oxfam aponta que, em 2024, houve mais de 140 protestos significativos em 68 países. Em muitos deles, a resposta foi violenta. No Quênia, manifestações contra a nova lei fiscal resultaram em 39 mortes e 71 desaparecimentos forçados, com denúncias de tortura e sequestros. Já na Argentina, sob o governo de Javier Milei, a repressão a atos sindicais deixou mais de mil feridos, 33 deles baleados no rosto com munição não letal.

A organização sustenta que esse padrão de repressão não é exceção, mas parte da lógica dos “Estados capturados” descritos no relatório. “Esses governos atuam cada vez mais como representantes das oligarquias e se distanciam da função de garantir direitos e igualdade”, resume Viviana.

O relatório também alerta para o uso das redes sociais como ferramenta de vigilância e repressão política. Em um dos casos citados, autoridades quenianas utilizaram o X (ex-Twitter) para rastrear opositores. Segundo estudo da Universidade da Califórnia, após a compra da plataforma por Elon Musk, o discurso de ódio aumentou cerca de 50%.

Fórum de Davos

O documento foi lançado durante o Fórum Econômico Mundial, que acontece entre os dias 19 e 23 de janeiro, em Davos, na Suíça. O evento reúne chefes de Estado, presidentes de grandes empresas e representantes das maiores fortunas do planeta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participa da edição de 2026 – o Brasil é representado pela ministra do Planejamento, Simone Tebet. Enquanto o tema oficial do encontro é “Um espírito de diálogo”, a Oxfam denuncia a aliança cada vez mais explícita entre elites políticas e econômicas que, segundo a organização, estão minando as bases da democracia.

 





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