Um estudo divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) reforça o debate sobre os efeitos do Bolsa Família na dinâmica do mercado de trabalho brasileiro. A conclusão é categórica: o programa de transferência de renda não provoca redução sistemática na participação das mulheres na força de trabalho.
A análise utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e examinou a relação entre políticas de assistência social e inserção profissional feminina. O tema é central para o crescimento econômico brasileiro, segundo o próprio Fundo.
De acordo com as estimativas apresentadas, a redução pela metade da diferença na taxa de participação entre homens e mulheres — de 20 para 10 pontos percentuais até 2033 — poderia acrescentar cerca de 0,5 ponto percentual ao crescimento anual do Brasil no período. O dado sinaliza que a ampliação da presença feminina no mercado de trabalho não é apenas uma agenda social, mas uma estratégia econômica.
Benefício não desestimula busca por emprego
O relatório também afasta a hipótese de que o benefício financeiro desestimule a busca por emprego. Em vez disso, aponta fatores estruturais como os principais obstáculos à inserção feminina no mercado de trabalho.
Atualmente, 18,84 milhões de famílias recebem o Bolsa Família, e mais de 15,9 milhões desses lares são chefiados por mulheres — o equivalente a 84,38% do total. Isso significa que são elas as principais responsáveis pela gestão dos recursos transferidos.
O desenho do programa prevê complementos conforme a composição familiar, com valores adicionais por criança na primeira infância, gestantes, nutrizes e jovens de até 18 anos. A política mantém como foco a redução da pobreza extrema, mas seus efeitos extrapolam a assistência imediata e alcançam o debate sobre autonomia econômica.
Economia do cuidado como barreira estrutural
Se o Bolsa Família não afasta mulheres do emprego, o mesmo não pode ser dito sobre a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados. Outro levantamento, intitulado “Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho”, produzido em parceria entre o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), evidencia o peso dessa desigualdade.
No Brasil, mulheres dedicam, em média, 9,8 horas semanais a mais que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado. Entre mulheres negras, essa carga é ainda maior. O impacto é direto: metade das trabalhadoras deixa o mercado até dois anos após o nascimento do primeiro filho, enquanto homens tendem a registrar aumento de renda no mesmo intervalo.
Aumento do benefício e informalidade
Outro estudo, conduzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), analisou os efeitos do aumento do valor mínimo do Bolsa Família, implementado a partir de 2023. A pesquisa concluiu que a elevação do benefício não incentivou a migração de trabalhadores do emprego formal para o informal.
Entre os entrevistados que deixaram a força de trabalho, 34,4% apontaram responsabilidades domésticas ou cuidados com filhos e parentes como principal motivo — reforçando que a saída do mercado está mais associada à organização familiar do que ao valor recebido.
Desigualdade salarial e políticas públicas
O estudo do FMI também chama atenção para a diferença salarial persistente: mulheres recebem, em média, 22% menos que homens em condições comparáveis de escolaridade, idade, raça, setor e função. Esse hiato pode influenciar decisões familiares, levando mulheres — beneficiárias do programa ou não — a priorizarem o cuidado dos filhos diante de salários menores.
Entre as recomendações estão a ampliação da oferta de creches e serviços de cuidado a idosos, ajustes nas políticas de licença parental e a implementação efetiva da legislação de igualdade salarial.
Para o Fundo, medidas articuladas nessas frentes poderiam criar um ambiente mais favorável à participação feminina e elevar o potencial de crescimento da economia brasileira.
A conclusão geral converge para um diagnóstico mais amplo: a transferência de renda não é o principal entrave à inserção das mulheres no mercado. O desafio estrutural está na divisão desigual do trabalho de cuidado e na persistente disparidade de rendimentos — fatores que limitam tanto a autonomia feminina quanto o desempenho econômico do país.




