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Brasil deve manter foco comercial


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Durante participação no ICL Notícias 1ª edição de quinta-feira (31), a economista e professora da FGV (Fundação Getulio Vargas), Carla Beni, avaliou a escalada de tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, impulsionada pelo tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros a partir de 6 de agosto.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sinalizou a intenção de abrir um canal de diálogo com autoridades americanas, como o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent. “Se depender do Brasil, essa tensão desaparece porque é artificial”, afirmou Haddad.

A professora reconhece a tradição diplomática brasileira e acredita que o país deve manter-se na mesa de negociações. “A nossa diplomacia está sempre disposta a conversar. Isso é um ponto histórico importante”, destacou Beni. “Essa conversa [entre Haddad e Bessent] pode trazer um redesenho das tarifas, talvez com cotas ou limites, que permitam acessar o mercado americano com alíquotas reduzidas. Tudo isso estará em negociação.”

Trump, Lula e os riscos de uma visita à Casa Branca

Diante da possibilidade de um convite do governo americano ao presidente Lula, a economista faz um alerta. Para Carla Beni, aceitar um encontro sem garantias claras pode expor o presidente brasileiro a humilhações, semelhantes às já protagonizadas por Trump com outros líderes.

“Caso o convite venha, o Brasil estaria numa posição passiva. Lula teria que estar preparado para ser mais um a passar por constrangimentos públicos, como os que vimos com líderes como Zelensky [Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia] e Ramaphosa [Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul]”, afirmou.

“Isso envolve riscos. Cada gesto tem repercussão interna e externa. Se o Brasil aceita e é desrespeitado, todo o capital político sofre. Por isso, defendo que o foco seja estritamente comercial e institucional. Essa mistura com simbolismos e jogos de poder só nos prejudica.”

Tebet, os Brics e o questionamento sobre os EUA

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, também se pronunciou sobre o imbróglio tarifário, defendendo a diversificação das relações comerciais do Brasil com países do Brics (grupo que reúne originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), Europa e Mercosul. Para Carla Beni, esse é o caminho inevitável — e desejável.

“Esse fortalecimento com o Brics é um caminho sem volta. Estamos falando de quase 40% do PIB [Produto Interno Bruto] mundial. Além disso, é legítimo perguntar: até que ponto dá para confiar no governo americano?”, questiona Beni.

“Cada nova ameaça ou revogação de regra nos EUA abala o chamado soft power americano. As exportadoras brasileiras começam a repensar se vale manter grande parte do portfólio direcionado para um parceiro tão instável.”

Hora de sair do modelo primário-exportador

Além da ampliação de parcerias comerciais, Carla Beni defende uma reestruturação do modelo de exportação brasileiro. A crise atual, segundo ela, oferece uma oportunidade estratégica para o país investir em industrialização e inovação.

“O Brasil precisa deixar de ser apenas exportador de produtos primários. Temos agora uma chance única com os minerais de terras raras. Será que vamos continuar apenas cavando a terra e vendendo minério bruto?”, questiona.

“Somos a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Precisamos ter estratégia, processamento, valor agregado. Não podemos repetir o erro histórico de entregar matérias-primas e importar tecnologia.”

Veja a participação da professora Carla Beni no vídeo abaixo:





Fonte: ICL Notícias

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