Por Cleber Lourenço
O posicionamento público de Ciro Nogueira nesta quarta-feira expõe uma reacomodação silenciosa no núcleo da direita. Ao defender que o foco da federação partidária seja voltado às disputas estaduais e à construção de bancadas robustas, o senador reage a um recado que já circula entre dirigentes, aliados e membros da articulação política do Palácio do Planalto: ele está fora do projeto presidencial da extrema-direita para 2026.
A avaliação consolidou-se após as notícias que passaram a ganhar força nos últimos dias, indicando duas formatações possíveis para a chapa bolsonarista: Tarcísio de Freitas (Republicanos) acompanhado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou o inverso, com Flávio liderando e Tarcísio como vice. Em qualquer um dos cenários, o nome de Ciro desaparece do horizonte presidencial da direita.
Membros da articulação política do Palácio do Planalto avaliam que a família Bolsonaro não pretende abrir mão de indicar diretamente quem ocupará pelo menos uma das duas posições da chapa, tornando irrelevante qualquer cálculo externo de viabilidade eleitoral.
A leitura é de que Tarcísio, apesar de ser considerado o nome mais competitivo para setores moderados da direita, não tem autonomia para se descolar do clã e, portanto, não possui condições de viabilizar uma composição que deslocasse Ciro para alguma função estratégica.
No entorno de Ciro, a percepção é semelhante. Interlocutores próximos afirmam que o senador compreendeu a mensagem: sua participação não é desejada na formatação da chapa presidencial e insistir nesse caminho significaria entrar numa disputa interna em que ele figuraria sempre nas últimas posições da “fila do pão”.
A constatação ajuda a explicar o tom do tweet publicado pela manhã, no qual, sem confrontar diretamente o bolsonarismo, ele desautoriza a estratégia presidencial do campo e se coloca numa trilha paralela voltada ao fortalecimento territorial.
No texto publicado nas redes, o senador afirmou: “Falta bom senso e estratégia no centro e na direita. Vou defender, junto com o presidente Rueda, que o foco das eleições nacionais deve ser as eleições estaduais e a eleição de parlamentares. Candidato para presidente, o União Brasil e sua federação deverão apoiar a posição que melhor ajude o partido a crescer pelo Brasil.”
Essa disputa interna na extrema-direita tende a fragmentar ainda mais o campo, aumentando a possibilidade de canibalização de votos entre candidaturas próximas ideologicamente. Isso compromete a estratégia do Centrão, que vinha tentando viabilizar um nome próprio para 2026 como alternativa para escapar do cerco judicial no STF e do avanço de investigações da Polícia Federal sobre o escândalo das emendas e, no caso específico de Ciro, sobre o Banco Master.
Já a leitura política feita por membros da articulação do governo é de que este movimento público do senador carrega ainda outro recado: uma sinalização de que ele não pretende comprar brigas diretas com o governo federal enquanto as investigações avançam.
Trata-se, segundo essa interpretação, de um gesto pragmático de sobrevivência política. Ao mesmo tempo em que se afasta do radicalismo bolsonarista e da estratégia presidencial do campo, ele constrói uma avenida para dialogar com o governo caso seja conveniente e busca se credenciar para posições de maior relevância institucional, seja na oposição ou em um eventual governo Lula 4.
O gesto, assim, cumpre dupla função. De um lado, Ciro demonstra que não seguirá a lógica imposta pela família Bolsonaro, que insiste em controlar a chapa presidencial e rejeita qualquer acomodação fora do núcleo do clã. De outro, deixa claro que concentrará sua energia na eleição de governadores, deputados estaduais e federais — base real de poder para 2027.
A consolidação dessa estratégia indica que, diante da instabilidade no campo da direita, o senador busca preservar capital político e reposicionar-se num tabuleiro em rápida transformação. É a forma encontrada para permanecer relevante num ambiente que, a cada movimento do bolsonarismo, encolhe ainda mais o espaço para candidaturas de direita não alinhadas ao clã.




