Com ajuda da imprensa, Flávio Bolsonaro inunda noticiário com mentiras


Jornais, sites e emissoras de rádio e TV divididem o noticiário em editorias: política, economia, cultura, meio ambiente… e por aí vai. Além dessas, convencionais, há uma seção muito movimentada ultimamente na imprensa brasileira que ainda não foi batizada. Pode muito bem ser chamada de editoria “diz que”.

É um espaço cravado no meio das notícias, dedicado exclusivamente às mentiras e acusações infundadas de Flávio Bolsonaro e sua família — o alvo obviamente é Lula e seu governo.

Basta olhar as páginas principais de grandes veículos de comunicação ou fazer uma pesquisa rápida no Google para constatar a grande quantidade de títulos que começam assim: “Flávio Bolsonaro diz que…” O que vem depois disso invariavelmente é uma mentira, distorção de algum fato ou pura ofensa, sem nenhuma contestação por parte do site, jornal ou emissora que publicou.

Há também variantes como “afirma que” ou “diz Flávio”.

Não é que jornalistas devam publicar apenas as declarações inteligentes, coerentes ou brilhantes de políticos e outras figuras públicas. Muitas vezes, é justamente pelas asneiras ditas que um figurão revela seu verdadeiro caráter — vide o patriarca, Jair Bolsonaro. Mas todas as afirmações que não tiverem base na realidade devem ser contestadas e contextualizadas pelo veículo. Ou então a asneira passa como verdade.

São muitos os exemplos recentes dessa anomalia jornalística.

Na segunda-feira (8), a Folha de S. Paulo publicou o seguinte título em sua homepage: “Em evento com empresários em SP, Flávio Bolsonaro afirma que Lula parece ser o ‘chefe do PCC’”. Nessa acusação completamente sem fundamento, o presidenciável do PL joga no ar uma fala irresponsável e o jornal simplesmente reproduz, sem contestar.

Também o site Poder360 publicou a acusação: “Flávio Bolsonaro diz que Lula ‘parece’ chefe do PCC”. Zero de contestação, nem a simples informação de que a afirmação foi feita sem nenhuma prova. O site apenas comunica ter procurado a Presidência da República, que não se pronunciou — como se a imprensa precisasse do “outro lado” para chamar uma mentira de mentira.

A Folha é um dos veículos que mais utiliza a editoria “diz que” e suas variantes.

Há uma semana, o periódico estampou na primeira página da edição impressa a chamada “Flávio fala em guerra espiritual na Marcha para Jesus”. O embate etéreo a que o filho 01 se referia era, claro, contra Lula. Durante o mesmo evento, o presidente da República mandou a seu aliado, Jorge Messias, o seguinte recado, para justificar a ausência: “Eu não participo de nada religioso em época de eleição porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando tirar proveito político de uma coisa sagrada”.

Qual das duas declarações é mais relevante? Ou a Folha acredita na tese de “guerra espiritual”? Mesmo que fosse para contestar Lula — certamente a ausência teve muito a ver com a enorme possibilidade de ser mal recebido pelo rebanho de tantos pastores bolsonaristas –, a fala do presidente deveria ter o destaque dado à mistificação de Flávio.

Na atual temporada eleitoral a editoria informal se transformou em palanque para o senador amigão de Daniel Vorcaro falar as besteiras que quiser — e com destaque. Nesta quarta-feira (10) tivemos essa pérola na Folha: “Flávio Bolsonaro diz que a Lula persegue o agro e trata os produtores como bandidos e fascistas”. O Globo fez coisa parecida.

Os jornais não se dignaram a oferecer aos leitores, em contraponto, mínima informação sobre o generoso investimento que os sucessivos governos do PT fizeram no setor agropecuário. A fala do senador circulou sem qualquer checagem ou crítica.

Tratadas de forma adequada, as bobagens e mentiras disseminadas por figuras públicas podem servir de material para estudo antropológico. Foi assim com “Febeapá – O Festival de Besteiras que Assola o País”, série de três livros de Stanislaw Ponte Preta, heterônimo do jornalista Sérgio Porto, que mostrou a péssima qualidade dos políticos do Brasil nos anos de 1966, 1967 e 1968, início da ditadura militar.

Do jeito que as besteiras de Flávio Bolsonaro frequentam o noticiário, a imprensa, que sempre se gaba de estar em busca da verdade, se torna apenas porta-voz de um mentiroso.
Pior: um mentiroso que tenta a todo custo se eleger presidente da República.





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