Copom deve manter juros em 15% e adiar início do corte para março


Em sua primeira reunião de 2026, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central deve anunciar, nesta quarta-feira (28), a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano — o patamar mais elevado em quase duas décadas. Investidores e analistas avaliam que o início do ciclo de cortes deve ficar para março, diante de um ambiente ainda marcado por incertezas internas e externas.

Levantamento do Sistema de Expectativas de Mercado, divulgado semanalmente pelo BC, mostra que a mediana dos agentes econômicos aponta para juros inalterados na decisão de hoje. As projeções indicam que a Selic deve encerrar 2026 em torno de 12% e permanecer acima de dois dígitos ao menos até o fim de 2027.

Os sinais vindos do mercado financeiro corroboram essa leitura. Contratos de opção de Copom negociados na B3 mostram que cerca de 83% dos investidores esperam nova manutenção da taxa.

Economia dá sinais contraditórios

A avaliação predominante é de que o Banco Central ainda não dispõe de um conjunto de dados suficientemente homogêneo para iniciar o afrouxamento monetário. O mercado de trabalho segue robusto, com desemprego próximo às mínimas históricas, indicando uma economia ainda aquecida.

Em contrapartida, a inflação mostra trajetória gradual de convergência para o centro da meta, enquanto o dólar apresenta sinais de acomodação no mercado doméstico.

O contexto internacional também reforça a cautela do BC. Desde a última reunião do Copom, em dezembro, o cenário geopolítico se deteriorou, com a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e o aumento das tensões entre Washington e aliados europeus, impulsionado por novas investidas retóricas do presidente Donald Trump, especialmente sobre a Groenlândia.

Além disso, o mercado já precifica uma pausa no ciclo de cortes de juros do Federal Reserve, o banco central estadunidense, que também deve anunciar hoje a manutenção dos juros por lá, após três reduções consecutivas ao longo de 2025. Isso, no entendimento de analistas, delimita o espaço da política monetária brasileira.

Comunicação sob escrutínio

Apesar da manutenção amplamente esperada, analistas avaliam que o comunicado do Copom pode trazer ajustes sutis no tom. Nos últimos meses, o comitê adotou uma postura considerada “hawkish”, reforçando a disposição de manter os juros elevados por um “período bastante prolongado” e destacando que não hesitaria em retomar altas, se necessário.

A aposta no início dos cortes em março tornou-se praticamente consensual. Levantamento do Projeções Broadcast indica que 34 de 37 instituições consultadas esperam o começo do ciclo de redução da Selic na próxima reunião.

No fim de 2025, parte do mercado ainda cogitava um corte já em janeiro, hipótese que perdeu força após o tom conservador adotado pelo Copom em dezembro e a divulgação de dados econômicos mais resilientes.

Além do comunicado, o mercado acompanhará atentamente a ata da reunião, em busca de indícios sobre as condições que poderiam levar à revisão do atual grau de restrição monetária. Um dos principais focos será a projeção de inflação para o horizonte relevante da política monetária. Na última reunião, o Copom estimou a inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de 3,2% no segundo trimestre de 2027.

Copom com sete diretores

A reunião de janeiro ocorrerá com um colegiado reduzido, composto por sete diretores em vez dos nove habituais, devido às vacâncias nas diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e Resolução. Apesar da situação atípica, analistas minimizam o impacto da ausência de dois membros na decisão. O presidente Lula ainda não nomeou os substitutos das vagas.

A avaliação é de que o Copom tem demonstrado elevado grau de coesão nas últimas deliberações, o que tende a reduzir a influência de mudanças pontuais na composição do colegiado sobre a condução da política monetária.





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