“Coragem” e “medo de ter direitos roubados” levam milhares de estudantes às ruas do país


Por Ana Clara Ferreira*

As ruas do Centro do Rio de Janeiro, na tarde desta quarta-feira (7), receberam milhares de estudantes que se mobilizaram para prestar apoio ao candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições. Reunindo diferentes frentes progressistas, a mobilização chamada de “Juventude na Rua pela Democracia”, se concentrou às 12h em frente à igreja da Candelária e partiu em direção a Cinelândia, às 13h30, com encerramento por volta das 16h.

Segundo os organizadores, o ato que esperava cerca de 4 mil pessoas e que pelas imagens aéreas mobilizou muito mais, uma vez que preencheu a avenida, teve como objetivo mostrar que os jovens estão mobilizados para defender a democracia. Os estudantes defendem que “há grande risco para o nosso futuro enquanto nação, com a perda de avanços em políticas públicas, educacionais e direitos sociais conquistados com muita luta”, caso o senador Flávio Bolsonaro (PL) ocupe o Planalto a partir de 2027.

Ao longo do percurso pela Avenida Presidente Vargas, uma das principais da cidade, trabalhadores acompanharam a manifestação das portas e janelas dos estabelecimentos comerciais. Alguns comércios, no entanto, abaixaram as portas durante a passagem dos estudantes.

Entre os gritos entoados, os estudantes convidavam os trabalhadores para a luta: “O movimento unificou, é estudante junto com trabalhador” e “ei, trabalhador, olha pra cá, eu tô na rua para que seu filho possa estudar”. Os estudantes também protestaram contra uma eventual anistia a Jair Bolsonaro, repetindo palavras de ordem como “não tem anistia”.

A manifestação integra uma mobilização nacional que já reúne mais de 40 atos, assembleias e plenárias convocados em universidades de 14 estados e do Distrito Federal desde o resultado do primeiro turno, no último domingo (4).

“Nós não queremos que a ignorância e a censura se nacionalizem no nosso país, por isso, buscamos uma solução: que o povo brasileiro vá às urnas. Tivemos uma ausência de 30 milhões de brasileiros, que faria toda a diferença no resultado do último domingo”, disse o movimento estudantil em carta aberta.

Ato fora Bolsonaro. Por: Ana Clara Ferreira
Estudantes se reúnem no Centro do Rio nesta quarta-feira (7) em ato contra Flávio Bolsonaro. Foto: Ana Clara Ferreira

Para os estudantes, a mobilização vai além de uma demonstração de apoio eleitoral. O resultado do primeiro turno deixou entre os jovens um sentimento de medo e frustração, mas, ao mesmo tempo, trouxe à tona a disposição e a esperança para continuar lutando.

É o caso de Juan Carlos Messias, 21 anos, estudante de publicidade, cantor e compositor. Ele afirmou que saiu de casa para participar do ato movido por dois sentimentos: “coragem e vontade de mudar”, mas também pelo medo da perda de direitos já estabelecidos pela Constituição.

“Eu não vou negar, eu estou indo hoje pela coragem e vontade de mudar. Mas, no fundo, também tem um pouco de medo, porque eu sou bissexual. Então, eu temo muito por essa política da direita que não pensa nas minorias, que não pensa em quem precisa”, afirmou.

“Um governo que não pensa em justiça social, em diminuir as desigualdades sociais e econômicas, é um governo que não enxerga o Brasil”, completa.

O sentimento de Juan não é único. A estudante de Pedagogia da UNIRIO, Beatriz Coelho, de 24 anos, conta que o resultado do primeiro turno trouxe uma “desesperança” em relação ao país. Ela confessa até ter chorado com a vantagem do senador.

Os jovens levaram cartazes e bandeiras para a manifestação – Foto: Ana Clara Ferreira

“Eu sou bolsista, trabalho na escola pública, então eu acabo estudando as leis de educação e vejo o peso que é para a educação pública o plano do Flávio, que é cortar investimento”, disse. Beatriz afirma que a mobilização é necessária justamente para demonstrar insatisfação. “É um ato, por mais que seja pacífico, é um ato e precisa incomodar, precisa chamar atenção”, afirmou ao mencionar o horário e o dia escolhidos para o protesto.

Na manhã desta quarta-feira (7), em vídeo publicado em suas redes sociais, ao lado de jovens candidatos eleitos, Lula também convocou a população para ir às ruas. “Bora gente! Para as ruas. Vamos conversar com as pessoas! Você que gosta do Brasil, que gosta da educação, que gosta da democracia, que quer ter um emprego de qualidade […] Bora para a rua! Bora ganhar as eleições para não permitir que o retrocesso volte a esse país. Vamos lá gente! Tá na hora!”.

A convocação de Lula ocorre em meio à mudança na estratégia de comunicação da campanha para o segundo turno. O presidente passou a apostar em uma comunicação mais direta nas redes sociais, com vídeos em formato mais informal e maior participação pessoal.

Além dos estudantes, idosos, crianças e professores também participaram da passeata. A professora de História da UFF, Renata Vereza, acredita que a presença das novas gerações nas ruas  é uma forma de pressionar a sociedade diante do avanço da extrema direita.

“Se tem alguém que pode pressionar a nossa sociedade por algo novo, por alguma mudança, são os jovens. […] podem, de fato, gerar novas propostas, pressionar para a gente não cair numa situação de falta de democracia, de falta de direitos, porque são vocês que vão sair no mercado”, afirmou.

Reação da extrema direita

O ato provocou reações da oposição. Em suas redes sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) provocou os estudantes ao dizer que manifestantes iriam “perder a linha”.

Durante a passeata, estudantes relataram que um grupo neonazista estava presente para tumultuar a manifestação. Segundo os organizadores, a polícia civil, que estava presente, liberou os suspeitos após revista.

Outra figura da extrema direita também esteve presente: o vereador Rogério Amorim (PL), da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde ocorreu a concentração final dos estudantes, perambulava entre os manifestantes.

Manifestações pelo país

Além da mobilização de hoje, ao menos 12 estados já confirmaram que vão às ruas para se manifestar contra Flávio Bolsonaro nesta semana. O movimento começou na noite de segunda-feira (5), um dia após a votação, com os estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. A passeata saiu do campus de Gragoatá, passou pelo Ingá e chegou até a praia de Icaraí. A organização estimou mais de mil participantes.

Em Pernambuco

Estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife, se reuniram na última terça-feira (6), em defesa de Lula, da democracia, da educação pública e do financiamento das universidades. Participaram DCE-UFPE, UEP, UBES e UNE, entre outras entidades.

No Pará e na Paraíba

Em Belém, no Pará, estudantes também ocuparam as ruas. O ato faz parte do calendário nacional de mobilização construído após o primeiro turno e reúne estudantes de universidades, institutos federais e escolas públicas de diferentes locais do estado.

Na Paraíba, estudantes da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), ocuparam o campus da universidade nesta quarta-feira (7), em defesa da “democracia, soberania e da educação pública”.