Cosme e Damião, Fé e Cultura


Setembro chegou e, com ele, os festejos populares de São Cosme e São Damião. As referências históricas sobre os gêmeos são nebulosas. Na encruzilhada entre mito, história e ritos da fé, pouco se sabe a respeito deles.

É bem possível que os relatos sobre Cosme e Damião sejam cruzados sincreticamente (as religiões em geral têm elementos sincréticos, amálgamas, encruzilhamentos culturais) com o culto greco-romano aos gêmeos Castor e Pollux. Mais que se opor oficialmente ao paganismo, o cristianismo absorveu e redefiniu mitos e ritos pagãos às suas práticas e crenças.

O encruzilhamento religioso, cultural, é fenômeno de mão dupla, pode ser entendido como estratégia de resistência, controle e apagamento – com variável complexa de nuances – e pode ser entendido – é obvio mas quase ninguém fala – como fenômeno de fé. Não custa lembrar que a incorporação de deuses e crenças é vista por muitos povos como acréscimo de força vital; e não diluição dessa força.

Cosme e Damião (se existiram ou não é o de menos) não são Castor e Pollux e nem são Ibeji, orixá ligado ao culto dos gêmeos com que foram sincretizados no Brasil. De toda forma, encruzilharam-se de maneiras muito mais complexas nas diásporas do que visões mecânicas e dicotômicas da cultura são capazes de admitir.

Nesse bololô, uma questão merece ser destacada: reparem como quase não se usa, a respeito do catolicismo romano ou das várias igrejas reformadas cristãs, a expressão “religião branca” ou “de tradição européia”. Esses cultos são universalizados e naturalizados. Enquanto isso, outros sistemas religiosos, fundamentados nas cosmopercepções africanas e indigenas (penso nos candomblés, umbandas, encantarias diversas), são desnaturalizados e jogados para o campo dos exotismos repugnantes, para alguns, e confortáveis e pitorescos, para outros.

Cultos de fundamentos não brancos e não cristãos – afetados e que afetam o cristianismo – quando não repudiados ocupam, muitas vezes, um lugar valorizado apenas pela contemplação e certo diletantismo estético, quase como uma brincadeira sensorial burguesa. Deste modo, são esvaziados de seu caráter espiritual sofisticado, profundo e reorganizador de existências. A simpatia pitoresca pode ser tão danosa quanto a aversão explícita.

Minha amiga, meu amigo cristão, tem dendê debaixo da batina do padre e do terno do pastor, ebó arriado no cruzeiro das almas e muito caroço debaixo desse angu.

No mais, viva Nossa Senhora e vadeia, Dois-Dois! Que venha um setembro lambuzado de esperanças em tempos amargos.





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