Por Cleber Lourenço
O clima político em Brasília azedou de vez após a ofensiva pública de Lula contra o texto do PL Antifacção aprovado na Câmara e a reação imediata de Hugo Motta. Mas o que ainda não tinha vindo a público é que, enquanto a troca de farpas ocorria no X, a crise migrava para um terreno mais explosivo: Motta passou a atuar nos bastidores para derrubar o líder do PT na Câmara, Lindbergh, aprofundando uma crise já considerada séria com Gleisi Hoffmann.
A escalada começou ainda na manhã de quarta-feira, quando Hugo Motta publicou que a Câmara havia “avançado muito” no texto e que eventuais ajustes no Senado seriam naturais no processo legislativo. Horas depois, Lula rompeu o tom institucional e afirmou que o projeto aprovado pela Casa “alterou pontos centrais” da proposta enviada pelo governo, gerando insegurança jurídica e enfraquecendo o combate ao crime organizado. A resposta de Motta veio no meio da tarde, acusando o Planalto de distorcer o debate e disseminar “falsas narrativas”.
Nos bastidores, o alvo era outro
À medida que a troca pública de declarações chamava atenção, o conflito real corria por fora. Interlocutores do Palácio do Planalto relatam que Motta atuava para isolar o líder do PT na Câmara, Lindbergh, um dos principais críticos da condução do PL Antifacção. A ofensiva ocorreu no momento em que o governo apostava no Senado para reverter mudanças feitas pela Câmara.
Segundo esses relatos, Motta passou a defender, em conversas reservadas, que Lindbergh “radicalizava” o ambiente e comprometia acordos. Para integrantes da base, o gesto tinha objetivo político claro: enfraquecer o comando petista na Câmara justamente no centro da disputa sobre o texto. A irritação de Motta aumentou após saber que Lula havia entrado diretamente na articulação para derrubar o texto elaborado por Guilherme Derrite — movimento interpretado por ele como enfrentamento pessoal.

Um interlocutor do Congresso descreveu a postura do presidente da Câmara como uma tentativa de “passar recado e fazer birra”, após perceber que o governo não recuaria diante das alterações feitas no relatório. A leitura interna é de que Motta tentava tensionar o ambiente para elevar seu preço político.
No governo, a avaliação é outra: a condução da matéria foi politizada pela própria Câmara, especialmente quando Derrite comemorou o relatório citando Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro e agradecendo a Motta.
A leitura é de que Motta tentou ainda entregar ao entorno de Tarcísio uma “bandeira” eleitoral para 2026, transformando o texto em ativo político da oposição paulista. O movimento tensionou de vez a relação com Gleisi Hoffmann, que passou a tratar Motta como interlocutor sem condições de recompor diálogo. A crise, descrita por integrantes da articulação como profunda, aumenta a incerteza sobre qualquer tentativa de reconstrução da ponte com o presidente da Câmara.
Um projeto que virou campo de batalha
O texto aprovado pela Câmara já havia gerado desconforto no governo por ampliar riscos jurídicos e abrir brechas interpretativas que, segundo avaliação interna, poderiam favorecer facções. A pressão de Lula por mudanças profundas colocou o Senado no centro da solução. A reação de Motta foi lida como tentativa de transformar o impasse em instrumento de pressão política.
Governo tentou salvar a relação com Motta
Mesmo com o ambiente já deteriorado, integrantes do governo ainda trabalhavam com a possibilidade de recompor minimamente a relação com Motta. A orientação era conter atritos e preservar algum canal institucional com a presidência da Câmara. Essa costura desabou de vez após Motta ser informado da atuação direta de Lula contra o texto produzido por Derrite. Para Motta, o gesto rompeu qualquer margem para diálogo.
Dentro da base governista, há incômodo adicional: setores avaliam que Lula cometeu erro estratégico ao confrontar o Motta frontalmente, quando poderia ter deixado o Senado ajustar pontos sensíveis. Interlocutores próximos a Lula afirmam que o presidente decidiu agir para deixar claro que não aceitaria novas manobras consideradas de má-fé, lembrando o episódio da MP do IOF, quando Motta desfigurou o texto e surpreendeu o Planalto.
Oposição vê abertura e tenta ressuscitar a pauta da anistia
O ICL Notícias ouviu pessoas próximas à presidência da Câmara que minimizaram a possibilidade de rompimento total, afirmando que Motta “não comentou nada” internamente e que é “cedo para concluir” que há corte definitivo na relação. Um aliado resumiu: “Se for se intrigar toda votação, perdeu a governabilidade, né?”, numa tentativa de enquadrar o conflito como administrável.
Esse contraste expõe leituras divergentes: para o governo, a relação é considerada irrecuperável; para aliados de Motta, a crise ainda pode ser administrada. Enquanto isso, parlamentares da extrema direita enxergam no atrito oportunidade para ressuscitar a pauta da anistia, enterrada há duas semanas. A aposta é que quanto maior o desgaste entre Planalto e presidência da Câmara, maior a chance de Motta reabrir temas caros ao bolsonarismo.
Líderes governistas monitoram discretamente esse movimento, atentos à reorganização do bloco pró-anistia. A preocupação é que a crise provoque retorno de pautas que o governo considerava superadas — agora reacendidas pela turbulência gerada pelo PL Antifacção.




