Deputados democratas nos EUA exigem respostas por parte do Departamento de Estado sobre o papel do governo de Donald Trump na fuga de Flávio Bolsonaro. Na quinta-feira, jornais americanos revelaram que assessores em Washington foram decisivos na organização da viagem, inclusive com a contratação do jato que levou a família do senador da Argentina até Miami, passando pelo Equador.
O documento com a solicitação de informação foi enviado na noite de quinta-feira e assinado por deputados que fazem parte do influente Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Entre eles está Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e quase 30 parlamentares.
O que eles querem saber é como a fuga foi organizada e de que forma o visto de entrada para Flávio Bolsonaro foi concedido.
“O povo americano e o Congresso têm um interesse legítimo de fiscalização em entender se recursos diplomáticos e de imigração dos EUA foram utilizados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira nessas circunstâncias”, disse a carta. “A transparência é particularmente importante quando os fatos relatados envolvem um processo judicial estrangeiro, relações bilaterais sensíveis e a aplicação consistente das políticas de imigração e diplomacia dos EUA”, completa.
Nas redes sociais, a deputada que lidera o pedido foi enfática. “Na América de Trump, existem dois sistemas de imigração: um no qual seus aliados ricos e bem relacionados são bem-vindos, enquanto imigrantes trabalhadores e com a ficha limpa são aterrorizados nas ruas”, disse Sydney Kamlager-Dove.
“Trump está abrigando o filho de um aspirante a ditador — alguém que nega o resultado das eleições e foge de processos judiciais —, ao mesmo tempo em que vira as costas para pessoas que fogem da guerra e da fome. Vergonhoso”, completou.
Antes da eleição, os democratas já tinham cobrado de Rubio uma explicação sobre como seria o comportamento do governo americano diante da eleição brasileira.
A principal preocupação do grupo liderado pelo senador Bernie Sanders era de que o voto no Brasil fosse alvo de uma operação de desestabilização por parte dos EUA. No documento, Sanders e outros pressionavam o governo Trump sobre qual seria a reação da Casa Branca diante da situação brasileira.
A carta foi seguida por outras duas manifestações por parte deputados e senadores dos EUA, também pressionando Rubio a dar respostas sobre o posicionamento americano no processo democrático no país.
Mas na resposta, o governo Trump não deu qualquer garantia de que irá reconhecer o resultado das urnas.
Num texto lacônico, o Departamento de Estado afirmou:
“Os EUA apoiam o direito do povo brasileiro a um processo eleitoral livre e justo. Continuaremos a dialogar com o povo brasileiro, o setor privado e o governo eleito para promover a segurança, o comércio recíproco, os investimentos e a prosperidade em ambos os países”.
A resposta não foi sequer assinada por Rubio. Coube a Katherine Bowles, sub-secretária para Assuntos Legislativos do Departamento de Estado, enviar o texto.
A carta acendeu um alerta. Nos últimos meses, a sociedade civil brasileira tem percorrido gabinetes de democratas nos EUA, alertando sobre o risco de que Trump não reconheça o resultado da eleição.
A ação da oposição é considerada como estratégica para observadores brasileiros. A pressão dos parlamentares pode gerar constrangimentos para uma eventual ação desestabilizadora por parte de Trump. A esperança do Brasil é de que essa movimentação ainda sirva como um contraponto dentro do próprio EUA, caso o presidente americano opte por não reconhecer uma vitória de Lula.
O qualificativo de “livre e justo” por parte do Departamento de Estado para se referir à eleição no Brasil também chama a atenção. Uma parte da sociedade civil questiona quem, nos EUA, designaria que a eleição foi “livre e justa”. A suspeita é de que esses termos possam ser usados, eventualmente, para justificar uma decisão por parte de Trump de dizer que esses critérios não teriam sido atendidos.
Dias depois da carta de Sanders, um grupo de senadores liderado por Jeanne Shaheen, do Comitê de Relações Exteriores do Senado, e pelos senadores Tim Kaine e Peter Welch, voltaram a cobrar o Departamento de Estado.
A acusação era de favorecimento explícito à candidatura de Flávio Bolsonaro. “A recente reunião no Salão Oval entre o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro e o presidente Trump — realizada em meio a tentativas de atenuar um escândalo político interno — evidencia a disposição da Administração em interferir no processo eleitoral”, indicam.





