Do ‘subsolo’, Mamdani toma posse e questiona a alma de um país


Zohran Mamdani escolheu uma estação de trem abandonada de Nova York para sua posse. Não foi por acaso. O local construído em 1904 e desativado em 1945 foi o cenário para que ele passasse a mensagem de que seu mandato que começa neste dia 1 de janeiro de 2026 será marcado por uma proximidade à classe trabalhadora.

Chamada em sua época de a “Mona Lisa” das estações de metrô, o local com sua grandiosidade arquitetônica ainda traz com lustres, claraboias de vidro e túneis abobadados revestidos de azulejos.

Aquela não foi apenas uma cena de um prefeito de uma das maiores cidades do mundo assumindo seu mandato. Consciente ou não, ela parece remeter a uma resposta à crise existencial que atravesse parte da sociedade americana.

Como se ele tentasse se apresentar como a antítese do personagem de Fiódor Dostoiévski em seu livro “Notas do Subsolo”, de 1864. O homem sem nome e que promove uma autoanálise é, em muitos aspectos, o subterrâneo da alma humana. Contraditório e vaidoso, como aquele que hoje ocupa a Casa Branca.

Um relato que, de muitas formas, parece ser o desenho do destino de uma potência em decadência, tentando resistir ao desembarque de um novo mundo e que opta pelo isolacionismo.

Uma potência que não aceita sua obsolescência, mas que admite, em sessões de análise, que “vive um consolo raivoso — que para nada serve — de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem”.

Um “homem doente”, “desagradável” e que sofre do fígado. Mas um personagem que se recusa a passar por um diagnóstico. “Não me trato e nunca me tratei (…) Ademais, sou supersticioso ao extremo”, diz o personagem.

Mamdani terá enormes desafios práticas nos próximos meses. Mas, sem dúvida, um dos maiores será o de confrontar essa alma do subsolo dos EUA, desiludida, rancorosa e, hoje, perigosa ao mundo.

O novo prefeito parecer ir ao subterrâneo justamente para conversar com o personagem, neste caso os medos mais profundos de um país.

“O grande enigma, porém, reside em como sair do subsolo”, analisou Erika Batista, escritora e tradutora de russo e inglês, numa resenha sobre a obra de Dostoiévski.

O mesmo enigma hoje ronda um país inteiro.





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