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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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‘É aí que os monstros entram’: a caçada aos imigrantes norte-africanos na Espanha


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A cidade de Torre Pacheco, em Múrcia, na Espanha, sediou uma “caçada” a imigrantes de origem norte-africana nos últimos dias.

O gatilho teria sido a agressão de um homem de 68 anos por 3 jovens marroquinos.

À medida que a história corria pelas redes sociais, as pessoas começaram a se mobilizar.

Num primeiro momento, como noticiou o jornal El País, os moradores da cidade de 40 mil habitantes se mobilizaram contra a agressão.

Depois, a revolta teria sido instrumentalizada por grupos xenofóbicos, supremacistas e de extrema direita para o que se tornaria uma caçada aos imigrantes, sobretudo marroquinos e magrebinos, que são um terço da população local.

Nas redes sociais, a “caçada” era convocada abertamente para os dias 15, 16 e 17 de julho pelo grupo “Deport Them Now” (deportem-nos já).

O grupo tem sido investigado pela polícia espanhola desde sua participação no evento dedicado à “remigração” que aconteceu na Itália.  O termo que tem sido amplamente divulgado pela extrema direita europeia e norte-americana e significa a deportação em massa de imigrantes.

Segundo declarações do governo de Múrcia, mais de 300 pessoas teriam sido identificadas e 14 detidas pela polícia, entre elas três suspeitos de agressão ao homem idoso.

O que aconteceu em Torre Pacheco vem na esteira de outros eventos parecidos na Europa e Reino Unido, em que grupos identitários, extremistas e xenofóbicos se utilizam de crimes (ou notícias falsas de crimes) que teriam sido cometidos por imigrantes para justificar violência contra esses grupos.

Essa retórica também é frequentemente utilizada por partidos políticos de direita.

O partido de extrema direita espanhol Vox também teria inflamado a caçada em Torre Pacheco com seus discursos xenofóbicos.

Para entender mais sobre o que aconteceu na Espanha, a coluna entrevista Miquel Ramos, jornalista investigativo especializado em extrema direita, crimes e discursos de ódio e autor de “Antifascistas: assim se combate a extrema direita na Espanha desde a década de 1990” ainda sem tradução para o português.

Miquel Ramos

O que aconteceu em Torre Pacheco é assustador, mas vem numa crescente de episódios parecidos na Europa, em que atentados se baseiam em punir “crimes cometidos por imigrantes”, que muitas vezes nem foram cometidos por imigrantes, mas essa tem sido a retórica. Pode falar sobre isso?

O que aconteceu em Torre Pacheco já havia acontecido antes em outros lugares, na Europa, no Reino Unido, e na Espanha eles vêm tentando fazer com que isso aconteça há muito tempo, com a mesma fórmula, ou seja: atribuir qualquer ato criminoso aos migrantes para vincular migração e crime, embora em muitos casos isso não seja verdade.

E a partir daí, não só iniciam uma caçada contra os migrantes, mas também disfarçam de patrulha cidadã de segurança e instrumentalizam a vítima.

Neste caso de Torre Pacheco, por exemplo, a vítima veio a público dizer que não quer que ninguém vá até lá para caçar árabes.

Foi isso que aconteceu nesse caso, tem acontecido em outros países, e estão tentando fazer com que volte a acontecer constantemente. Essa é uma fórmula que eles vão repetir, estou convencido disso.

Quais são os grupos envolvidos nesse atentado?

A primeira responsabilidade é do Vox, que é  o porta-voz mais barulhento e que inicia a campanha, apresentando-se lá no primeiro dia, e é a principal porta-voz de toda essa reação contra os imigrantes.

As pessoas que vão lá para executar, que vão lá para caçar, são pessoas espontâneas, entre aspas, pessoas de grupos nazistas diretamente, que vão lá para brincar de caçar e provocar distúrbios.

O Partido Popular também endossou o discurso do Vox, ou seja, eles também têm responsabilidade, porque fizeram parte do problema ao comprar todos os argumentos do Vox relacionados à imigração e à delinquência.

Portanto, há uma responsabilidade compartilhada.

E também houve uma movimentação em canais do Telegram, dos principais grupos neonazistas que divulgaram toda essa organização da caçada em Torre Pacheco.

Portanto, há muitas responsabilidades, mas é claro que os que têm mais responsabilidade são os grandes partidos, Vox e PP.

E qual é a relação entre o Vox e grupos mais radicais? Eles cooperam ativamente?

O Vox sempre teve relações com outros grupos mais radicais. O que acontece é que, às vezes, elas são muito discretas e, às vezes, também são através do discurso que é coordenado.

E também há alguns membros do Vox que têm mais relações com outros grupos nazistas ou outros tipos de grupos. Mas aqui houve total harmonia no discurso e na ação. O Vox não foi à caça. Lançou todo o discurso de ódio e outros foram à caça.

Qual é o papel das redes sociais na radicalização e mobilização desses grupos que atuaram em Torre Pacheco?

As redes sociais foram fundamentais na organização dos protestos racistas em Torre Pacheco e nas caças.

Algumas vezes foram muito óbvias, porque eram grupos de Telegram abertos que também espalhavam desinformação, notícias falsas, vídeos falsos constantemente, e em outras, armas foram exibidas explicitamente, planos foram divulgados para chegar à cidade sem serem detectados pela polícia, etc., elas foram fundamentais.

Também na radicalização, obviamente, porque essas redes atraem muitas pessoas que buscam informações e o que elas fazem é encher tudo de propaganda e apresentar a situação como uma espécie de caos que precisa que as pessoas vão lá e coloquem ordem porque o Estado não faz nada e há necessidade de patrulhas de cidadãos para controlar o crime, etc. Há pessoas que são fanáticas e que têm essa ideia.

O termo “remigração” aparece como um novo eufemismo para deportações em massa. Como você enxerga a normalização desse tipo de vocabulário no discurso público e político?

Há várias palavras que estão sendo usadas agora pela extrema direita, como repatriação e remigração, que também é a palavra da moda dos grupos de identidade e que Donald Trump também usou.

E bem, no fim das contas, o que eles estão se referindo é à deportação em massa de imigrantes, obviamente do sul global, ou seja, não de migrantes brancos.

Ou bem, não migrantes brancos do sul global, porque não estamos falando de venezuelanos ricos que vivem em Madri, por exemplo, ou de argentinos ricos, também é uma questão de classe.

O que é verdade é que o discurso de ódio racista na Espanha, na Europa em geral, mas na Espanha em particular, é muito islamofóbico.

E o alvo da extrema direita espanhola são os magrebinos e os muçulmanos, sejam eles espanhóis ou não – porque na Espanha há dois milhões de muçulmanos e muitos deles nasceram aqui e são espanhóis.

Mas sim, a islamofobia é onde todo esse racismo é articulado, porque eles querem apresentar a Europa como vítima de uma invasão e de um plano para islamizá-la.

E, portanto, os imigrantes, digamos, são soldados desse exército de invasão, certo? E é por isso que a islamofobia, o racismo e tudo o que está acontecendo em Torre Pacheco são inseparáveis.

Há uma forte cooperação internacional entre grupos neofascistas. Como você descreveria essa rede transnacional e que riscos ela representa para as democracias?

Ela existe em todos os níveis, ou seja, existe no nível dos grandes partidos de extrema direita, que têm suas reuniões, desde o CEPAC até o Make Europe Great Again, MEGA, têm suas reuniões internacionais e seus espaços onde articulam todas as estratégias que são implementadas em todos os países, compartilham discursos, compartilham estratégias, são todos coordenados, mas também são todos coordenados por baixo.

Ou seja, muitos dos think tanks que pertencem a esses partidos ou que estão na órbita desses partidos também produzem muito material para a batalha cultural e treinam muitas pessoas, muitos quadros, recrutam muitos novos militantes, novos líderes da extrema direita também.

Tudo isso tem uma tradução mais clandestina, os grupos mais neonazistas ou identitários que não são bem-sucedidos. É claro que eles são nazistas, não demonstram ser nazistas, não exibem a ideologia nazista, mas são neonazistas bem conhecidos.

Seus militantes, e os grupos neonazistas hardcore não se escondem de nós, eles também têm suas reuniões, seus contatos, há uma coordenação absoluta e agora mais do que nunca, estamos vendo como em nível internacional eles estão constantemente organizando reuniões em vários países e um novo terreno fértil está sendo criado.

Vamos dizer que eles operam em todos os níveis: nos níveis institucional, cultural e político, com suas bandas, com os grupos de pressão, os lobbies, e depois há os grupos de agitação política mais baseados nas ruas e os grupos violentos.

E sim,eles estão todos do mesmo lado nessa guerra, sem dúvida. E isso é um perigo, não apenas para os imigrantes, obviamente, porque essas pessoas também têm oponentes políticos e jornalistas em sua lista de alvos. Em Torre Pacheco, por exemplo, um dos grandes alvos da extrema direita têm sido os jornalistas.

Sabemos que há jovens sendo atraídos por esses discursos e estéticas fascistas. Por que?

Um setor formado principalmente por homens jovens, homens, mulheres nem tanto, especialmente homens, e que responde a um momento político atual que tem a ver com a batalha cultural que a extrema direita vem travando há muitos anos em todo o mundo, apresentando os valores progressistas como uma imposição.

E é por isso que eles falam de marxismo cultural para se referir às ideias progressistas que fazem parte do senso comum atual. A questão dos direitos das mulheres, LGBTQIA+, o antirracismo, uma série do que eles chamam de “woke”  que também está muito na moda.

Então, isso é algo aceito ou de alguma forma alcançou uma certa hegemonia entre aspas.

A extrema direita que é contra tudo isso, disfarçada de politicamente incorreta. “Nós somos aqueles que vão contra a corrente, aqueles que vão contra o establishment, o que é politicamente correto, a ditadura progressista, o marxismo cultural”.

Todos eles se referem à mesma coisa. Por exemplo, há jovens que acreditam que ser rebelde, hoje em dia, é ser um fascista.

Portanto, essa roupagem de rebeldia que a extrema direita tentou dar às suas ideias, que são velhas ideias reacionárias, não tem nada de rebelde.

Porque elas não questionam o poder, não questionam a estrutura, nem mesmo questionam o capitalismo.

Mas há jovens que se sentem atraídos por isso porque acreditam que o feminismo foi longe demais, que o feminismo forma parte da política dos estados, acham que há imigrantes demais, tolerância demais, que há uma invasão.

Parte da esquerda também não conseguiu se comunicar bem com tudo isso, portanto, há momentos em que também há um erro de comunicação ou uma má administração de tudo isso de nossa parte, e é aí que os monstros entram.





Fonte: ICL Notícias

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