Por Clarisse Meireles e Juliano Borges
Se chegamos às vésperas da eleição com o candidato do bolsonarismo colado no atual presidente nas pesquisas de intenção de voto, há de se reconhecer que a grande imprensa se absteve do seu dever de informar a população sobre o que representa cada candidatura.
Os principais veículos de comunicação não se mostram capazes de fazer uma cobertura à altura do momento histórico do país e do mundo. De costas para a função social da comunicação, criam, através do noticiário e análises, uma falsa equivalência entre as duas principais candidaturas à Presidência e seus respectivos projetos – quando uma delas representa um grupo político que defende abertamente a ruptura democrática, tendo fomentado e financiado a invasão e depredação das sedes dos três poderes da República em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.
Envolvido em diversos escândalos de corrupção, o mesmo grupo político vem usando mandatos e conexões internacionais para fragilizar as instituições que se opuseram com firmeza a esta e outras violências simbólicas e reais contra a democracia, especialmente o Supremo Tribunal Federal, articulando para punir magistrados que condenaram os responsáveis pelos atos golpistas.
Além de representar um projeto autoritário, esta mesma candidatura trabalha contra a soberania nacional, fazendo lobby por sanções econômicas ao país, e já prometeu entregar as riquezas minerais ao Governo americano.
Mas a democracia e a soberania brasileiras não são as únicas ameaçadas pelo projeto de extrema-direita. As condições de vida no planeta também são postas em xeque por um projeto que nega as evidências científicas sobre as mudanças climáticas.
A grande mídia contribui para uma amnésia coletiva ao deixar de enfatizar que uma das candidaturas com chances de vitória representa a continuidade de um governo recente que fez o Brasil voltar ao Mapa da Fome da ONU, extinguiu o Ministério da Cultura, perseguiu manifestações artísticas, atacou professores e a universidade, questionou a eficácia das vacinas, levando à redução da cobertura vacinal no Brasil e à morte de milhares de pessoas durante a epidemia de Covid-19.
Por outro lado, somente uma cobertura econômica enviesada pelo olhar do mercado financeiro pode explicar que os melhores indicadores econômicos em muito tempo (desemprego, PIB, inflação) não se traduzam em uma mínima percepção de melhora da economia pela população.
Igualmente invisíveis parecem ser os avanços promovidos pelo atual governo no meio-ambiente, saúde, educação, política internacional, nunca apresentados de forma clara, explicita. As boas notícias são sempre seguidas de uma adversativa.
Da mesma forma, a pauta STF é cortina de fumaça bem apropriada para o bolsonarismo. De mãos dadas com alguns jornalistas, André Mendonça teve êxito em sua missão de desviar às vésperas da eleição o eleitor das propostas e da necessária comparação entre projetos.
Quando a grande mídia, historicamente concentrada sob propriedade de um punhado de famílias e sediados no eixo Rio-SP, pretende pautar o debate do Brasil real? Quando acabarem as eleições? O Brasil suporta mais 4 anos de bolsonarismo vassalo do trumpismo? O que será das florestas, dos povos autóctones, da vacinação das crianças, da farmácia popular, das universidades? O que restará do STF em mais 4 anos de bolsonarismo? O que está em jogo de fato? Quando a grande mídia pautará o que realmente importa e deixará de lado as fofocas de bastidor, tão eficazes em desviar o foco do que é fundamental para o futuro do país, nesse momento em que a democracia no Brasil corre risco existencial.
*Clarisse Meireles é jornalista. Juliano Borges é médico





