A nova administração americana iniciou funções despedindo magistrados do sistema judicial e diretores do FBI. Depois nomeou novos dirigentes com instruções para irem atrás dos adversários políticos do Presidente – Letitia James, antiga procuradora; Adam Schiff, senador da Califórnia; George Soros, bilionário e filantropo; James Comey e John Bolton, antigos colaboradores do presidente. O sistema judicial americano deixou de agir com base em notícias de crime e passou a atuar contra alvos selecionados por motivos políticos. O fenómeno tem um nome – lawfare.
O novo governo americano decidiu também atacar as universidades, congelar fundos de pesquisa e condicionar a liberdade de ensino universitário. O presidente processou o Wall Street Jornal, o New York Times e mandou investigar as televisões ABC, CBS, e a NBC. Os escritórios de advogados com ligações ao partido democrata foram impedidos de ter contratos governamentais.
A pretexto de combater o crime, o presidente americano mandou a Guarda Nacional (força militar de reserva) policiar as cidades de Chicago e de Los Angeles, contra a vontade dos governadores e dos prefeitos dessas cidades. Em junho, num discurso na base militar em Fort Bragg, o Presidente incitou uma audiência composta por soldados em uniforme a vaiar os políticos democratas. Nunca um presidente americano tinha tentado politizar as forças armadas.
A liderança de Donald Trump transformou objetivamente a vida política americana de forma mais profunda do que muitos dos seus críticos estão dispostos a admitir -– nunca saberemos exatamente quanto mudou, visto que grande parte da mudança social se sustenta no medo. Medo de falar, medo de agir, medo de desagradar, medo de ser investigado, medo de ser apedrejado nas redes sociais.
Agora a Venezuela. Primeiro veio o bloqueio naval, depois os ataques militares a embarcações em águas internacionais, depois ainda a apreensão ilegal de navios petroleiros. Hoje temos notícia de explosões em Caracas e de ações militares terrestres. O objetivo, agora explicito, é a mudança e decapitação do regime: raptamos um ditador para restaurar a democracia. E, no entanto, resta a incômoda pergunta: afinal, que moral tem a administração americana para falar em democracia?
Dizem que a missão foi cumprida. Duvido muito. Já vimos isto antes na invasão do Iraque – a missão também foi celebrada como cumprida antes do primeiro surto de insurgência. Depois foi o inferno, que durou vários anos. Agora, na Venezuela, as coisas estão apenas a começar. Os militares são bons a explodir coisas e a matar pessoas – não a construir regimes. Assim começa 2026, veremos como acaba.




