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sábado, fevereiro 14, 2026
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Empresa cobra até R$ 1,2 mil para fornecer artigos e certificados científicos para residência médica


Por Beatriz Dragues Ramos – Brasil de Fato 

Uma empresa chamada Revista Elevate tem oferecido a venda de certificados de iniciação científica para estudantes que buscam prestar residência médica em diversas áreas da medicina. A entidade que se diz ser “um periódico científico” comercializa esses documentos por valores que vão de R$ 500,00 a R$ 1,2 mil. No site, a Revista Elevate diz que se dedica à “divulgação de produções acadêmicas que contribuam para o avanço do conhecimento em diversas áreas das ciências da saúde, humanas e biológicas.”

Em seu perfil do Instagram, que foi retirado do ar após a reportagem fazer contato, a empresa afirmava prestar serviços de “mentoria científica personalizada, livros, artigos, currículos, capítulos e iniciação científica”. Segundo o perfil, a fundadora do instituto chama-se Bianca Cajé.

Em um grupo no Whatsapp chamado “Artigos Científicos” com cerca de 445 membros, a Elevate oferece ainda a coautoria em artigos científicos pelo valor de R$ 780,00. De acordo com prints do grupo acessados pela reportagem, essas coautorias são em artigos indexados em portais científicos como o Scielo, Scopus, Web of Science, Latindex, entre outras.

Em uma mensagem divulgada no grupo do WhatsApp, a Elevate afirma ter vagas abertas para a coautoria no artigo intitulado: “Precarização docente e subfinanciamento como fatores críticos na formação médica no Brasil: Revisão de escopo”.

Em uma outra mensagem, a Elevate anuncia a inclusão de coautoria em um capítulo de livro com ISBN nacional. O ISBN é um código numérico de 13 dígitos que funciona como identificação de publicações monográficas, como livros, apostilas e e-books. Ele identifica o título, autor, país, editora e edição, facilitando a comercialização, catalogação em bibliotecas e rastreio global em mais de 200 país.

Em mais um comunicado no grupo de WhatsApp, a organização anuncia a apresentação em congresso com certificado de 40 horas, cujo tema é o “impacto do uso excessivo de redes sociais na ansiedade e qualidade do sono em adultos jovens: uma revisão integrativa”. Para esse serviço, eles cobram R$ 290,00 com pagamento via pix ou cartão de débito.

A residência médica é um programa de pós-graduação que forma especialistas através de treinamento em hospitais e instituições de saúde de forma intensiva. Geralmente essa etapa dura de dois a seis anos e o médico atua sendo supervisionado.

Para ingressar em um programa de residência, o médico precisa prestar um concurso que envolve prova teórica, análise curricular e, em algumas vezes, entrevista e prova prática. Para pontuar, os médicos precisam participar de experiências extracurriculares (monitorias, pesquisa, congressos, ligas) com o objetivo de enriquecer o currículo.

A reportagem entrou em contato com a Elevate solicitando a compra de um certificado de iniciação científica na área da pediatria, em poucos minutos uma pessoa na empresa respondeu dizendo o seguinte: “Basta fazer o pagamento e enviar seus dados, emitimos pelo instituto”.

Além disso, a Elevate explicou que faz um certificado para pesquisa com bolsa. Com duração de um ano, o valor é de R$ 1.000,00 e para duração de seis meses, o valor é de R$ 500,00.

Print da apuração da reportagem em conversa com a Elevate | Crédito: WhatsApp
Print da apuração da reportagem em conversa com a Elevate | Crédito: WhatsApp

A empresa ainda disse que esse tipo de conduta nunca resultou em implicações para os alunos e médicos e que os certificados são feitos inclusive com bolsa. “Nunca tivemos ninguém que deu problema. Fazemos com bolsa e publicamos”, disse na mensagem.

Na sequência a pessoa encaminhou um modelo de certificado no qual aparece o nome de uma estudante que teria feito a iniciação científica entre novembro de 2023 e novembro de 2024. Ao final há uma assinatura sem nome em pessoa física de uma suposta coordenadora institucional de Pesquisa Ensino e Extensão.

Certificado enviado pela Elevate para a reportagem | Crédito: WhatsApp
Certificado enviado pela Elevate para a reportagem | Crédito: WhatsApp

Em contato com a organização para apurar denúncias sobre a suposta venda ilegal de certificados e artigos acadêmicos, a reportagem do Brasil de Fato apresentou cinco questionamentos centrais baseados em relatos de estudantes e registros de conversas que indicariam a possibilidade de compra de documentos.

Certificado com data retroativa ao período da faculdade

Um médico recém formado, entrevistado pelo Brasil de Fato, disse ter tido o primeiro contato com a empresa através do grupo de WhatsApp. “Esse grupo tem vários alunos de residência médica Brasil afora. Aí entrei no grupo da Elevate, quis ver até onde vai, ela foi bem direta, disse que para iniciação científica emite-se o certificado para quando você ainda estava dentro da faculdade. Pelo que eu entendi, literalmente você compra o certificado retroativo, você não tem noção do tema, do que você fez ou deixou de fazer.” Após as apurações da reportagem, ele foi excluído do grupo.

A venda de certificados gerou a revolta do médico que não quis comprar nenhum serviço da empresa e se indignou com a situação. “Isso é muito triste porque meu currículo, graças a Deus, ele é muito bom, mas é de muita dedicação e suor. Aí chega qualquer pessoa ali, gasta um dinheiro e consegue isso.”

Em um print encaminhado a reportagem, a Elevate diz que já emitiu certificados para alunos de diversas instituições reconhecidas na área da medicina, entre elas a própria Santa Casa da Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e os hospitais 9 de Julho e Oswaldo Cruz.

“Ou seja, qual é o risco de ter gente lá dentro, que passou no concurso com essa improbidade”, criticou o médico.

A comercialização desses documentos expõe falhas na fiscalização das atividades extracurriculares, segundo o médico. “Se chega um certificado como esse, a universidade ou hospital não tem como saber se é verdadeiro, tem todas as informações que precisam conter num certificado.”

Uma professora de um curso de medicina que também preferiu não se identificar lembrou que a iniciação científica, a publicação de artigos e os cursos extracurriculares são muito importantes na formação de médicos e de profissionais da saúde de maneira geral.

“É um grande absurdo ter uma empresa privada que faz burlar esse sistema e vende certificados, certificando alunos como se tivessem feito essas atividades e não fizeram, para que esses alunos tenham um ganho em processos seletivos, então, é um prejuízo na formação de qualquer estudante e em especial na formação de profissionais da saúde.”

Alunos de medicina com desempenho insatisfatório

A suposta comercialização de certificados vem na esteira da avaliação dos cursos de medicina através do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que avaliou 351 cursos de medicina em todo o país. Segundo dados divulgados pelo MEC, cerca de 30% dos alunos tiveram desempenho insatisfatório e menos de 60% dos estudantes foram considerados proficientes. No total, 99 cursos estão nesta situação.

A partir da publicação dos dados, os cursos com nota insatisfatória e que pertencem ao Sistema Federal de Ensino, que inclui as universidades federais e as instituições privadas, passarão por um processo de supervisão em que podem ser adotadas medidas cautelares, tais como: a redução de vagas e a suspensão de oferta via Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), por exemplo.

Instituído em abril de 2025, o Enamed é a versão do Enade voltada especificamente para formandos de Medicina. Com foco na avaliação da qualidade da formação médica no Brasil, o exame é de caráter obrigatório. Um diferencial importante é que o desempenho do estudante pode ser utilizado como critério de seleção para o Enare, o exame de residência unificado do MEC/Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).

Diante desse cenário, o médico que relatou o esquema se pergunta: “Será que médicos insuficientes, mal formados, são mais propensos a fazerem isso? É desespero?”, questiona. “Infelizmente, provavelmente no futuro tirem essa obrigatoriedade [de currículo], porque você vai estar, de alguma forma, prejudicando quem fez [as atividades extracurriculares] ou motivando as pessoas para fazer essas falcatruas.”

O que dizem os hospitais e universidades

À reportagem Fabio Giannini, coordenador da educação médica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz disse que o hospital não aprova a comercialização de certificados de iniciação científica nem autoriza terceiros a fazê-lo em seu nome.

“No âmbito de seus processos seletivos, inclusive para Residência Médica, certificados e atividades extracurriculares devem corresponder a atividades efetivamente realizadas, devidamente comprovadas e rastreáveis. Documentos que apresentem inconsistências, ausência de comprovação ou indícios de irregularidade não são considerados e, quando aplicável, podem ser encaminhados às instâncias competentes para apuração.”

Segundo o centro médico, os processos seletivos do hospital são geridos por critérios objetivos, transparência e integridade acadêmica.

O responsável pela educação médica do hospital afirmou ainda que o local “não possui atribuição regulatória para estabelecer normas de fiscalização para universidades, institutos de pesquisa ou empresas que ofertem cursos e atividades extracurriculares. A regulação dessas atividades compete às autoridades educacionais e às próprias instituições de ensino.”

“No que se refere à Residência Médica, o processo seletivo observa as diretrizes da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) e os critérios estabelecidos no edital próprio, com análise técnica da documentação apresentada”, alegou. Disse ainda que “em caso de inconsistências relevantes, medidas cabíveis são adotadas.”

Marilda Mazzali, Coordenadora da Comissão de Residência Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp disse que a universidade não dispõe de normativas para a fiscalização desses institutos de pesquisa e editoras que fazem cursos e ações extracurriculares. “Não é função da Unicamp fiscalizar essas empresas, cabendo aos órgãos competentes fazê-lo. Se a prática começa por vias inadequadas, a ética já está comprometida. Afinal, ela é a base da conduta médica.”

Segundo a representante da Unicamp, o “edital de ingresso na residência médica da Unicamp exige iniciação científica com bolsa de agências de fomento, como o CNPq ou agências estaduais, como a Fapesp. Também é exigida uma carta do orientador e assinatura da universidade.”

O outro lado

Em retorno oficial, a Elevate rechaçou integralmente as alegações, afirmando que não comercializa certificados nem realiza práticas ilegais. Segundo a nota, o grupo define-se como uma “comunidade científica sem fins lucrativos”, voltada à democratização da pesquisa e à colaboração voluntária entre acadêmicos.

Sobre os valores mencionados em comunicações anteriores, a organização declarou que referem-se apenas a custos operacionais externos, como “taxas de submissão e publicação exigidas por revistas e periódicos”. Os custos, segundo eles, envolvem serviços de terceiros, como “revisão textual e tradução, que não configuram venda de títulos acadêmicos.”

A organização declarou não reconhecer legitimidade nas perguntas enviadas, por considerá-las baseadas em premissas “falsas e difamatórias”. Por fim, a entidade não autorizou a divulgação de seu nome, dados internos ou prints de conversas, afirmando que qualquer menção será tratada como violação à honra e reputação, passível de medidas judiciais nas esferas civil e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Na sequência do envio da nota, a entidade excluiu a repórter do grupo em que as atividades de supostas vendas eram realizadas e oferecidas para centenas de pessoas. O perfil do Instagram também foi apagado. A Elevate não informou a natureza jurídica da associação.

A reportagem também questionou o MEC sobre as práticas da Elevate, bem como sobre um eventual amparo jurídico para as ofertas e sobre a fiscalização deste tipo de entidade. O ministério não retornou até a publicação da reportagem.

Perfil da Elevate excluído após contato com a reportagem. Créditos: WhatsAppPerfil da Elevate excluído após contato com a reportagem | Crédito: WhatsApp
Perfil da Elevate excluído após contato com a reportagem. Créditos: WhatsApp
Íntegra da nota da Revista Elevate

Acusamos o recebimento de sua mensagem e rechaçamos integralmente as alegações nela contidas. A organização que representamos não comercializa certificados, tampouco realiza qualquer prática ilegal. Trata-se de uma comunidade científica sem fins lucrativos, cujo objetivo exclusivo é democratizar o acesso à pesquisa científica, promovendo a colaboração entre acadêmicos e pesquisadores interessados em desenvolver estudos e artigos científicos em conjunto, de forma voluntária e colaborativa.

Esclarecemos que eventuais valores mencionados em comunicações referem-se exclusivamente a custos operacionais externos, que não são cobrados pela comunidade, tais como:

  • Taxas exigidas por revistas, eventos científicos, editoras ou periódicos para submissão e publicação de artigos;
  • Serviços opcionais de revisão textual, normalização ou tradução, quando necessários para adequação às exigências editoriais, os quais são prestados por terceiros e não configuram comercialização de certificados ou títulos acadêmicos.

As alegações apresentadas em sua mensagem são inverídicas, infundadas e não refletem a natureza, finalidade ou funcionamento da nossa comunidade, motivo pelo qual não compactuamos com o conteúdo descrito. Desde já, não autorizamos o uso, compartilhamento, divulgação ou menção:

  • Do nome da organização;
  • De informações internas da comunidade;
  • De supostas conversas, “prints” ou dados de qualquer natureza;
  • De membros, colaboradores ou atividades da comunidade, em qualquer reportagem, publicação ou material jornalístico.

Qualquer divulgação nesses termos será considerada violação à honra, imagem e reputação organizacional, bem como uso indevido de informações, sujeitando os responsáveis às medidas judiciais cabíveis, inclusive ações por danos morais, danos materiais, direito de resposta, além das sanções previstas na legislação civil e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Diante do caráter difamatório das acusações, informamos que não reconhecemos legitimidade nas perguntas enviadas, nem responderemos a questionamentos baseados em premissas falsas. Reiteramos que a organização permanece aberta ao diálogo desde que pautado na boa-fé, na veracidade dos fatos e no respeito aos limites legais.





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