Entidades acionam MP Eleitoral para investigar possível favorecimento da Meta a Nikolas


Por Cleber Lourenço

O Sleeping Giants Brasil, a ARTIGO 19 e a CTRL+Z acionaram o Ministério Público Eleitoral (MPE) para investigar um possível favorecimento da Meta ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) no Instagram. A representação, apresentada nesta sexta-feira (16), aponta indícios de distribuição privilegiada dos conteúdos do parlamentar, que somaram 410,5 milhões de visualizações em apenas dez vídeos, e pede que a empresa explique se houve interferência nos mecanismos de recomendação da plataforma durante o período eleitoral.

As organizações solicitam que o Ministério Público dê prazo de 48 horas para a Meta apresentar dados sobre a distribuição dos conteúdos, incluindo a possibilidade de tratamento diferenciado por ferramentas internas, programas especiais ou intervenção humana. Também pedem que seja investigado se a empresa descumpriu as restrições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à recomendação de publicações de candidatos.

O pedido tem como base um relatório de 36 páginas produzido pelo Sleeping Giants Brasil, que examinou 300 vídeos publicados por 30 perfis no Instagram. A pesquisa comparou Nikolas com nove deputados federais de diferentes campos políticos, dez grandes perfis brasileiros e dez das maiores contas do mundo.

O resultado mais expressivo aparece na comparação com outros parlamentares. Enquanto os dez vídeos de Nikolas acumularam 410,5 milhões de visualizações, os 90 vídeos dos outros nove deputados somaram 137,3 milhões. Sozinho, o parlamentar obteve praticamente três vezes mais visualizações do que todos os demais reunidos, apesar de ter publicado apenas um nono da quantidade de vídeos analisados.

A diferença também não se explica por uma única publicação de grande repercussão. Todos os dez vídeos de Nikolas ultrapassaram sua base de 23 milhões de seguidores. O menos assistido registrou 23,3 milhões de visualizações.

Entre os 300 vídeos examinados, apenas 23 superaram a quantidade de seguidores de seus respectivos perfis. Dez deles pertenciam a Nikolas. Nenhum dos outros 29 perfis conseguiu repetir esse desempenho em todas as publicações analisadas.

Nikolas Ferreira
Nikolas Ferreira. (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

O relatório classifica o resultado como um padrão atípico e persistente, compatível com a hipótese de amplificação sistemática dos conteúdos, embora ressalte que os dados públicos não permitem identificar conclusivamente sua causa.

Nikolas supera celebridades com centenas de milhões de seguidores

A pesquisa também comparou o desempenho do deputado com o de algumas das personalidades mais seguidas do planeta.

Nikolas registrou uma mediana de 38,25 milhões de visualizações por vídeo. Isso significa que, entre suas dez publicações, o desempenho central foi superior ao de Neymar, que tinha 241 milhões de seguidores e registrou mediana de 31,8 milhões de visualizações.

O deputado também superou Selena Gomez, com 34,45 milhões; Kylie Jenner, com 25,8 milhões; Justin Bieber, com 16,6 milhões; Kim Kardashian, com 13,9 milhões; e Beyoncé, com 11,7 milhões.

Entre os 30 perfis examinados, apenas Cristiano Ronaldo, com mediana de 95,15 milhões, e Lionel Messi, com 52,6 milhões, tiveram resultados absolutos superiores.

Quando o tamanho da base de seguidores é considerado, a diferença se torna ainda mais expressiva.

A mediana de visualizações de Nikolas correspondeu a 166,3% de seus seguidores. Entre os outros nove deputados, esse indicador ficou em 9,68%, considerando a mediana do grupo.

Na prática, o desempenho proporcional de Nikolas foi 17,2 vezes superior ao resultado típico dos demais parlamentares. Em comparação com as maiores contas brasileiras, a diferença chegou a 29,3 vezes; diante dos maiores perfis mundiais, a 33,7 vezes.

André Janones (Rede-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP) também apresentaram medianas superiores às respectivas bases de seguidores, com índices de 108,97% e 101,75%. Mas nenhum dos dois apresentou a mesma regularidade de Nikolas, que teve todos os vídeos acima da própria base.

O estudo utilizou a mediana justamente para evitar que publicações isoladas com grande repercussão distorcessem a comparação. O coeficiente de variação de Nikolas, indicador que mede a oscilação dos resultados, foi de 35,2%, o segundo menor entre todos os perfis analisados.

Essa combinação de volume elevado e baixa oscilação é um dos principais fundamentos da representação.

Quatro vídeos foram publicados até o primeiro turno

O desempenho de Nikolas também chamou a atenção das organizações por ter ocorrido durante um período de restrições eleitorais à distribuição de conteúdos políticos.

A Resolução nº 23.732/2024 do TSE determina que plataformas com sistemas de recomendação excluam desses mecanismos os perfis de candidatos informados à Justiça Eleitoral e seus conteúdos, com exceção do impulsionamento pago.

A restrição busca impedir que os sistemas automatizados das plataformas ampliem organicamente a exposição de candidaturas a usuários que não acompanham seus perfis.

Dos dez vídeos de Nikolas analisados pelo Sleeping Giants, quatro foram publicados até o primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. Os outros seis foram publicados depois dessa data.

Todos ultrapassaram os 23 milhões de seguidores do deputado.

O relatório chama atenção para o fato de que a Meta havia anunciado, em fevereiro de 2024, mudanças para deixar de recomendar proativamente conteúdos políticos a usuários que não seguem as contas responsáveis pelas publicações.

O documento observa, porém, que ainda não está esclarecido se a restrição eleitoral continuou valendo após o primeiro turno para candidatos cuja disputa já havia terminado.

Há também uma limitação importante: visualizações não correspondem necessariamente a pessoas diferentes. Um mesmo usuário pode assistir a um vídeo mais de uma vez, e publicações podem circular por compartilhamentos, mensagens privadas e links externos, sem depender de recomendações automáticas.

Por isso, o levantamento não permite afirmar que os números registrados sejam resultado de descumprimento das regras pela Meta. Mas as organizações consideram que a magnitude e a regularidade da diferença justificam exigir explicações da empresa.

Representação pede investigação de ferramentas internas e intervenção humana

Na representação encaminhada ao procurador-geral eleitoral, Paulo Gonet, as entidades pedem uma investigação sobre possível favorecimento algorítmico indevido, abuso do poder tecnológico e uso indevido dos meios de comunicação social.

O documento solicita que a Meta apresente o histórico de distribuição dos conteúdos publicados pelo perfil de Nikolas desde janeiro de 2026, separando o tráfego orgânico daquele obtido por publicidade paga.

Também exige informações sobre a origem das visualizações, incluindo acessos pelo feed, aba Reels, página Explorar, compartilhamentos, visitas ao perfil, pesquisas e links externos.

Um dos pontos mais relevantes é o pedido para que a empresa esclareça a eventual existência de mecanismos de distribuição extraordinária ou tratamento diferenciado aplicados à conta do deputado.

A representação menciona expressamente a possibilidade de utilização de: “intervenção humana, ferramentas internas, programas especiais ou outros procedimentos que não correspondam exclusivamente à distribuição ordinária automatizada”.

As organizações querem saber, portanto, se a exposição dos vídeos resultou apenas do funcionamento regular do Instagram ou se houve algum tipo de mecanismo adicional de amplificação.

O documento também pede informações sobre eventuais alterações nos critérios de recomendação durante o período investigado e a preservação dos registros técnicos, para evitar a perda de dados que possam ser necessários à apuração.

As entidades defendem que a falta de acesso público às informações internas da plataforma impede esclarecer, apenas com as métricas disponíveis, se houve distribuição privilegiada.

Caso já é discutido no TSE

A representação revela ainda que o desempenho excepcional dos conteúdos de Nikolas já havia sido levado ao Tribunal Superior Eleitoral em outra ação.

Segundo o documento, a Coligação Brasil Pronto pra Mais também questionou a distribuição desproporcional dos vídeos do parlamentar, em comparação com outros políticos e influenciadores.

Na ação, relatada pelo ministro Marco Aurélio Bellizze, foi solicitado que a Meta apresentasse, em 48 horas, informações sobre as medidas aplicadas ao perfil de Nikolas desde 16 de agosto, quando começou o período de propaganda eleitoral.

As organizações sustentam que, embora os objetos das duas representações sejam distintos, ambas discutem a possibilidade de desequilíbrio nas condições da disputa eleitoral.

Por isso, pedem que o Ministério Público também possa utilizar o novo relatório técnico para fundamentar diligências no processo que já tramita no TSE.

A representação vai além do pedido de esclarecimentos. As entidades solicitam que, caso sejam identificados elementos suficientes de irregularidade e risco de continuidade das condutas, o Ministério Público avalie medidas judiciais urgentes para interrompê-las.

O documento menciona expressamente o risco de danos de difícil reparação durante a investigação, diante da proximidade do segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro.

Publicidade política também está entre as hipóteses investigadas

O levantamento do Sleeping Giants também examinou a possibilidade de que parte do desempenho tenha relação com publicidade política e circulação coordenada dos conteúdos.

Segundo reportagem da Agência Pública citada na pesquisa, Nikolas investiu R$ 312,5 mil em anúncios na Meta nos 90 dias anteriores à publicação, utilizando uma conta alternativa com aproximadamente 5 milhões de seguidores.

Ao mesmo tempo, o estudo não encontrou registros de impulsionamento diretamente pelo perfil oficial do parlamentar desde 2022.

Uma busca na Biblioteca de Anúncios da Meta identificou cerca de 4.500 resultados associados ao nome de Nikolas entre 16 de agosto e 11 de outubro, incluindo publicidade eleitoral de outros candidatos.

Os pesquisadores destacam que esses registros mostram a circulação do nome do deputado em anúncios políticos, mas não permitem concluir que a publicidade tenha produzido o desempenho observado nos dez vídeos.

O relatório também considera a hipótese de distribuição organizada por grupos de WhatsApp, compartilhamentos entre contas e outras estratégias de circulação, além do próprio desempenho dos conteúdos.

Essas possibilidades não foram descartadas e, segundo os pesquisadores, só poderão ser diferenciadas mediante acesso aos dados internos da plataforma.

A pesquisa foi realizada com informações públicas coletadas em 11 de outubro e registradas por meio da Verifact, ferramenta utilizada para preservar evidências digitais.

Na representação, as organizações ressaltam que a identificação de resultados estatisticamente atípicos não comprova, isoladamente, a existência de favorecimento ou de irregularidade eleitoral. Sustentam, contudo, que esses elementos são suficientes para justificar uma investigação sobre possíveis práticas capazes de comprometer a igualdade de oportunidades entre candidaturas.

A decisão sobre a abertura de procedimentos, a requisição dos dados e a eventual adoção de medidas judiciais caberá ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça Eleitoral.

Até o momento, os documentos analisados não apresentam uma manifestação da Meta ou de Nikolas Ferreira sobre os questionamentos.





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