Por Cleber Lourenço
A equipe envolvida na estratégia digital de Daniel Vorcaro durante a crise do Banco Master com o Banco Central também fazia monitoramento das redes sociais de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A informação aparece em documentos da Polícia Federal que tiveram o sigilo levantado na madrugada desta sexta-feira (11) pelo ministro André Mendonça, por determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin.

A frase foi escrita por André Salvador, ligado à empresa UNLTD Network Brazil, em uma conversa com Nathan Felipe Ribeiro, assessor parlamentar do vereador Rony de Assis Gabriel, de Erechim (RS). Salvador procurava Rony para tentar recrutá-lo para um projeto de gestão de crise e produção de conteúdo. Logo no início da abordagem, explicou como havia chegado até ele: “Estamos fazendo monitoramento das redes pro Flavio Bolsonaro também e encontrei o perfil do Rony nessas publicações feitas”.
Na mesma mensagem, Salvador deixa claro que o trabalho que pretendia oferecer a Rony era outro. “Mas o assunto aqui é outro”, escreveu, antes de dizer que sua equipe estava fazendo “gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo grande” e contratando perfis para ajudar em uma “disputa política”.
Meses depois, em depoimento à PF, Rony identificou esse executivo como Daniel Vorcaro e contou que Salvador lhe apresentou uma proposta para produzir conteúdos sobre a crise do Banco Master, com críticas ao Banco Central e referências a uma possível atuação do Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo ele, havia “valores milionários” disponíveis para a estratégia.
A sequência dos documentos revela, portanto, uma sobreposição: o mesmo profissional que atuava no projeto de comunicação ligado a Vorcaro dizia que sua equipe também monitorava as redes de Flávio Bolsonaro. O material não demonstra, porém, que o senador tenha participado da campanha relacionada ao Master ou que Vorcaro tenha financiado o trabalho feito para Flávio. A própria conversa separa expressamente as duas frentes.
Como André Salvador chegou a Rony
A conversa foi registrada em uma ata notarial lavrada em janeiro de 2026 e depois incorporada ao Inquérito 5.035. O documento registra mensagens trocadas entre Nathan Felipe Ribeiro e o contato salvo como “André Salvador”. Nathan era assessor parlamentar de Rony de Assis Gabriel.
Salvador disse ter recebido o contato de Nathan por intermédio de pessoas ligadas a políticos do Rio Grande do Sul. Em seguida, explicou que havia encontrado Rony justamente durante o monitoramento das redes de Flávio Bolsonaro.
“Estamos fazendo monitoramento das redes pro Flavio Bolsonaro também e encontrei o perfil do Rony nessas publicações feitas”, escreveu.
A partir daí, mudou de assunto e apresentou a proposta relacionada ao que chamou de um “executivo grande”. Disse que sua equipe cuidava de gerenciamento de reputação e gestão de crise e que vinha contratando perfis para participar de uma disputa política de repercussão nacional.
Nathan aceitou conversar. Salvador pediu seus dados para preparar um termo de confidencialidade. Dias depois, marcou uma reunião por Google Meet.
O Projeto DV
O acordo de confidencialidade enviado a Nathan também está nos autos. O documento identifica a UNLTD Network Brazil Ltda. e afirma que as conversas estavam relacionadas a um projeto estratégico denominado, naquele momento, “Projeto DV”.
O termo protege informações relativas a “estratégias de comunicação, narrativa, reputação, posicionamento e influência”, além da identidade e participação de integrantes, parceiros e terceiros.
O documento leva a assinatura de André Silva Salvador e de Nathan Felipe.
Foi somente depois da assinatura do acordo, segundo Rony contou à Polícia Federal, que Salvador revelou quem era o cliente.
“Foi realizada através de Google Meet. Nesse momento, nessa reunião do Google Meet, aí sim, ele deixa claro do que se trata”, afirmou Rony em depoimento.
Segundo o vereador, Salvador explicou que trabalhava para uma empresa de gestão de crise contratada por um “executivo grande” e então mencionou Daniel Vorcaro e o caso do Banco Master.
“Isso ficou claríssimo durante a reunião”, disse Rony.
“O Banco Central errou”
Rony também detalhou aos investigadores qual seria a linha do conteúdo que Salvador pretendia contratar.
Segundo ele, a apresentação feita durante a reunião sustentava que a cobertura da imprensa não mostrava corretamente o caso e apontava erros na atuação do Banco Central.

Rony relatou à PF que a mensagem transmitida era a de que “o Banco Central errou, que estaria errando o Banco Central” e que o TCU deveria intervir ou poderia vir a intervir no caso.
Para entender melhor o que esperavam dele, Rony perguntou se já havia outros conteúdos seguindo aquela linha.
Salvador, segundo o depoimento, enviou exemplos de vídeos de Paulo Cardoso, do Cardoso Mundo, Marcelo Renot, André Dias e Carol Dias, além da página Alfinetei. Rony afirmou que Salvador apresentou essas publicações como modelos do conteúdo que gostaria que ele produzisse.
O uso dessas postagens como exemplo não comprova, por si só, que os respectivos perfis tenham sido contratados ou remunerados pela UNLTD ou por Vorcaro.
Proposta teria valores “milionários”
Rony contou ainda que perguntou sobre o pagamento pelo trabalho.
Segundo seu depoimento, Salvador afirmou que havia um “valor disponível” que poderia ser “milionário”. O vereador disse não ter avançado para uma negociação formal porque decidiu recusar a proposta.
“Eu não sei te dizer exatamente de quantos milhões poderiam ser, mas ficou muito claro que se tratava de valores milionários”, afirmou à PF.
Mais adiante, Rony disse que Salvador chegou a oferecer o custeio de passagens para São Paulo para que ele recebesse informações adicionais sobre o caso.
Segundo o depoimento, a proposta era para produzir conteúdos inseridos na estratégia de gestão de crise ligada ao Master. Rony afirma que recusou antes de assinar qualquer contrato de prestação de serviço ou receber pagamentos.
Após a recusa, Nathan escreveu formalmente que não participaria do projeto. Salvador respondeu: “avisarei o cliente”.
Rony diz ter identificado a mesma narrativa nas redes
No depoimento, Rony explicou à PF por que decidiu comunicar o caso.
Ele contou que, depois da reunião, passou a observar notícias e conteúdos sobre o Banco Master e percebeu que influenciadores apresentados a ele como modelos estavam publicando vídeos com a mesma linha descrita por Salvador.
Segundo Rony, os conteúdos defendiam a ideia de que o Banco Central poderia ter errado e destacavam uma possível atuação do TCU.
“Todos com a mesma narrativa de que o TCU foi para cima, porque o Banco Central pode ter errado, que tem coisa errada”, afirmou.
Foi essa percepção, segundo ele, que o levou a procurar as autoridades.
O que a referência a Flávio revela — e o que não revela
A menção a Flávio Bolsonaro aparece antes de toda a explicação sobre Vorcaro. Salvador usou o trabalho de monitoramento do senador para explicar como havia encontrado o perfil de Rony.
A frase estabelece documentalmente que a equipe de Salvador mantinha algum tipo de monitoramento das redes de Flávio Bolsonaro ao mesmo tempo em que desenvolvia o Projeto DV.
Os autos analisados até agora não esclarecem, porém, quem contratou o serviço para Flávio, qual empresa fez o pagamento, quanto foi pago, qual era a finalidade específica do monitoramento ou se houve produção de conteúdo além do acompanhamento das redes.
Também não há, nesses documentos, prova de que o serviço para Flávio tivesse relação financeira com Vorcaro.
A informação ganha relevância porque, meses depois, o senador passou a ser investigado no STF em uma apuração relacionada ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, que envolve justamente Daniel Vorcaro.
Em julho de 2026, André Mendonça determinou que notícias-crime envolvendo Flávio fossem autuadas separadamente e enviadas ao Ministério Público Federal para manifestação. Uma delas relatava a suspeita de que o senador teria negociado com Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para financiar o filme. O despacho apenas determinou a abertura do procedimento e não confirmou a acusação.
A nova documentação acrescenta agora uma informação anterior nessa relação: em dezembro de 2025, meses antes de o caso Dark Horse chegar formalmente ao STF, um profissional que trabalhava na estratégia de comunicação de Vorcaro já dizia que sua equipe também monitorava as redes sociais de Flávio Bolsonaro.
O ICL Notícias procurou Flávio Bolsonaro para saber quem contratou o monitoramento, qual era o objetivo do serviço, quanto foi pago e por quanto tempo o trabalho foi realizado. O espaço permanece aberto para manifestação.





