Rogério Marinho afirmou que Manaus se tornou uma sentinela das mudanças climáticas nos últimos 120 anos (Composição: Lucas Oliveira/CENARIUM)
17 de março de 2025
Letícia Misna – Da Cenarium
MANAUS (AM) – Dados de um levantamento sobre clima feito pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados apontam que 72% da população da Região Norte classificou os eventos climáticos de 2024 como “os mais severos“. Para essas pessoas, o calor extremo, a falta de chuva e as secas dos rios que registraram a maior estiagem da história foram os pontos de destaque.
A pesquisa “A visão do Norte sobre mudanças climáticas” foi realizada com 1.195 pessoas, em 57 municípios da Região Norte, entre os dias 12 e 17 de dezembro de 2024, e divulgada na última quinta-feira, 13. Conforme os dados, cerca de 22% defenderam que os eventos registrados em 2024 “foram muito piores” em comparação com os anos anteriores.
À CENARIUM, o doutor em Clima e Ambiente e professor na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Rogério Marinho apontou que os eventos climáticos na região vêm se intensificando nos últimos 30 anos. Para ele, as mudanças são o reflexo de interferências humanas no meio ambiente.
“Como especialista em questão de climas e recursos hídricos aqui na nossa região, a gente tem sempre debatido dentro do meio científico, e observado que esses eventos extremos, de grandes cheias e secas, estão cada vez mais frequentes e em maior intensidade”, disse Marinho.
Sentinela
De acordo com o especialista, Manaus se tornou uma sentinela das mudanças climáticas nos últimos 120 anos, desde que começou a monitorar as cheias e vazantes do Rio Negro, que banha a capital amazonense. Em 2024, a cidade registrou a maior seca da história, quando o nível do rio atingiu a marca de 12,11 metros, conforme dados da Defesa Civil do Amazonas.
Rogério Marinho destacou que um outro problema decorrente da seca no interior do Estado em 2024, além da dificuldade de locomoção fluvial, foram as tempestades de areia. O fenômeno é causado pela formação de grandes e largas praias. O especialista também menciona as dificuldades que impactam diretamente os estudantes que moram nas zonas rurais.
“Nessa época, apesar de ter pouca chuva, venta muito e o vento levanta poeira e acaba gerando, em alguns casos, tempestade de areia nessa grande faixa de praia. [No interior] também temos problemas na educação, com a falta de energia e o calor excessivo na sala de aula, o que afeta a concentração e o desempenho de alunos. São várias questões”, pontuou.
Chuva desordenada
No ano passado, a capital, o Estado e a região também foram afetados por queimadas e fumaças. Agora, no início de 2025, o inimigo é a chegada desordenada das chuvas, que, somadas a problemas de infraestrutura, têm causado enchentes, inundações e destruição.
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em um dia, 4 de março deste ano, Manaus recebeu um volume de precipitação de 109,6 mm, o equivalente a dez dias de chuva. O número representa 34,15% do normal esperado para o mês de março na cidade, que é de 320,9 mm.
‘Ainda é cedo’
O professor afirma que, mesmo com as observações feitas e os eventos de 2024, ainda é cedo um prognóstico para 2025. Ele cita que as águas do Oceano Pacífico ainda estão em condições de temperatura neutra, o que dificulta fazer qualquer previsão neste primeiro momento. O especialista destaca que é preciso esperar cerca de 40 dias para verificar as tendências.
“O que estava sendo esperado como uma La Niña, para se configurar agora nesse primeiro trimestre, ainda não está tão claro. Estamos em um momento em que as condições de temperatura da superfície do Oceano Pacífico apresentam características neutras, então não está tendendo nem para o El Niño, que gera muita seca, e nem para La Niña [fenômeno que aumenta a quantidade de chuva no Norte do Brasil]. Vamos aguardar os próximos 40 dias”, finalizou Marinho.
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Editado por Jadson Lima
Revisado por Gustavo Gilona
Fonte: Agência Cenarium