O uso da cannabis como aliada no tratamento de doenças neurodegenerativas ainda enfrenta resistência, especialmente entre idosos. O principal entrave não está na ciência, mas no estigma associado aos efeitos psicoativos da planta. Um novo estudo brasileiro, no entanto, sugere que doses extremamente baixas de THC e CBD podem contornar esse receio ao oferecer possíveis benefícios terapêuticos sem provocar alterações de consciência.
Com o envelhecimento acelerado da população mundial, cresce o número de pessoas diagnosticadas com demências, entre elas a Doença de Alzheimer. Diante da falta de terapias curativas e da eficácia limitada dos medicamentos disponíveis, aumenta o interesse por abordagens alternativas capazes de retardar o declínio cognitivo. Nesse cenário, os canabinoides extraídos da Cannabis sativa passaram a ser investigados com mais atenção pela comunidade científica.
Uma pesquisa publicada recentemente no Journal of Alzheimer’s Disease avaliou os efeitos do uso diário de microdoses de extrato de cannabis em pacientes com Alzheimer em estágio leve. Conduzido por cientistas da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), o estudo aponta resultados discretos, porém relevantes, que reforçam a ideia de que o futuro da cannabis medicinal pode estar em doses tão baixas que sequer são percebidas pelos pacientes.

Como funcionam as microdoses
O trabalho foi liderado pelo professor Francisney Nascimento e envolveu idosos diagnosticados com Alzheimer leve. Os voluntários receberam um extrato contendo THC e CBD em concentrações subpsicoativas, incapazes de causar o chamado “barato” associado ao uso recreativo da planta. Justamente por serem mínimas, essas doses levantam dúvidas sobre sua eficácia — o que tornou o estudo ainda mais relevante.
A estratégia, no entanto, não surgiu por acaso. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que pequenas quantidades de THC foram capazes de restaurar funções cognitivas em camundongos idosos, revertendo alterações no hipocampo, área do cérebro ligada à memória. Outros trabalhos também mostraram que o sistema endocanabinoide, fundamental para a plasticidade neural e o equilíbrio do organismo, sofre declínio natural com o envelhecimento.
Além disso, um relato clínico publicado em 2022 pelo mesmo grupo brasileiro descreveu melhora gradual em um paciente com Alzheimer após 22 meses de uso contínuo de microdoses. Esses achados motivaram a realização de um ensaio clínico mais robusto, com metodologia randomizada, duplo-cega e controlada por placebo.
Resultados observados
Para medir os efeitos do tratamento, os pesquisadores utilizaram a escala ADAS-Cog, amplamente aplicada na avaliação da função cognitiva em quadros de demência. Após 24 semanas, os pacientes que receberam o extrato com THC apresentaram estabilização em um dos domínios avaliados, enquanto o grupo placebo registrou piora ao longo do tempo.
A diferença apareceu apenas em uma subescala e foi detectada no acompanhamento de longo prazo, mas alcançou significância estatística. Segundo os autores, o impacto pode ser considerado modesto, porém relevante, especialmente em pacientes que ainda mantêm parte da função cognitiva preservada. Nesses casos, evitar a progressão rápida da doença já representa um ganho clínico importante.
Os dados reforçam a hipótese de que as microdoses possam atuar de forma preventiva, funcionando como uma espécie de proteção ao cérebro contra o desgaste associado ao envelhecimento. Essa ideia encontra respaldo em estudos brasileiros que identificaram alterações em mediadores inflamatórios no cérebro envelhecido, como a lipoxina A4 (LXA4), substância ligada à resolução da inflamação e à ativação do sistema endocanabinoide.
Um caminho sem efeitos psicoativos
Para os pesquisadores, um dos principais avanços do estudo é mostrar que a cannabis pode ser utilizada terapeuticamente sem provocar efeitos psicoativos. Doses muito baixas conseguem modular processos biológicos importantes, como inflamação e neuroplasticidade, sem alterar a percepção ou o comportamento do paciente.
Essa abordagem pode ampliar a aceitação da cannabis medicinal e abrir espaço para novas formulações voltadas à prevenção, especialmente entre idosos com comprometimento cognitivo leve ou histórico familiar de demência. Ao afastar o estigma do “ficar chapado”, a planta passa a ser vista sob uma nova perspectiva no cuidado com o envelhecimento cerebral.
O que ainda precisa ser investigado
Apesar do caráter inovador, o estudo apresenta limitações, como o número reduzido de participantes e o fato de os efeitos observados se restringirem a apenas uma dimensão da cognição. Ainda assim, trata-se do primeiro ensaio clínico a demonstrar, em humanos, resultados positivos com o uso de microdoses de cannabis em pacientes com Alzheimer.
Os autores destacam a necessidade de pesquisas futuras com amostras maiores, acompanhamento mais prolongado e uso de marcadores biológicos, como exames de imagem e biomarcadores inflamatórios. Só então será possível responder de forma definitiva à questão central levantada pelo estudo: a cannabis pode ajudar a prevenir o Alzheimer? Por ora, os dados indicam um caminho promissor, mas a resposta final ainda depende de novas evidências.




