Por Laura Kotscho
O câncer de pele é o tipo de câncer mais comum no Brasil e representa 30% de todos os casos de tumores malignos registrados no país, de acordo com o Ministério da Saúde. São mais de 180 mil diagnósticos a cada ano, segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Apesar disso, observar o próprio corpo, checar pintas e manchas e procurar um dermatologista regularmente ainda não faz parte da rotina da maioria dos brasileiros. Esse descuido pode atrasar um diagnóstico precoce, que salva vidas.
Neste Dezembro Laranja, o ICL Notícias entrevistou o oncologista Drauzio Varella, para explicar como identificar o câncer de pele e dar dicas de como se prevenir.

Dr. Drauzio alerta que a doença é grave, mas geralmente evitável e, quando identificada precocemente, tem altas chances de cura.
Foi justamente um diagnóstico precoce que mudou a história dessa jornalista que vos fala. Aos 19 anos, durante uma consulta de rotina com uma dermatologista, fui orientada a checar as pintas do corpo, algo que nunca havia feito. A médica resolveu retirar uma pinta minúscula atrás do joelho, que eu nem sabia que existia, e enviar para biópsia. O resultado: melanoma, em estágio já avançado.
A partir daí, precisei passar por uma cirurgia de ampliação de margem e acompanhamento oncológico. Hoje, tenho uma cicatriz de cerca de 15 centímetros no lugar da pinta minúscula e já removi mais de 15 lesões ao longo dos anos. O câncer foi tratado antes de se espalhar, algo que só foi possível porque ele foi identificado no início.
O que causa o câncer de pele?
A principal causa do câncer de pele é a exposição solar, especialmente quando ocorre de forma intensa e repetida ao longo da vida. Esse risco se soma à predisposição genética, que varia de pessoa para pessoa, mas indivíduos de pele clara e com muitas pintas tendem a ser mais vulneráveis.
“O fator determinante é o sol”, explica Drauzio. “Moramos em um país tropical. E as pessoas ficam mais expostas ao sol. E essa exposição solar, quando é contínua ou quando é repetitiva, é isso que é a causa principal”, afirma.
Quais são os tipos de câncer de pele?
O câncer de pele pode ser dividido em dois grupos: não melanoma e melanoma.
1- Não melanoma
O câncer de pele não melanoma reúne vários tipos, sendo os mais comuns o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular. Apesar dos nomes pouco familiares, esses tumores, em geral, têm bom prognóstico quando tratados corretamente.
“O carcinoma basocelular é o mais frequente deles. Está muito ligado ao sol e à exposição solar. Ele não costuma dar metástase, mas a célula é maligna, não tem discussão. É um câncer. Em geral, aparece como pequenas lesões, às vezes uma ferida que não cicatriza”, explica Drauzio.
Já o carcinoma espinocelular, também chamado de tumor de células escamosas, pode ter um comportamento mais agressivo.
“Os sinais são mais ou menos iguais ao do basocelular. Ele pode evoluir, às vezes, mais depressa. Mas esse tumor libera células malignas que podem se alojar em outros órgãos, como nos tumores de cabeça e pescoço”, alerta o oncologista.
Segundo Dr. Drauzio, nos dois casos, quando a lesão é retirada cirurgicamente e as margens estão livres, não é necessário tratamento complementar.
2 – Melanoma
O melanoma é o tipo mais perigoso de câncer de pele. Ele é menos frequente, mas muito mais agressivo e imprevisível.
“O melanoma tem um comportamento completamente diferente dos outros. Ele é completamente imprevisível e se dissemina”, diz Drauzio Varella. “Hoje, além da cirurgia de ampliação de margem, a imunoterapia é uma possibilidade de tratamento”, explica.
Como identificar o câncer de pele?
Segundo Drauzio, o primeiro passo é simples, mas pouco praticado: olhar o próprio corpo.
“Em primeiro lugar é olhar o corpo. A gente não olha o corpo como deveria. Tem o dorso, que a gente não enxerga. Muitos melanomas nascem nessa região”, explica.
Outro fator importante é conhecer o próprio tipo de pele.
“Segundo ponto é olhar o tipo de pele você tem. A pele clara tem mais risco de desenvolver essas mutações no DNA que são que caracterizam o câncer de pele”.
Sinais de alerta incluem pintas ou manchas que crescem, mudam de forma ou cor, descamam ou sangram sem motivo aparente: “Toda vez que você tem um nevo que cresce, que tem um formato irregular, que às vezes descama na superfície ou sangra à toa, sem traumatismo maior, isso precisa ser avaliado”, orienta.
Regras para observar as pintas
Especialistas usam duas regras principais para ajudar na identificação de lesões suspeitas.
1- Regra do Ugly Duck Sign ou regra do “Patinho Feio”
A lógica é simples: se uma pessoa tem várias pintas semelhantes e uma delas é diferente das demais – ou seja, ‘não vai com as outras’ – às vezes mais escura, com tom azulado ou formato distinto, isso pode indicar um câncer de pele.
2- Regra do ABCDE
Essa regra é fácil e o próprio paciente pode usar para identificar melanomas
A – ASSIMETRIA: a pinta não é redonda ou um lado da pinta é diferente do outro;
B – BORDAS IRREGULARES: bordas recortadas, mal definidas, que lembram um mapa ou uma estrela explodindo;
C – COR: a pinta tem de mais de uma cor, indo do marrom ao preto, cinza, branco ou azulado;
D – DIÂMETRO: pinta maior que 6 milímetros;
E – EVOLUÇÃO: mudança de tamanho, forma ou cor ao longo do tempo.
“Aqueles que mudam de formato. Era redondinho, uma pinta comum. De repente começa a ficar mais irregular, a crescer mais de um lado do que do outro. Qualquer modificação de forma é importante e tem que ser avaliada”, reforça Drauzio.

Como se proteger do câncer de pele?
Segundo Dr. Drauzio Varella, a prevenção passa, principalmente, por reduzir a exposição ao sol de forma inadequada: “Primeiro é não ficar na mesma posição o tempo inteiro, como a gente ficava no passado. Parecíamos jacarés deitados ao sol. Segundo, evitar aquela parte do dia em que há aumento dos raios ultravioleta”, diz o oncologista.
O oncologista também alerta para o risco de exposição intensa e concentrada. “É pior tomar sol de uma vez só, depois de um ano sem apanhar sol, de repente pegar um sol de 40 graus. Esse é o pior que pode existir”, alerta.
O uso de filtro solar e roupas com proteção UV também é essencial. O ideal é reaplicar o protetor a cada três horas e sempre após entrar na água.“É preciso ver qual é o filtro mais adequado para o seu tipo de pele. Quem tem pele clara, cheia de pintas, é mais sensível e precisa de um fator mais elevado”, orienta Drauzio.
Outro ponto frequentemente ignorado é o risco do sol mesmo na sombra: “Mesmo sentado embaixo de uma barraca ou guarda-sol, você pode se queimar. O sol reflete na areia da praia e chega até você. A dose de radiação não é pequena”.
Neste Dezembro Laranja, a mensagem é clara: olhar para a própria pele, adotar medidas de proteção e procurar um dermatologista regularmente pode fazer a diferença entre um diagnóstico precoce e um tratamento tardio.




