O Federal Reserve (Fed) decidiu manter a taxa básica de juros dos Estados Unidos inalterada entre 3,50% e 3,75% ao ano, patamar que representa o nível mais baixo desde setembro de 2022. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira (28) e já era amplamente esperada pelo mercado financeiro.
Com isso, o banco central americano interrompe uma sequência de três cortes consecutivos nos juros. Na reunião anterior, realizada em dezembro, a taxa havia sido reduzida em 0,25 ponto percentual.
A primeira decisão de política monetária de 2026 ocorre em um ambiente marcado por pressões políticas crescentes do presidente Donald Trump sobre o Fed, incluindo críticas diretas ao presidente da instituição, Jerome Powell, e disputas judiciais envolvendo a diretoria do banco central.
Em comunicado, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) destacou que o mercado de trabalho segue mostrando baixo ritmo de geração de vagas, enquanto o desemprego dá sinais de estabilidade. A inflação, por sua vez, permanece acima do desejado, ainda que sem aceleração significativa.
“A incerteza sobre as perspectivas econômicas permanece elevada. O Comitê está atento aos riscos em ambos os lados de seu duplo mandato [direcionado a estimular o emprego e controlar a inflação]”, afirmou o colegiado.
Decisão dividida no comitê
Embora a maioria dos dirigentes tenha votado pela manutenção da taxa, a decisão não foi unânime. Dois diretores defenderam um novo corte de 0,25 ponto percentual, enquanto o restante do comitê optou por preservar os juros no patamar atual.
Segundo o Fed, a política monetária continuará sendo ajustada conforme a evolução dos dados econômicos, levando em conta indicadores do mercado de trabalho, inflação, expectativas inflacionárias e o cenário financeiro internacional.
Trump intensifica ofensiva contra o Fed
Desde que assumiu a presidência em janeiro de 2025, Trump tem adotado uma postura cada vez mais crítica em relação ao banco central. Ele já anunciou que pretende indicar um substituto para Jerome Powell, cujo mandato termina em maio, e deixou claro que espera uma política monetária mais alinhada à sua agenda econômica.
Entre os nomes cogitados para comandar o Fed estão Kevin Hassett, conselheiro econômico da Casa Branca, além de diretores atuais da instituição. Trump também busca ampliar sua influência no conselho do banco central, aproveitando vacâncias e disputas judiciais envolvendo diretores.
Em paralelo, o presidente chegou a levantar suspeitas sobre uma reforma bilionária na sede do Fed, o que levou à abertura de uma investigação criminal. Powell nega irregularidades e afirma que o projeto visa modernização e redução de custos no longo prazo.
Impactos globais — e reflexos no Brasil
A manutenção dos juros em níveis elevados nos Estados Unidos mantém os rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) atrativos para investidores globais. Como esses papéis são considerados os mais seguros do mundo, o fluxo de capital tende a se concentrar nos EUA, fortalecendo o dólar.
Para economias emergentes como o Brasil, esse cenário costuma trazer desafios. A valorização do dólar pode pressionar o câmbio, reduzir a entrada de recursos estrangeiros e elevar os custos de importação, com impacto direto sobre a inflação.
Esse movimento também aumenta a pressão para que o Banco Central do Brasil mantenha a Selic em patamares elevados por mais tempo, dificultando o processo de afrouxamento monetário.
O que o mercado acompanha daqui em diante
Com o Fed adotando uma postura mais cautelosa e o ambiente político nos EUA cada vez mais tenso, investidores seguem atentos aos próximos dados econômicos e às sinalizações do banco central americano.
O equilíbrio entre inflação, crescimento e pressões políticas deve continuar moldando as decisões do Fed — com efeitos que vão muito além das fronteiras dos Estados Unidos.




