Por Alice Maciel
Um mês antes de anunciar a frustrada aquisição do Banco Master, o grupo Fictor celebrou um contrato de R$ 500 milhões com a Titan Capital Holding, empresa de Daniel Vorcaro registrada nas Ilhas Cayman (paraíso fiscal) que concentra os investimentos pessoais do banqueiro. O documento, obtido com exclusividade pelo ICL Notícias, foi assinado em 16 de outubro do ano passado.
Pelo acordo, a Titan vendeu à Fictor Holding S/A as cotas que detinha no fundo Krispy, composto majoritariamente por créditos provenientes de ações judiciais. À época, o fundo era administrado pela Reag, posteriormente liquidada pelo Banco Central, e investigada pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto, respectivamente.
A Fictor Holding S/A está na lista de empresas do grupo Fictor que pediram recuperação judicial no início deste mês.
A transação foi estruturada em duas etapas, segundo o contrato. Na primeira, a Fictor adquiriria dois precatórios relacionados a processos da Usina São João (R$1,09 bilhão) e da Agro Industrial Tabu (R$ 577,33 milhões), somando R$ 1,6 bilhão. Esses ativos correspondiam a 36% do patrimônio líquido do fundo Krispy, estimado à época em R$ 4,6 bilhões, de acordo com o documento.
A segunda etapa previa o direito — mas não a obrigação — de a Fictor comprar a totalidade das cotas restantes do fundo em até 60 dias corridos a partir da assinatura do contrato.
O ICL Notícias procurou a assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro e do grupo Fictor, mas não obteve retorno.

Pagamento em etapas
O contrato estabelecia o pagamento de R$ 200 milhões na primeira etapa, em até cinco dias após a assinatura, e R$ 300 milhões na segunda, em até 60 dias.
Segundo o jornal Estado de S. Paulo, a Fictor transferiu, em 23 de outubro de 2025, R$ 30 milhões à holding de Vorcaro. Na ocasião, a empresa justificou que o valor correspondia a parte do pagamento pelas cotas adquiridas do fundo Krispy.
Já a defesa de Vorcaro afirmou ao jornal que a “Titan Capital Holding foi estruturada no exterior como parte do projeto de reorganização societária do grupo à época, voltado à entrada de investidores estrangeiros e à internacionalização das operações, dentro das normas legais e regulatórias aplicáveis”. Conforme mostrou o Estado de S. Paulo, a Titan é a empresa que Vorcaro usa para abrigar seus investimentos pessoais.
O contrato celebrado entre a holding e a Fictor estipulava que os pagamentos deveriam ser efetuados na conta da Titan na Sefer Investimentos, corretora que atuava como representante legal da empresa de Daniel Vorcaro no Brasil. No âmbito do processo de recuperação judicial, a Fictor declarou a Sefer como sua segunda maior credora, com um crédito de R$ 430 milhões a receber.
A Sefer foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de integrar um esquema de repasse de recursos para negócios ligados à família de Vorcaro.

Tentativas de salvar o Master
O contrato entre a Fictor e a Titan foi assinado por volta das 21h de 6 de outubro de 2025 por Daniel Vorcaro e pelo ex-diretor do Banco Master, Ângelo Antonio Ribeiro da Silva, como representantes da holding, e por Rafael Góis, em nome da Fictor.
Um mês depois, em 17 de novembro, a Fictor anunciou a aquisição do Banco Master em consórcio com investidores dos Emirados Árabes Unidos, cujas identidades não foram divulgadas.
Fundada em 2022 e até então pouco conhecida no mercado financeiro, a Fictor compraria todas as ações de Daniel Vorcaro no Banco Master por R$ 3 bilhões, assumindo o controle da instituição.
Na noite do mesmo dia do anúncio, no entanto, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal na primeira fase da Operação Compliance Zero, enquanto tentava embarcar para Dubai. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. Além de Vorcaro e do Master, a Fictor também está sendo investigada pela PF.




