Flávio Bolsonaro foge da pergunta que mais importa sobre Vorcaro


O tema da minha primeira coluna no ICL Notícias não poderia ser outro: o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PL. Desde esta semana, passei a integrar o time de comentaristas do canal e, a partir de agora, também estarei no site semanalmente trazendo opiniões e análises sobre política e os assuntos que acompanho mais de perto. As reportagens e investigações que produzir seguirão sendo publicadas na minha newsletter no Substack.

Começo, portanto, por uma história que conheço bem. Há três meses, meus então colegas do Intercept Brasil e eu revelamos mensagens, documentos e áudios mostrando que Flávio Bolsonaro participou diretamente de uma negociação de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões à época — com Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, efetivamente saíram de uma empresa ligada ao banqueiro e chegaram ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, usado para financiar a produção.

A revelação ganhou ainda mais peso porque obtivemos um áudio, de novembro de 2025, às vésperas da primeira prisão de Vorcaro, Flávio havia cobrado pessoalmente o banqueiro por parcelas atrasadas. “Eu fico sem graça de ficar te cobrando”, disse no áudio que publicamos, antes de explicar que havia “muita parcela para trás” e demonstrar preocupação com um eventual calote em atores internacionais. Vorcaro respondeu chamando-o de “irmãozão”.

Pressionado, Flávio prometeu transparência. Em 19 de maio, depois de uma reunião com parlamentares do PL para explicar sua relação com Vorcaro, anunciou que havia pedido à produtora uma prestação de contas completa do filme, a ser apresentada em até 30 dias. “Pedi à produtora para que se organizassem para fazer uma prestação de contas das despesas de todo mundo, de forma transparente”, afirmou.

O prazo acabou. A prestação de contas nunca apareceu.

Quando O Globo cobrou a promessa em julho, a assessoria de Flávio afirmou que o assunto deveria ser tratado com a produtora e não teria “nada a ver com a pré-campanha ou Flávio”. A Go Up Entertainment também não respondeu ao jornal. É uma resposta difícil de sustentar: foi Flávio quem negociou com Vorcaro, quem cobrou as parcelas atrasadas e, principalmente, quem prometeu publicamente apresentar as contas.

A produtora apresentou à Justiça uma perícia privada segundo a qual Dark Horse consumiu cerca de R$ 75 milhões, provenientes do fundo Havengate. O documento, porém, não resolve a questão principal. Apresenta grandes blocos de despesas e afirma que foram analisados contratos, extratos e documentos bancários, mas não permite ao público identificar detalhadamente quem recebeu o dinheiro. A documentação apresentada à Justiça corre sob sigilo.

O que continua faltando são as notas fiscais e os comprovantes capazes de mostrar, gasto por gasto, para onde foram os milhões.

E Flávio parece cada vez menos disposto a responder. Nesta terça-feira (10), um jornalista lembrou ao candidato que uma de suas reuniões com parlamentares havia ocorrido justamente para prestar esclarecimentos sobre Vorcaro e perguntou se o episódio estava superado. Flávio respondeu que “não deve explicações”. Em seguida, falou de Lulinha, Gusttavo Lima, Gabriel Galípolo e do PT da Bahia. Não respondeu sobre sua própria relação com o banqueiro.

Não foi a primeira vez que fugiu do tema. Em junho, durante entrevista ao SBT News, Flávio foi questionado por Amanda Klein, Nathalia Fruet e Eduardo Gayer sobre o financiamento de Dark Horse. A conversa terminou abruptamente. Mais tarde, a revista piauí revelou que a equipe do senador se irritou com as perguntas e pediu o encerramento da entrevista. A participação não foi reprisada nem reaproveitada pela emissora, e o episódio antecedeu a saída de Camila Matoso da chefia de redação. O SBT negou interferência política e sustentou que seus jornalistas tiveram liberdade editorial.

Três meses depois da revelação do caso, a questão central permanece surpreendentemente simples. Flávio reconheceu os áudios, admitiu ter procurado Vorcaro para financiar o filme e prometeu uma prestação de contas pública. Agora, candidato à Presidência da República, diz que não deve explicações. Mas deve, ao menos, aquela que ele próprio prometeu dar.

Quem recebeu o dinheiro de Vorcaro destinado a Dark Horse, quanto recebeu e por quê? Onde estão as notas fiscais? Noventa dias depois, ainda não sabemos.





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