Flávio terceiriza prestação de contas de ‘Dark Horse’, e repasse de fundo dos EUA segue sem detalhes


Por Carolina Linhares

(Folahpress) – Apesar de ter prometido uma prestação de contas pública a respeito do financiamento do filme “Dark Horse”, o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, terceirizou a divulgação de um balanço para a produtora da obra, a Go Up Entertainment, e não manteve o compromisso de transparência em relação ao fundo americano que intermediou os repasses, o Havengate.

Em maio, o site The Intercept revelou mensagens trocadas entre Flávio e o dono do banco Master, Daniel Vorcaro, em que o senador pede dinheiro para bancar o filme a respeito de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo a publicação, o valor total negociado foi de R$ 134 milhões e o ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões.

Os pagamentos teriam sido feitos por meio de transferências de uma empresa chamada Entre Investimentos e Participações, ligada a Vorcaro, para o fundo Havengate, sediado no Texas, nos Estados Unidos. O fundo é controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive no país.

Isso levou a Polícia Federal a abrir uma investigação para apurar se verba do filme acabou bancando despesas do ex-deputado.

“Quero acrescentar duas coisas que foram os meus pedidos tanto à produtora quanto ao fundo: que eles se organizassem para fazer uma prestação de contas a todo mundo das despesas que foram feitas em função desse investimento do filme, de forma transparente, em até 30 dias. Foi isso que eu pedi”, disse Flávio a jornalistas em 19 de maio, em uma entrevista na qual ele estava cercado por congressistas do PL.

Dias antes, Flávio havia dito que poderia divulgar o contrato de financiamento do filme desde que seus advogados o autorizassem. De acordo com o candidato, em março ele havia negado conhecer Vorcaro por causa de uma cláusula de confidencialidade desse documento.

No fim de junho, ao ser procurada pela reportagem, a campanha do presidenciável afirmou que a Go Up já tinha prestado contas – o que não foi feito publicamente, mas no âmbito de um inquérito da Polícia Civil paulista que apura se recursos para o filme foram desviados de um contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é dona da produtora Go Up Entertainment.

Na segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), deu aval para que a PF acesse as provas coletadas pela Polícia Civil de São Paulo a respeito da produtora. O material vai turbinar a investigação sobre a destinação de emendas parlamentares à Go Up — apuração que está sob a relatoria de Dino.

O balanço feito pela Go Up Entertainment foi publicado pela Folha de S.Paulo em junho. A produtora apresentou à Polícia Civil um laudo feito por uma perícia privada contratada pela defesa de Karina Gama.

O laudo se baseia em contratos, extratos bancários, planilhas, demonstrativos de despesas e outros materiais disponibilizados pela produtora aos peritos. A perícia concluiu que o filme custou, até o momento, cerca de R$ 75,2 milhões e foi bancado por investimentos privados, sem indício de uso de verbas públicas de outros contratos, de emendas parlamentares ou da Lei Rouanet.

A defesa não apresentou detalhes como financiadores do filme, contratos, notas fiscais e valores de cada despesa, como pagamento de elenco, técnicos, hospedagem, alimentação, logística, entre outros.
O documento afirma ainda que o fundo Havengate celebrou um contrato em 24 de fevereiro de 2025 para investimento no filme e realizou um aporte de US$ 13,4 milhões (R$ 75,2 milhões), também sem detalhamento.

Ao ser cobrado por adversários e pela imprensa a respeito da transparência na prestação de contas prometida, Flávio Bolsonaro tem dito que o assunto “Dark Horse” é página virada. Aliados do senador afirmam, da mesma forma, que a prestação já foi apresentada pela Go Up e publicada pela Folha de S.Paulo, referindo-se ao laudo da defesa.

Na segunda, Flávio voltou a dizer que a prestação de contas do “Dark Horse” já foi feita. Ele foi questionado pela reportagem se havia mudado de ideia sobre apresentar o contrato firmado entre Vorcaro e o filme.

“Olha só, vocês vão parar no tempo? O Brasil está lambendo em chamas, todo mundo endividado, Brasil quebrado, vocês querem insistir com relação de fundo privado, que não tem contrapartida pública de nada?”, questionou. “Vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula [PT] que deve explicações, vão cobrar explicações dele.”

Procurada pela reportagem na terça (25), a assessoria da campanha de Flávio reafirmou que a prestação de contas já foi feita pela produtora, como havia pedido o senador, e que não há nenhuma irregularidade no financiamento do filme. A assessoria diz que a responsabilidade da divulgação do balanço era da Go Up.

A respeito do fundo americano, a assessoria afirmou que o Havengate está submetido a regras de confidencialidade estabelecidas pelo governo dos EUA e só pode prestar contas às autoridades americanas. Essa confidencialidade também impediria a divulgação do contrato com Vorcaro, segundo a campanha.





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