Durante uma audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado nesta terça-feira (25), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fez uma reflexão contundente sobre o papel das redes sociais no debate econômico. Ele destacou o crescimento dos chamados “especialistas de WhatsApp” — pessoas que opinam sobre todos os temas de forma imediata e sem embasamento técnico — e alertou para os riscos da desinformação.
Segundo Galípolo, o Banco Central enfrenta um dilema constante: responder a cada narrativa que surge online ou manter o foco no trabalho técnico. Para ele, dedicar tempo a rebater publicações pode comprometer a atuação da instituição, especialmente em temas sensíveis como juros e supervisão bancária.
Galípolo também destacou que a desinformação costuma circular com mais facilidade justamente porque é mais “atrativa” do que explicações técnicas — que, embora fundamentais, nem sempre são simples ou agradáveis de acompanhar.
“As redes sociais, que têm pouca mediação, onde muita gente tem decisão sobre tudo, de maneira imediata, peremptória […]. Hoje, temos especialistas de ‘WhatsApp’, que criam o próprio grupo, que dão opinião sobre tudo. Essas coisas vão se propagando, se dissipando. É um dilema para o BC, vai a cada momento interromper seu trabalho para fazer aquilo [responder]?”, completou Galípolo.
Nos últimos dias, comentários online questionaram a atuação do Banco Central em dois pontos: suposta demora para intervir no Banco Master, liquidado na semana passada; e manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas.
Sobre o Banco Master, Galípolo foi categórico: a instituição seguiu todos os passos previstos na legislação. O banco já operava sob forte risco por causa do custo elevado de captação e por aplicar recursos em operações de alto risco, bem acima do que é comum no mercado.
Ele explicou que, após identificar irregularidades, o BC comunicou imediatamente os órgãos responsáveis — como Polícia Federal e Ministério Público — para que as investigações avançassem.
Também reforçou que o Banco Central não avalia se uma instituição deveria ou não adquirir determinado ativo; sua responsabilidade é verificar se as operações seguem as normas e mantêm a solidez do sistema financeiro.
“O Banco Central trabalhou desde o primeiro minuto, e desde o primeiro momento agradeço à Polícia Federal, à Justiça, em cada passo que foi dado, o Banco Central seguiu [a lei]. Quem tem de identificar, e foi quem identificou [a operação irregular, foi o Banco Central]”, acrescentou Galípolo.
Selic em 15%: BC defende que segue a meta legal
No tema juros, Galípolo reiterou que o Banco Central tem obrigação legal de perseguir a meta de inflação, atualmente fixada em 3% ao ano. Para isso, o principal instrumento disponível é justamente a taxa Selic.
Apesar das críticas — inclusive de membros do próprio governo — ele lembrou que as projeções do Boletim Focus indicam dificuldade em trazer a inflação exatamente para o centro da meta, reforçando a necessidade de cautela nas decisões do Copom.
“A meta [central de inflação] não é 4,5%, é 3%. Quando olho para as projeções futuras, vejo no ‘Focus’ [pesquisa com o mercado financeiro] que o BC não vai conseguir cumprir a meta durante todo meu mandato […]. A determinação legal é uma meta de 3%, o instrumento é a taxa de juros, e o BC tem de usar a taxa de juros para perseguir a meta de inflação”, afirmou Galípolo.




