ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
O governo do presidente Lula (PT) iniciou tratativas com representantes dos setores afetados pelas tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para avaliar a adoção de medidas emergenciais. O objetivo é mitigar os efeitos das alíquotas de 50%, marcadas para valer a partir desta quarta-feira (6), sobretudo para produtos perecíveis como pescados, frutas e mel, que correm risco de encalhe com o fechamento do mercado norte-americano.
Durante reunião realizada na segunda-feira (4) na sede do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), em Brasília, conduzida pelo vice-presidente e titular da pasta, Geraldo Alckmin, os empresários foram orientados a enviar uma lista detalhada dos excedentes e respectivos preços mínimos viáveis para compras públicas ou subsídios à comercialização no mercado interno. O governo pretende analisar a viabilidade de cada medida com base nas informações recebidas.
Além de Alckmin, participaram da reunião os ministros Rui Costa (Casa Civil), Carlos Fávaro (Agricultura), Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário), André de Paula (Pesca), representantes da Fazenda, da ApexBrasil e da Conab, além de lideranças de setores como carnes, frutas, pescados, mel e café.
No encontro, Alckmin afirmou que as tarifas impostas pelos EUA não se justificam. “Nós estamos desde março negociando com os Estados Unidos. É importante destacar que, este ano, de janeiro a junho, a nossa exportação para os Estados Unidos cresceu 4,7%. E a dos Estados Unidos para nós, 11,7%, quase duas vezes e meia a mais”, explicou o vice-presidente, à frente das negociações.
Também na coletiva, o ministro Fávaro detalhou os esforços para diversificar os destinos dos produtos brasileiros.
“Nós estamos hoje com 398 novos mercados. E a gente enxerga algumas oportunidades para ampliar isso neste momento”, disse Fávaro, citando como exemplo a retomada de mercados suspensos, como o de pescado para o Reino Unido e para a União Europeia.
Plano de contingência sai depois da vigência de tarifas
Segundo Paulo Teixeira, a definição de um plano de contingência para mitigar os efeitos das tarifas só deve ocorrer após 6 de agosto, caso as negociações com os EUA para reverter ou amenizar o tarifaço fracassem. A medida assinada por Trump excluiu cerca de 700 produtos, entre eles suco de laranja, petróleo e aviões, mas manteve uma carga pesada sobre alimentos e produtos agroindustriais.
Entre as alternativas em estudo estão linhas de crédito com juros subsidiados e compras governamentais de alimentos perecíveis, com posterior distribuição no mercado interno. O governo também não descarta o uso de subsídios diretos para cobrir custos de produção.
“Queremos saber quais são os produtos e os valores necessários para que o governo possa avaliar as formas de absorver esses excedentes, seja por compras públicas ou por apoio à venda interna”, explicou Teixeira.
Desconfiança dos setores
Apesar das intenções do Executivo, o setor produtivo demonstrou desconfiança. Eduardo Lobo, presidente da Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescado), afirmou que encaminhará a lista solicitada ao governo, mas mostrou ceticismo quanto à eficácia das ações propostas. Ele destacou a dificuldade logística da Conab em lidar com peixes frescos e congelados, além da morosidade dos processos de compras públicas.
“Somos céticos de que isso vá funcionar. A Conab [Companhia Nacional de Abastecimento] trabalha com produtos que ela consegue escoar. Peixes frescos e congelados exigem estrutura e agilidade. E, mesmo com a lista entregue, precisamos de respostas em dias, não em semanas”, afirmou Lobo.
Sobre os subsídios à venda no mercado interno, Lobo foi enfático: o consumo de espécies como atum, pargo e lagosta — principais exportações para os EUA — não está consolidado entre os brasileiros, o que limita a efetividade da medida.
A principal demanda do setor, segundo ele, continua sendo a exclusão do tarifaço, medida que depende mais da disposição do governo norte-americano do que do Executivo brasileiro. Na ausência dessa possibilidade, empresários pedem ao menos acesso imediato a crédito barato, para garantir o pagamento de funcionários, insumos e dívidas, além da inclusão no programa Reintegra Exportação, que devolve ao exportador parte dos tributos pagos.
Fonte: ICL Notícias




