‘Hans, liga o gás’: grupo de gestores da educação de Jorginho Mello tem ameaça e nazismo


Um grupo intitulado Educação em Ação, articulado por gestores com cargo comissionado no governo bolsonarista de Jorginho Mello, em Santa Catarina, tem registros de mensagens com teor nazista, separatista e  ameaça de perseguição a colegas que não aderiram ao extremismo. A coluna teve acesso a uma sequência de prints que mostram mensagens com constrangimentos e ameaças a trabalhadores sem vínculo com o extremismo bolsonarista.

Além de ser responsável pela articulação para eventos de campanha, o grupo passou o último dia 25 de outubro, quando Lula consagrou-se pela quarta vez como presidente da República, exibindo mensagens de ódio e de intolerância, em tom de perseguição aos “diferentes”. Um dos participantes enviou uma imagem do nazista alemão Adolf Hitler junto da mensagem “Hans, Liga o Gás”.

Imagem do grupo é a mesma foto de perfil do governador Jorginho Mello no Facebook (Reprodução)

Em novembro de 2022, um gerente de operações estruturadas do Banco do Brasil enviou a mesma imagem em um grupo de Whats App, foi denunciado e afastado do cargo. A imagem faz clara alusão ao extermínio dos judeus no Holocausto.

No grupo Educação em Ação, além das saudações nazistas, há discursos de ódio contra o pensamento do patrono da educação brasileira, Paulo Freire e do filósofo marxista Antonio Gramsci. “Chega de dar espaço à esquerda na educação catarinense! Chega de Gramsci, Paulo Freire e esses canalhas!”, pontuou um dos membros. Os participantes também espalham mensagens contra o comunismo e pânicos já desmentidos como o de que “presídios estão em festa”.

O grupo foi criado em maio de 2026, com mensagem de boas vindas compartilhada por um assessor especial da Gerência de Desenvolvimento Profissional, com salário bruto de cerca de R$ 21 mil. Este setor faz parte da Diretoria de Gestão de Pessoas e é apontado por servidores como uma ala de monitoramento, constrangimento e intimidação.

Há relatos de que gestores indicados pelo governador Jorginho Mello, com e sem vínculo efetivo com a secretaria, foram cobrados para se reunir com suas equipes ao longo do processo eleitoral, arregimentando cabos eleitorais sob ameaças veladas de serem removidos ou desligados da pasta.

Além da cobrança quanto à participação nos eventos de cunho político partidário, o grupo criado no Whats App também era parte da ação iniciada ainda em maio, fora do período oficial de campanha eleitoral, que começou em 16 de agosto. A coluna optou por não reproduzir os prints para preservar a informação anônima.

Uma das primeiras mensagens, enviada em horário de expediente no dia 7 de maio, era uma solicitação para que os integrantes do grupo participassem de um evento com Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Caroline de Toni e Jorginho Mello, realizado em Florianópolis. Para isso, precisavam preencher uma ficha de inscrição. O evento contou com cerca de cinco mil pessoas e foi onde Flávio usou a camiseta ligando o Caso Master ao PT pouco antes de ter sua relação com Daniel Vorcaro escancarada pelo The Intercept.

Discursos separatistas também foram compartilhados, com exaltação a Santa Catarina e mensagens sinalizando para uma eventual perseguição ao Sul. “No Sul, ele vai fazer de tudo para nos aniquilar. Aquele verme!”, disse uma mensagem que se referia à reeleição do presidente Lula. Um outro usuário sugere, a partir de uma figura não identificada, “matar a paulada esse verme”. Análises mais robustas, culpando o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, e o governador de Minas Gerais, Cleitinho, por não terem feito o dever de casa também circularam.

O mais preocupante, no entanto, foi o sentido de coação que aterrorizou profissionais ao longo dos dias que se seguiram às eleições. Isso porque os integrantes do grupo criado para a campanha se mobilizaram para fazer listas de educadores e profissionais que parecessem associados à esquerda.

“Acho que a hora é agora ,de identificarmos esses PTs da vida e levarmos a nosso Governador Jorginho Mello 🇧🇷 22 para ,que se possível tirar do nosso meio ! Fazer uma limpa !”, disse um usuário. “”Vários… Posso listar!”, respondeu outra. “Tem muitos e muitos disfarçados….O Jorginho precisa rever mesmo”, comentou uma terceira pessoa. Um outro usuário deixa explícito que vai “caçar traidores”. Outra pessoa ainda fala em “tirar os de esquerda infiltrados na educação”.

Reeleito com 68,98% dos votos, Jorginho Mello tem na Educação uma das suas pastas-alvo. Desde 2025, a secretária do Estado é a reitora licenciada da Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina, Luciane Ceretta. No dia 21 de maio, a instituição também recebeu críticas por organizar um evento com o governador e candidatos sob o pretexto de estar divulgando o programa Universidade Gratuita, que transfere recursos públicos para o cofre de universidades particulares.

 

Onda de intimidação

O grupo reúne apoiadores de Jorginho Mello e de Flávio Bolsonaro de diferentes áreas da educação, entre gestores e trabalhadores de diferentes setores. A secretaria conta com uma equipe híbrida, formada por professores deslocados das escolas para a atividade administrativa. Para estes, a aliança com o bolsonarismo surge com a intimidação, quase sempre velada, de apoiarem a gestão para não serem “devolvidos” para as escolas de origem.

A Presidenta do Sindicato dos Trabalhadores em Educação na Rede Pública de Ensino do Estado de Santa Catarina, Elivane Secchi, observa que “nenhum professor pode ser silenciado ou intimidado por exercer seu direito à liberdade de pensamento e expressão.”

“Não é de hoje que professores e professoras estão entre os primeiros alvos de perseguição quando avançam discursos autoritários e extremistas”, considera. Ela lembra que a educação pública deve ser um espaço de liberdade, diversidade e pensamento crítico. “Não pode ser transformada em ambiente de intimidação, discriminação e imposição ideológica”.

Aos profissionais da área, ela orienta que ameaças, constrangimentos ou perseguição por posições políticas devem ser reunidas em provas, com registro de boletim de ocorrência e formalização da denúncia junto ao Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (NEPRE) e ao Ministério Público.

Neto Puerta, da coordenação do Fórum Catarinense de Defesa do Serviço Público e vice-presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Santa Catarina, alerta para inúmeras denúncias de servidores efetivos do Estado sobre o aparelhamento das estruturas por parte do governo Jorginho Mello.

“Isso é muito grave e caminha na mesma esteira das demissões de trabalhadores da iniciativa privadas, de boicotes a estabelecimentos com lista e tudo mais. Mostra, por parte do governo Jorginho, um descompromisso com o serviço público e com o atendimento à população”.

O coordenador observa que na gestão anterior a de Jorginho havia uma predominância de cargos técnicos nas nomeações de gerências, mas que isso não aconteceu no governo bolsonarista. “É curioso que essa prática de doutrinação, a qual a esquerda é acusada, é justamente uma prática da extrema direita, que no seu modo de fazer política ou criar narrativa, está justamente a eliminação do outro. Por isso que a gente defende a estabilidade no serviço público, que é para evitar esses desmandos políticos que estão acontecendo”, comenta.

Puerta destaca que não cabe exoneração sumária ao servidor sem que a administração pública justifique a conveniência dessa medida. Ele também afirma que assédio eleitoral e coação são considerados crime eleitoral. “A violência política e outros abusos também podem ser enquadrados no crime de ameaça”.

Sem acessar as mensagens, o advogado especialista em direito eleitoral, Rodrigo Burgos de Azevedo Mangabeira, disse que o grupo e seus articuladores podem ter incorrido em conduta vedada, a depender do teor das conversas e da dinâmica da comunicação.

Ele lembra que agentes públicos têm uma série de condutas vedadas em período eleitoral. Uma delas é a proibição de se utilizar o trabalho de servidores  em comitês de campanha ou partidos durante o expediente, a menos que estejam oficialmente licenciados.

A coluna procurou a Secretaria de Educação de Santa Catarina por meio de sua assessoria de imprensa, para que se posicionasse a respeito do conteúdo do grupo e do seu possível funcionamento como parte da gestão, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.





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