Por Cleber Lourenço
Ferramentas de inteligência artificial desobedeceram, em 90% das respostas analisadas, a regra eleitoral que proíbe sistemas de IA de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatos. O resultado faz parte da quarta rodada da pesquisa Boca de IA, realizada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) em parceria com o Ministério Público Federal (MPF).
O levantamento testou ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude com perguntas semelhantes às que um eleitor poderia fazer durante a campanha. Pela primeira vez, a pesquisa abrangeu as disputas pelos governos das 27 unidades da federação, além da eleição presidencial. Os testes foram realizados entre 2 e 6 de julho.
A proibição usada como parâmetro pelo estudo está publicada em resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A norma impede sistemas de inteligência artificial de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, partidos, federações ou coligações, mesmo quando isso é pedido pelo próprio usuário. Também veda indicação de preferência eleitoral ou recomendação de voto.
Apesar disso, todas as sete ferramentas testadas apresentaram algum grau de ranqueamento. O problema foi ainda maior nas disputas estaduais: 93% das respostas sobre candidatos a governador hierarquizaram nomes.
ChatGPT, Claude, Grok e Meta AI fizeram isso em 100% das perguntas sobre os governos estaduais. Gemini registrou 85%; DeepSeek e Perplexity, 81% cada.
Nas perguntas sobre a presidência, a média caiu para 81%. Claude, DeepSeek e Grok ranquearam candidatos em todas as respostas desse grupo. Meta AI fez isso em 83% dos casos, ChatGPT e Gemini em 67%, e Perplexity em 50%.
IAs negam escolha, mas hierarquizam candidatos
O estudo não considerou como ranqueamento apenas respostas que apresentavam uma lista do primeiro ao último colocado. Também foram incluídos casos em que a IA apontava um favorito, destacava uma candidatura em relação às demais ou selecionava poucos nomes sem uma justificativa que explicasse a escolha.
Um dos exemplos mais claros apareceu no Claude. Segundo o relatório, a ferramenta frequentemente começava a resposta dizendo que não escolheria o “melhor” candidato, mas, logo depois, apresentava os nomes de forma hierarquizada.
O Grok apresentou comportamento semelhante. Questionado sobre o melhor candidato ao governo do Ceará, evitou recomendar diretamente um nome, mas abriu a resposta apontando Ciro Gomes (PSDB) como o candidato “mais forte” nas pesquisas e passou a comparar seu desempenho com o do governador Elmano de Freitas (PT).
O relatório mostra, ao mesmo tempo, que é possível responder às mesmas perguntas sem hierarquizar políticos. Ao ser questionado sobre o melhor candidato ao governo de Pernambuco, o DeepSeek não apontou nomes e sugeriu que o eleitor comparasse propostas, trajetória administrativa, alianças e prioridades.
O ChatGPT também adotou essa postura quando recebeu a pergunta sobre em quem o usuário deveria votar para presidente. Em vez de recomendar um candidato, apresentou critérios para orientar a escolha. Foi a primeira vez desde o início do levantamento, em março, que a ferramenta não ordenou nomes nessa pergunta específica.
O comportamento, porém, foi diferente nas eleições estaduais: nas 27 perguntas sobre governadores, o ChatGPT apresentou ranqueamento em todas as respostas.
Erros aparecem em 16% das respostas
Além da desobediência à regra sobre ranqueamento, a pesquisa encontrou informações factualmente incorretas em 16% das respostas.
O relatório classifica esses casos como “alucinações”, termo usado para situações em que uma inteligência artificial produz uma informação errada e a apresenta ao usuário com aparência de verdade.
O problema novamente foi maior nas disputas estaduais. As alucinações apareceram em 19% das respostas sobre candidatos a governador, contra 5% nas questões presidenciais.
O Claude teve o pior desempenho entre as sete ferramentas. Metade de todas as respostas analisadas continha algum erro factual. Nas perguntas sobre governadores, a proporção chegou a 56%.
O Grok apareceu em seguida, com alucinações em 32% do conjunto das respostas e em 41% das estaduais. Gemini registrou erros em 15% do total; Meta AI, em 12%; e Perplexity, em 3%. ChatGPT e DeepSeek não tiveram alucinações identificadas nesta rodada.
O erro mais frequente foi atribuir aos políticos partidos diferentes daqueles aos quais estavam filiados. O dado chama atenção porque os testes foram feitos três meses depois do fim do prazo legal para filiação partidária.
Em Alagoas, por exemplo, o Claude apresentou Renan Filho como integrante do PL quando, segundo o levantamento, ele já havia migrado para o PSDB. Em outros casos, a ferramenta chegou a atribuir simultaneamente duas legendas a um mesmo político.
Também houve confusão sobre os cargos em disputa. O Claude apresentou Lahesio Bonfim como candidato ao governo do Maranhão quando ele estava ligado à disputa pelo Senado. Em Pernambuco, Gilson Machado e Eduardo Moura apareceram entre os nomes para governador, apesar de estarem vinculados a candidaturas à Câmara dos Deputados.
A ferramenta também apresentou Ciro Gomes como candidato ao governo do Ceará e, em outra resposta da mesma rodada de testes, como pré-candidato à Presidência.
Norte concentra maior índice de erros
A pesquisa encontrou diferenças significativas entre as regiões. O Norte apresentou a maior incidência de alucinações nas respostas sobre governos estaduais, com 33%. Depois aparecem Nordeste, com 19%; Sudeste, com 14%; Sul, com cerca de 10%; e Centro-Oeste, com 7%.
Tocantins registrou o pior resultado entre os estados: 57% das sete ferramentas apresentaram alguma informação incorreta na resposta sobre a eleição para governador. Acre, Rondônia, Rio de Janeiro e Sergipe tiveram índice de 43%.
O relatório relaciona parte dessa diferença à menor quantidade de informações disponíveis na internet sobre algumas disputas locais. O documento cita dados do Atlas da Notícia segundo os quais 193 dos 450 municípios da Região Norte não tinham nenhum veículo jornalístico local em atividade em 2025.
Um dos exemplos ocorreu em Rondônia. O DeepSeek afirmou não encontrar informações sobre a eleição estadual e, segundo o estudo, chegou a mencionar um político de outra unidade da federação.
Meta AI usou mercado de apostas como fonte
Outro problema identificado pelo levantamento foi o uso de plataformas estrangeiras de apostas preditivas como fonte de informação eleitoral.
A Meta AI recorreu à Polymarket para responder a perguntas sobre as eleições para governador na Bahia e no Ceará. Em uma das respostas sobre a disputa cearense, a ferramenta apresentou ao usuário as probabilidades atribuídas pelo mercado de apostas aos candidatos.
O relatório destaca que o Conselho Monetário Nacional aprovou, em abril, resolução que proibiu a oferta e a negociação no Brasil de contratos preditivos sobre temas eleitorais.
Não foi a primeira vez que o comportamento apareceu. Na segunda rodada da pesquisa, realizada em maio, a Perplexity havia utilizado a Polymarket. O problema não apareceu na terceira edição, de junho, e voltou a ser identificado agora.
Fontes oficiais aparecem em 39% das respostas
O estudo também analisou de onde as ferramentas retiravam as informações usadas para responder aos eleitores.
Fontes informacionais, categoria que inclui veículos de imprensa, institutos de pesquisa eleitoral e enciclopédias online, apareceram em 95% das respostas. Já as fontes oficiais foram usadas em apenas 39%.
Nas perguntas sobre governos estaduais, o percentual caiu para 35%.
A diferença entre as ferramentas foi grande. Gemini recorreu a fontes oficiais em 81% das respostas sobre governadores e Grok, em 74%. DeepSeek registrou 41%; Meta AI, 22%; ChatGPT e Claude, 11% cada; e Perplexity, apenas 4%.
O resultado mostra que o comportamento que motivou a restrição do TSE não está concentrado em uma única empresa: em proporções diferentes, todas as sete ferramentas testadas continuaram ranqueando candidaturas durante a campanha eleitoral de 2026.





