A aposentada Teresinha Maciel dos Santos, de 93 anos de idade (Ricardo Oliveira/Cenarium)
05 de março de 2025
Ana Pastana – Da Cenarium
MANAUS (AM) – “Não foi a primeira, nem vai ser a última.” O relato da aposentada Teresinha Maciel dos Santos, 93 anos, expressa a tristeza e angústia de quem tem a casa alagada sempre que chove em Manaus (AM) e nessa terça-feira, 4, não foi diferente. A residência onde mora com a irmã de 70 anos, no Beco Ayrão, bairro Praça 14, na Zona Sul de Manaus, foi inundada durante a forte chuva na capital.
A aposentada informou à CENARIUM que, em dias de chuva, precisa se virar sozinha para salvar o pouco que resta na casa. “Quem mais sofre nesse pedacinho sou eu. O pessoal joga lixo, joga isso, joga aquilo, e vai empatando [a água de escorrer pelo bueiro] e é eu sozinha para limpar. Quando a chuva vem, em vez de chorar, canta, em vez de ficar calado, conversa, grita, para não se entregar à tristeza“, disse.
O mês de março começou com chuvas intensas na capital amazonense, causando transtornos e exigindo atenção das autoridades e da população. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), entre os dias 1º e 5 de março, a capital já registrou 109,6 milímetros de precipitação, o que representa mais de um terço da média histórica de março, que é de 320,9 milímetros.
A Defesa Civil de Manaus registrou 32 ocorrências relacionadas aos impactos das chuvas dessa terça, incluindo ruas alagadas, desabamentos e obstruções em sistemas de drenagem. O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) também recebeu aproximadamente 190 chamados para atendimentos de emergência causadas pelo temporal, com foco nos bairros Zumbi, Grande Vitória e Jorge Teixeira, na Zona Leste de Manaus.
Agravamento
Além dos alagamentos, um homem ficou ferido após um deslizamento de terra derrubar um muro no bairro Centro, Zona Sul. Os deslizamentos de terra em Manaus são fenômenos recorrentes, influenciados por fatores geográficos e ambientais, conforme explicou o professor doutor em Geografia Física Antônio Fábio Sabbá Guimarães Vieira.
Segundo o profissional, a principal causa desses eventos está relacionada à infiltração da água no solo, o que compromete a estabilidade. “Movimentos de massa, como deslizamentos e corridas de lama, são processos naturais influenciados diretamente pela gravidade. No entanto, quando há um grande volume de água infiltrado, o solo se desagrega e perde sua capacidade de sustentação, aumentando as chances de desmoronamento”, afirma.
Além da influência das chuvas, a declividade do terreno é um fator determinante para os deslizamentos. Sabbá aponta que áreas com inclinação acentuada já possuem risco natural de instabilidade e a ocupação desordenada pode agravar esse quadro. “A retirada da vegetação elimina uma barreira natural que auxilia na contenção do solo. Quando isso ocorre em terrenos íngremes, o risco de deslizamento se intensifica”, explica.
Mudanças climáticas
O especialista também destaca que o regime de chuvas em Manaus passou por mudanças nas últimas décadas. Ele afirma que, nos últimos 30 anos, a quantidade total de precipitação anual na cidade “não aumentou expressivamente”, mas a distribuição ao longo do ano foi alterada.
“No passado, Manaus tinha uma média de 191 dias de chuva por ano. Atualmente, esse número caiu para cerca de 172 dias, o que significa que o volume de precipitação está mais concentrado. Esse fenômeno resulta em chuvas mais intensas em curtos períodos, elevando o risco de alagamentos e deslizamentos”, analisa.
Soluções
Sabbá defende a adoção de medidas preventivas para mitigar os efeitos das chuvas intensas. Entre as soluções sugeridas, está a ampliação das áreas verdes em Manaus, incluindo praças e parques, que podem contribuir para a drenagem natural da água da chuva.
“As áreas verdes são fundamentais. Muitas praças estão pavimentadas com concreto, o que reduz a infiltração da água no solo. A reversão dessa tendência e a ampliação de espaços permeáveis ajudariam a evitar alagamentos”, observa.
O especialista também sugere a substituição de pavimentações convencionais por materiais mais permeáveis, especialmente em ruas de bairros e vias secundárias. O uso de lajotas de concreto permeáveis facilitaria a infiltração da água no solo, diminuindo a sobrecarga no sistema de drenagem e contribuindo para a regulação térmica da cidade.
Outra recomendação é a revisão e ampliação do sistema de drenagem urbana, principalmente em áreas críticas. “Hoje, há sistemas de drenagem que terminam no meio de encostas, o que gera erosão e voçorocas. A água precisa ser canalizada de forma eficiente para evitar esses problemas”, afirma Sabbá.
Previsão para os próximos dias
A previsão meteorológica indica a continuidade das chuvas em Manaus e em todo o Estado do Amazonas nos próximos dias. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), entre os dias 3 e 9 de março, a região deve registrar volumes de chuva acima da média para o período, aumentando os riscos de deslizamentos e alagamentos.
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Editado por Marcela Leiros
Revisado por Gustavo Gilona
Fonte: Agência Cenarium