Por Marcelo Santos*
A madrugada de 3 de janeiro marcou um ponto de inflexão na América Latina. Ataques aéreos em áreas estratégicas de Caracas e de estados centrais da Venezuela, explosões próximas ao Palácio de Miraflores e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores lançaram o país em um cenário de tensão, desinformação e mobilização popular.
Segundo Carmen Navas Reyes, diretora executiva do Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade entre os Povos, os ataques atingiram pontos militares localizados em áreas densamente povoadas de Caracas, Miranda e Aragua. “São centros urbanos com grande presença de população civil”, disse ela, ao ICL Notícias. Quarenta pessoas teriam morrido no ataque norte-americano.
Para Carmen, trata-se de “uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas e do direito internacional”. Ela compara o episódio à invasão do Panamá, em 1989, mas alerta: “Há muita informação circulando, e precisamos de cautela”.
Durante o dia, movimentos sociais e organizações populares, incluindo redes cristãs, foram às ruas exigir esclarecimentos e a preservação da vida do presidente. “A população está mobilizada, sobretudo na capital. E não é só a Venezuela: há uma lógica mais ampla de agressão anunciada pela doutrina de segurança norte-americana”, avalia Carmen.

O medo na madrugada
Loreana Ovalles, moradora próxima ao Palácio de Miraflores, contou que por volta de 1h20 da madrugada ouviu uma forte explosão. “Vi fogo nas montanhas onde ficam antenas de transmissão. Depois ouvi aviões e uma explosão precisa no Palácio”, conta. Assustada, ela e a família deixaram o apartamento e caminharam entre vizinhos confusos e nervosos, muitos buscando refúgio longe do centro político.
O silêncio que se seguiu, a partir das 4h30, não trouxe alívio. Pela manhã, poucos comércios abertos, ruas vazias e deslocamentos a pé compunham um clima de cautela. “Está tudo muito silencioso. Há muitas informações cruzadas”, resume.
Igrejas rompem o silêncio
Diante da escalada, setores do campo evangélico venezuelano se pronunciaram. O Movimento Cultural Cristão CALEB divulgou a carta Pronunciamento pela Paz e pela Vida, na qual afirma que “já não há espaço para o silêncio” diante do “bombardeio covarde e da invasão ilegal” dos Estados Unidos. O documento acusa o sequestro do presidente e da primeira-dama e define o episódio como “um atentado contra a vontade popular e contra a Pátria”.
A carta combina linguagem religiosa e política ao afirmar que “o púlpito é a rua” e que a fé cristã não pode ser passiva diante da guerra. O texto convoca unidade, resistência e mobilização popular, rejeitando a normalização da violência e da intervenção estrangeira.
De acordo com o bispo Exeario Josué Sosa Ocanto, da União Evangélica Pentecostal Venezuelana, e integrante do Grupo Caleb, a agressão atual é parte de um processo prolongado que busca desmontar conquistas sociais obtidas nas últimas décadas, como educação gratuita, saúde pública, moradia e direito à terra, afirma ele, que também é cientista político e professor universitário.
Segundo Exeario, o impacto político central está na violação do direito à autodeterminação e na tentativa de deslegitimar as instituições venezuelanas. Ele diz que o sistema eleitoral do país é amplamente auditado e que a não aceitação dos resultados das eleições de 2018 e 2024 representa um ataque direto à soberania nacional.

No campo social e econômico, o bispo aponta os efeitos das sanções e do bloqueio, que aprofundam a insegurança e tentam fomentar conflitos internos. “A lógica é nos empurrar para um mundo onde não há regras, apenas a lei do mais forte”, afirma. Ainda assim, ele ressalta que o povo venezuelano mantém uma cultura de resolução pacífica de conflitos.
Evangélicos divididos, mas mobilizados
Exeario descreve um campo evangélico dividido. De um lado, setores influenciados por teologias importadas e por uma direita evangélica alinhada ao discurso de guerra. De outro, um amplo segmento de fiéis comprometidos com a paz, com políticas sociais e com a vida comunitária, que rejeitam o conflito armado.
“As vozes evangélicas venezuelanas estão dizendo: a guerra não é o caminho”, resume.
Ele também alerta para a guerra cognitiva em curso, com disseminação de fake news e uso de inteligência artificial para manipular percepções, inclusive no campo religioso. Para o bispo, o desafio é pastoral e político: formar cristãos capazes de discernir informação, rejeitar o ódio e sustentar uma fé comprometida com a justiça.
Nos últimos anos, igrejas evangélicas, inclusive denominações com atuação no Brasil, cresceram de forma significativa na Venezuela durante o governo Maduro. Esse avanço foi acompanhado por gestos públicos de aproximação com lideranças cristãs, como em novembro de 2025, quando o presidente participou de um ato de oração com pastores e representantes evangélicos no Palácio de Miraflores, transmitido pela televisão estatal.
Na ocasião, a primeira-dama Cilia Flores e o filho do presidente, Nicolás Maduro Guerra, também estiveram presentes, e Maduro afirmou que o palácio seria “um altar para glorificar a Deus”, além de declarar Jesus Cristo como “senhor e dono” da Venezuela.
*Especial para o ICL Notícias




