Igual à Venezuela


A Doutrina Monroe nasceu em 1823, num mundo muito diferente deste. As colônias espanholas da América tinham conquistado recentemente a independência e existia o fundado receio de que as grandes monarquias europeias interviessem para restaurar a velha ordem colonial.

Foi contra essa possibilidade que John Quincy Adams, ministro dos negócios estrangeiros do Presidente James Monroe (que deu nome a esta política externa), formulou uma política externa simples e bem entendível: uma intervenção europeia destinada a controlar o destino das novas repúblicas seria encarada pelos Estados Unidos como uma ameaça.

Havia, naturalmente, interesse e poder americano nessa proclamação. Mas existia na sua origem uma ideia que não deve ser apagada pela história posterior: impedir que potências estrangeiras atravessassem o Atlântico para submeter as novas nações independentes da América. Como alguém escreveu, a doutrina Monroe era uma espécie de imperialismo anti-colonial.

Na verdade, a doutrina continha uma contradição que os dois séculos seguintes revelariam. Podia ser lida como proteção contra o colonialismo europeu, mas podia igualmente transformar-se na proclamação de um direito especial dos Estados Unidos sobre todo o hemisfério ocidental. Assim foi. A História acabaria por consagrar a segunda leitura.

Theodore Roosevelt deu o primeiro passo quando acrescentou o seu célebre corolário e, com ele, construiu uma nova doutrina destinada a justificar intervenções americanas na região. Veio agora o toque final: “Trump Corollary to the Monroe Doctrine”. O símbolo da nova política é a Venezuela e a sua imagem de marca é a do Presidente Maduro algemado. No entretanto, a nova Presidente, Delcy Rodriguez, toda ela sorrisos e amabilidade, aperta, nos salões das Nações Unidas, a mão do Presidente Trump.

Julgo que é a isto que chamam hoje de pós-cinismo: o discurso é falso, sabem que os outros também sabem que o discurso é falso, mas continuam a usá-lo como se essa falsidade não tivesse a mínima importância. A pergunta mental que fazemos a nós próprios é se a Venezuela ainda é um país ou um protetorado.

Foi neste novo mundo que o Brasil votou. Conscientemente, sem poderem dizer que não sabiam o que estava em causa, os brasileiros legitimaram o novo corolário da Doutrina Monroe e, numa divertida ironia histórica, fazem agora recair sobre a direita a velha acusação que esta dirigia à esquerda: a de transformar o Brasil numa nova Venezuela.





ICL – Notícias

Preço dos alimentos: veja o que ficou mais caro e o que barateou em setembro

Os preços dos alimentos voltaram a subir no Brasil em setembro, após...

Amazonas Repórter

Tudo