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sexta-feira, fevereiro 13, 2026
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informação de qualidade e voz especializada no combate ao câncer de próstata


Por Gustavo Cabral*

Novembro Azul reforça a necessidade de falar abertamente sobre o câncer de próstata, uma doença cuja prevenção e diagnóstico precoce dependem diretamente de informação de qualidade e educação em saúde. Em um cenário inundado por mitos e desinformação, ouvir profissionais capacitados é essencial para que a população compreenda riscos, sintomas e caminhos de cuidado.

Para aprofundar esse debate com responsabilidade e rigor científico, conversei com a doutora Louise Moreno, médica oncologista, fellow de pesquisa clínica em uro-oncologia em Londres, pelo The Institute of Cancer Research (ICR), The Royal Marsden NHS Foundation Trust (RMH) e University College London (UCL).

Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), o câncer de próstata é o segundo tipo mais incidente entre os homens no Brasil, ficando atrás apenas do câncer de pele não melanoma. O que explica essa alta incidência e quais são os principais fatores de risco associados à doença?

Dra. Louise Moreno — Essa alta incidência é um fenômeno multifatorial. Primeiramente, o envelhecimento populacional. O câncer de próstata é uma doença fortemente associada à idade; cerca de 75% dos casos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos. Com o aumento da expectativa de vida da população brasileira, é natural que o número de diagnósticos também cresça.

Além disso, a evolução dos métodos de exames diagnósticos (como a popularização do exame de PSA (Antígeno Prostático Específico) a partir da década de 1990), além da melhoria na qualidade dos sistemas de informação do país levando a um aumento da conscientização da população, levou a um aumento expressivo na detecção de tumores, muitos dos quais não chegariam a manifestar sintomas ao longo da vida do homem (É o que chamamos de sobrediagnóstico).

Os principais fatores de risco bem estabelecidos são:

  • Idade: É o principal fator e o risco aumenta significativamente após os 50 anos.
  • Histórico Familiar: Ter um parente de primeiro grau (pai ou irmão) com a doença antes dos 60 anos pode aumentar o risco.
  • Fatores Genéticos: Mutações hereditárias aumentam o risco de um câncer de próstata mais agressivo e em idade mais jovem.
  • Ancestralidade: Homens com ascendência africana (negros) têm um risco maior de desenvolver a doença e probabilidade de evolução mais agressiva.
  • Exposições ambientais/ocupacionais: aminas aromáticas (comuns nas indústrias química, mecânica e de transformação de alumínio), arsênio (usado como conservante de madeira e como agrotóxico), produtos de petróleo, motor de escape de veículo, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA), fuligem e dioxinas estão associadas ao câncer de próstata.
  • Excesso de gordura corporal (sobrepeso e obesidade) aumenta o risco de câncer de próstata avançado.
  • Tabagismo: os fumantes têm um risco aumentado de morte por câncer de próstata.

É crucial entender que ter um fator de risco não significa que o homem terá a doença, mas indica a necessidade de uma conversa mais atenta com seu médico sobre a estratégia de acompanhamento.

Quais são os sinais e sintomas que podem indicar a presença do câncer de próstata e em que fase eles costumam aparecer?

Dra. Louise Moreno — Na fase inicial, o câncer de próstata geralmente não causa sintomas. A grande maioria dos tumores é detectada em homens assintomáticos por meio de alterações em exames de rastreamento, como o PSA.

Quando os sintomas aparecem, a doença já pode estar localmente avançada. Esses sintomas são predominantemente urinários e incluem:

  • Dificuldade para iniciar a micção;
  • Jato urinário fraco ou interrompido;
  • Necessidade de urinar com mais frequência, inclusive à noite;
  • Sensação de não esvaziar completamente a bexiga;
  • Presença de sangue na urina ou no sêmen.

É fundamental ressaltar que esses mesmos sintomas são muito mais comuns em condições benignas, como a hiperplasia prostática benigna (HPB), o crescimento natural da próstata com a idade. Portanto, a presença desses sinais não é sinônimo de câncer, mas sim um alerta para procurar avaliação médica.

Em fases mais avançadas, quando o tumor se espalha para outros órgãos (metástase), os sintomas podem incluir dores ósseas, fraturas, perda de peso inexplicada e fraqueza.

O exame de PSA e o toque retal ainda são as principais formas de rastreamento? Existe algum avanço recente nos métodos de diagnóstico precoce?

Dra. Louise Moreno — Sim, o PSA e o toque retal continuam sendo as ferramentas primárias para o que chamamos de detecção precoce. No entanto, a forma como os utilizamos mudou. Hoje, a recomendação das principais sociedades de especialistas, como a AUA e a SBU, é a decisão compartilhada 3 4. Isso significa que, a partir dos 50 anos (ou 45 para grupos de alto risco), o homem deve conversar com seu médico sobre os riscos e os potenciais benefícios do rastreamento para decidir se deseja ou não realizar os exames.

É importante notar que, baseado em estudos populacionais, a preocupação do rastreamento em massa é com o sobrediagnóstico e o sobretratamento, ou seja, tratar tumores de baixa agressividade que não evoluiriam, expondo o homem a riscos como incontinência urinária e disfunção erétil, justificando porque o INCA não recomenda o rastreamento com PSA e toque retal para homens assintomáticos.

O principal exame para diagnóstico é a biópsia da próstata. Felizmente temos avanços importantes dos exames complementares não invasivos. O principal foi a incorporação da Ressonância Magnética multiparamétrica (RMmp) da próstata, que auxilia na indicação de biópsia baseada na presença de imagem que sugira um tumor clinicamente significativo.

Em tumores com risco de metástases, exames complementares auxiliam a detectar a extensão da doença. Como alternativa aos exames convencionais (cintilografia óssea e tomografias), o exame PET PSMA, quando indicado e disponível, caracteriza um avanço diagnóstico, pois permite detectar focos de câncer bem pequenos, tanto na próstata quanto em gânglios linfáticos e ossos.

Outros avanços incluem testes secundários (sanguíneos, urinários e mais recentemente, salivares) que permitem análises moleculares e genômicas que ajudam a refinar o risco e a decidir com mais segurança sobre a necessidade de uma biópsia ou sobre a conduta após o diagnóstico.

Muitos homens ainda têm resistência em realizar o toque retal. Como você avalia o impacto desse tabu na detecção precoce e na mortalidade pela doença?

Dra. Louise Moreno — O toque retal é um exame complementar rápido e simples (realizado no consultório), que permite o exame médico da próstata, podendo levar a identificação de áreas suspeitas e auxiliar no diagnóstico. Um estudo mostrou que 26% dos pacientes com PSA baixo tiveram o diagnostico detectado através do toque retal.

O tabu em relação ao toque retal traz impacto não apenas no diagnóstico precoce, mas na mortalidade, visto que muitos homens negligenciam os sintomas da doença enquanto ainda poderia ser passível de tratamento e cura, postergando a avaliação médica quando indicada devido ao preconceito com o exame.

Muitos homens negligenciam os sintomas da doença enquanto ela ainda poderia ser passível de cura, apenas para evitar ir ao urologista e realizar o exame. Portanto, o impacto do preconceito em relação ao toque retal no atraso no diagnóstico pode levar à detecção da doença em um estágio mais avançado quando as chances de cura são menores e os tratamentos, mais agressivos e com mais efeitos colaterais.

Campanhas como o Novembro Azul são importantes para aumentar a conscientização da população, não apenas em relação ao toque retal, mas sobre o mais importante pilar que é a avaliação médica, uma vez que o diagnóstico do câncer de próstata atualmente é baseado em estratégias individualizadas, avanços em exames e sobretudo respeitando a autonomia do paciente.

Qual é a diferença entre um câncer de próstata agressivo e um de evolução mais lenta? Em quais casos o tratamento pode ser apenas o acompanhamento (vigilância ativa)?

Dra. Louise Moreno — Essa é uma distinção fundamental no manejo do câncer de próstata. A maioria dos tumores de próstata cresce muito lentamente, sendo considerados de baixa agressividade ou indolentes. Eles podem levar mais de uma década para causar sintomas e, em muitos homens, jamais representariam uma ameaça à vida. Em contrapartida, existem os tumores agressivos, que crescem e se espalham rapidamente, podendo levar à morte.

A principal ferramenta para diferenciar os dois é a biópsia, que nos dá a classificação de Gleason (ou Escore de Grupo), relacionada ao grau de diferenciação das células, isto é, o quanto elas ainda se parecem (ou já estão muito diferentes e desorganizadas) em relação às células normais da próstata. Tumores com Gleason 6 (Grupo 1) são considerados de baixo risco, enquanto escores de risco intermediário ou alto (7 a 10) indicam maior agressividade.

É exatamente para os pacientes com tumores de baixo risco (Gleason 6, PSA baixo e doença localizada) que a vigilância ativa é a conduta preferencial. Em vez de um tratamento com cirurgia ou radioterapia, o paciente é acompanhado de perto com exames de PSA, toque retal, ressonância magnética e, se necessário, novas biópsias.

O objetivo é evitar os efeitos colaterais de um tratamento que talvez nunca fosse necessário, tratando apenas se e quando o tumor mostrar sinais de progressão. É importante notar que a vigilância ativa é diferente de somente observação, pois exige um acompanhamento rigoroso e um paciente bem informado e comprometido.

Quais são as opções de tratamento disponíveis atualmente — e como o avanço tecnológico tem contribuído para reduzir efeitos colaterais como incontinência urinária e disfunção erétil?

Dra. Louise Moreno — Para a doença localizada, as principais opções com intenção curativa são a prostatectomia radical (remoção cirúrgica da próstata) e a radioterapia. O avanço tecnológico impactou enormemente ambas as modalidades.

Na cirurgia, a grande revolução foi a plataforma robótica (cirurgia robô-assistida). O robô não opera sozinho; ele é um instrumento que amplia a capacidade do cirurgião, oferecendo visão 3D de alta definição, movimentos mais precisos e delicados. Isso permite uma dissecção mais fina das estruturas, facilitando a preservação dos feixes nervosos responsáveis pela ereção e do esfíncter urinário, que controla a continência. O resultado, em mãos experientes, é uma significativa redução nas taxas de incontinência e disfunção erétil, além de menos dor e uma recuperação mais rápida.

Na radioterapia, técnicas como a IMRT (Radioterapia de Intensidade Modulada) e a SBRT (Radioterapia Estereotáxica Corporal) permitem entregar altas doses de radiação de forma extremamente conformada ao formato da próstata, poupando os tecidos sadios ao redor, como a bexiga e o reto. Isso diminui drasticamente os efeitos colaterais urinários e intestinais.

Para a doença avançada, avanços terapêuticos, incluindo novas drogas hormonais, quimioterápicos, radiofármacos (como o Lutecio PSMA) e terapias-alvo guiadas para alterações moleculares e mutações genéticas específicas (como os inibidores de PARP), estão mudando a história natural da doença metastática, aumentando o controle da doença, tempo e qualidade de vida.

Na sua opinião, quais estratégias são mais eficazes para conscientizar os homens sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce, especialmente durante o Novembro Azul?

Dra. Louise Moreno — A estratégia mais eficaz durante o Novembro Azul, na minha opinião, é multifacetada:

  • Mudar o Foco da Obrigação para a Informação: Em vez de apenas dizer “faça o exame”, devemos focar em “informe-se e converse com seu médico”. A mensagem central deve ser a da decisão compartilhada, empoderando o homem com conhecimento sobre seus riscos individuais, os prós e contras do rastreamento, para que ele seja um agente ativo em sua saúde.
  • Abordar a Saúde Integral do Homem: O câncer de próstata não deve ser a única pauta. O Novembro Azul pode ser um portal para discutir saúde masculina de forma ampla: controle de pressão arterial, diabetes, colesterol, saúde mental, cessação do tabagismo. Isso torna a campanha menos intimidante e mais acolhedora.
  • Comunicação Direcionada: As mensagens precisam ser adaptadas para diferentes públicos, com foco especial nos grupos de alto risco, como homens negros e aqueles com histórico familiar, que precisam começar a conversa sobre o rastreamento mais cedo.
  • Desmistificar o Tratamento: É crucial divulgar os avanços que tornaram os tratamentos muito mais seguros e com menos efeitos colaterais. Muitos homens temem mais a incontinência e a impotência do que o próprio câncer. Mostrar que a vigilância ativa é uma opção em casos selecionados e que as técnicas modernas preservam a qualidade de vida pode reduzir a barreira do medo.

Por fim, gostaria de deixar alguma mensagem, reflexão ou informação importante que não tenha sido abordada nas perguntas anteriores?

Dra. Louise Moreno — Sim. Gostaria de reforçar que o câncer de próstata é uma doença com altíssimas taxas de cura, que podem ultrapassar 90% quando diagnosticada em fase inicial. O medo e a desinformação são nossos maiores inimigos.

Não existe uma recomendação única que sirva para todos. A melhor abordagem é individualizada. Conheça seu histórico familiar, adote hábitos de vida saudáveis que também reduzem o risco de câncer e, a partir da idade recomendada, estabeleça uma relação de confiança com seu médico para discutir abertamente sua saúde.

Cuidar da saúde não diminui a masculinidade; pelo contrário, é um ato de responsabilidade consigo mesmo e com as pessoas que você ama. A informação correta e o diálogo são as ferramentas mais poderosas que temos para vencer o câncer de próstata.

*Professor e doutor Gustavo Cabral é Imunologista, PhD pela USP, pós-doutor pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, e pós-doutor sênior pelo Hospital Universitário de Bern, na Suíça.





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