Itamaraty barra enviados de Trump e vê elo com ofensiva de Flávio contra urnas


Por Cleber Lourenço

O Ministério das Relações Exteriores confirmou ao ICL Notícias que o governo brasileiro negou os vistos diplomáticos solicitados por dois funcionários do governo Donald Trump que pretendiam vir ao Brasil para discutir o processo eleitoral. Segundo uma fonte do Itamaraty, a decisão foi tomada após o governo avaliar que a missão poderia ser usada politicamente em meio à campanha presidencial e identificar uma relação entre a viagem e o encontro promovido dias antes pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com diplomatas estrangeiros para questionar a segurança das urnas eletrônicas.

A confirmação oficial da negativa dos vistos foi dada à reportagem na manhã deste sábado. Uma fonte das diplomacia brasileira detalhou a avaliação feita internamente pelo governo que levou ao veto da missão americana.

Segundo o relato, o Itamaraty tomou conhecimento, em 20 de julho, de que o Departamento de Estado dos Estados Unidos pretendia enviar dois representantes ao Brasil para discutir com autoridades brasileiras o processo eleitoral e temas relacionados à liberdade de expressão durante as eleições.

Os integrantes da delegação eram Riley M. Barnes, secretário-assistente do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do mesmo órgão. A existência da missão foi revelada inicialmente pelo Washington Post e depois confirmada pela Reuters.

trump
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. (Foto: AFP)

O ponto que despertou preocupação no governo brasileiro, porém, foi o contexto político da visita.

Segundo a fonte ouvida pelo ICL Notícias, chamou atenção o fato de a missão ter sido organizada imediatamente após um encontro realizado em Brasília por políticos brasileiros com integrantes do corpo diplomático para levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral.

“Chama a atenção que essa visita tenha sido planejada e vá acontecer na sequência de um evento que alguns políticos brasileiros fizeram com o corpo diplomático em Brasília para questionar as urnas eleitorais e levantar suspeitas”, afirmou a fonte.

A referência é ao evento do qual Flávio Bolsonaro participou ao lado de embaixadores e representantes estrangeiros, repetindo acusações sem provas contra o sistema eletrônico de votação. O episódio reproduziu a estratégia utilizada por Jair Bolsonaro em 2022, quando reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para atacar a credibilidade das urnas — conduta que posteriormente fundamentou sua condenação à inelegibilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Durante a conversa com a reportagem, a própria fonte confirmou que o governo estabeleceu uma relação entre os dois acontecimentos.

Na avaliação do Itamaraty, permitir a entrada da delegação poderia conferir respaldo internacional ao discurso que vinha sendo difundido por aliados de Flávio Bolsonaro contra o processo eleitoral brasileiro.

“O governo brasileiro considerou essa instrumentalização política da visita nesse contexto pré-eleitoral e, por isso, decidiu negar o pedido de vistos que chegou ao Consulado-Geral do Brasil em Washington”, afirmou a fonte.

A declaração revela que a decisão brasileira foi além de uma simples negativa administrativa de vistos. O governo concluiu que a missão tinha potencial para produzir efeitos políticos durante a campanha presidencial e, por isso, decidiu impedir sua realização.

A Reuters informou neste sábado que duas autoridades brasileiras classificaram a iniciativa como uma tentativa de interferência nas eleições de outubro. Segundo a agência, o governo avaliou que a visita poderia ser utilizada para colocar em dúvida a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro, repetindo a narrativa já adotada por setores da direita brasileira.

O Washington Post revelou que os dois funcionários do Departamento de Estado pretendiam realizar reuniões em Brasília sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro. De acordo com a publicação, diplomatas brasileiros passaram a suspeitar que a missão pudesse resultar em um relatório utilizado posteriormente para questionar a legitimidade das eleições.

O Departamento de Estado confirmou ao jornal americano que Barnes e Samson planejavam visitar o Brasil, mas não detalhou o objetivo da viagem nem apresentou qualquer evidência que justificasse preocupação com o funcionamento das urnas eletrônicas brasileiras. Também não comentou a negativa dos vistos após ser procurado pela Reuters.

A decisão do Itamaraty ocorre em meio ao agravamento das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington e poucos dias depois de Flávio Bolsonaro voltar a internacionalizar os ataques ao sistema eleitoral brasileiro diante de representantes estrangeiros. Para o governo brasileiro, a coincidência entre os dois movimentos deixou de ser apenas uma sequência de fatos e passou a compor o contexto político que levou ao veto da missão americana.





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