Por Esmael Morais – Blog do Esmael
O apresentador José Luiz Datena comunicou à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), nesta segunda-feira (8), a decisão de encerrar o contrato com a estatal para participar do processo eleitoral de 2026, movimento que recoloca São Paulo no centro da disputa entre televisão, segurança pública e voto popular.
A Diretoria Executiva da EBC informou que foi comunicada por Datena sobre a decisão pessoal do jornalista. Segundo o comunicado, a participação dele na grade será mantida somente até 30 de junho, prazo previsto pela legislação eleitoral para afastamento de apresentadores e comentaristas de rádio e televisão que pretendem disputar eleição.
Datena comandava dois produtos na comunicação pública federal: o programa Na Mesa com Datena, na TV Brasil, e o Alô Alô Brasil, na Rádio Nacional. A EBC agradeceu ao apresentador pela dedicação nos serviços prestados ao longo de 2026 e afirmou que a nova composição da grade será informada após definição do Comitê de Programação e Rede da empresa.

A saída não é apenas uma troca de microfone por palanque. Datena volta ao jogo eleitoral depois de uma campanha fraca à Prefeitura de São Paulo em 2024, quando concorreu pelo PSDB e terminou longe da disputa final. Agora, o caminho mais provável é uma candidatura a deputado federal por São Paulo, articulada no campo do PSB.
A legislação eleitoral mira justamente a vantagem indevida de quem aparece todos os dias no rádio ou na televisão. A partir de 30 de junho, emissoras não podem transmitir programa apresentado ou comentado por pré-candidato. A regra tenta impedir que exposição contínua vire propaganda disfarçada antes do período oficial de campanha.
Datena chega ao processo de 2026 com um ativo e um passivo. O ativo é a lembrança nacional construída em décadas de programas policiais e jornalismo popular. O passivo é o histórico de idas e vindas partidárias, desistências anteriores e o desempenho ruim na eleição municipal paulistana de 2024.
Na disputa proporcional, porém, a conta é diferente. Um candidato a deputado federal não precisa vencer a eleição majoritária nem enfrentar segundo turno. Ele precisa puxar voto, organizar uma base própria e ajudar a legenda a ampliar bancada. É por isso que um comunicador conhecido pode interessar a partidos que buscam votos fora da militância tradicional.
Para o PSB, Datena oferece uma porta de entrada em um tema que a direita explora há anos com agressividade: segurança pública. O apresentador construiu sua carreira falando para o eleitor que sente medo no ponto de ônibus, no comércio, no bairro e dentro de casa. A esquerda e o centro governista sabem que perder esse debate sem disputa facilita a vida de bolsonaristas e candidatos policiais.
O problema é que audiência não se transfere automaticamente para urna. São Paulo já testou Datena em 2024, e o resultado mostrou que popularidade televisiva não basta quando a campanha exige partido, militância, tempo, narrativa e chão político. Em 2026, a disputa para a Câmara dos Deputados será menos personalista que uma eleição municipal, mas também mais embolada, com dezenas de nomes tentando ocupar o mesmo eleitorado.
O movimento tem interesse direto para o Palácio do Planalto. Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente da República, e Márcio França (PSB), liderança paulista da sigla, aparecem nas articulações para aproximar Datena da chapa socialista. A aposta é usar um nome conhecido para disputar voto popular em São Paulo e reforçar a presença do PSB no maior colégio eleitoral do país.
A direita também observa. Datena fala com um público que costuma ser alvo de bolsonaristas em temas como crime, polícia, punição e medo urbano. Se entrar mesmo na campanha, ele poderá funcionar como teste para saber se o campo governista consegue falar de segurança sem repetir o discurso da extrema direita e sem abandonar a defesa de direitos.
A EBC, por sua vez, encerra uma passagem curta e politicamente sensível. A contratação de Datena já havia gerado debate por envolver um comunicador de alto perfil, com histórico eleitoral recente, em uma emissora pública. A saída confirma que o calendário de 2026 chegou à grade de programação antes mesmo das convenções partidárias.
Datena ainda precisa atravessar a etapa formal da candidatura. As convenções definirão nomes, partidos e chapas. Até lá, o fato concreto é o afastamento da EBC, a data de 30 de junho como limite eleitoral e a entrada do apresentador no corredor de acesso à eleição paulista.



