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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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Justiça pela memória do cais


Sem meias palavras: Nada do que façamos redime este crime. Não tem tamanho o horror de morte, tortura e indecências sem conta causados por quase 400 anos de escravidão. As consequências trágicas estão todas aí e só não vê ou reconhece três tipos de pessoas: As desonestas, as muito pouco inteligentes ou ambos.

Dito isto, nem avance se você se enquadra no perfil dos que amam defender a tal da “consciência humana”. As pessoas caçadas feito animais nos anúncios que ilustram esta coluna e outros milhões de mortos e torturados não merecem este grau de crueldade e cinismo quando se fala de seus descendentes.

No entanto, apesar do jeito impaciente e ácido do começo deste texto — fruto de uma vida escutando e lendo toneladas de chorume inconsequente no país mais negro fora da África e que mais escravizou na história —, as notícias trazidas hoje são bonitas.

O Conselho da Justiça Federal, por meio do seu vice-presidente e corregedor geral da Justiça Federal, Ministro Luis Felipe Salomão está promovendo uma série de ações tendo como tema um lugar seminal da história brasileira: O cais do Valongo. Um portal na internet, um livro, exposições e um podcast formam o conjunto inédito de comunicação sobre o lugar no projeto Justiça pela Memória do Cais.

O portal conta a história do Cais, mostra os artefatos encontrados, tem link para o podcast e um belíssimo livro organizado por Ana Cristina Rosa, assessora-chefe de comunicação do CJF. Trata-se de respeito à memória e às humanidades retiradas e aviltadas. Fruto de uma luta enorme e cansativa, que resultou em uma ação civil pública importantíssima proposta pelo Ministério Público Federal em 2018 e que teve sua sentença em agosto do ano passado.

O juiz Paulo André Espírito Santo Manfredini condenou a União, a Fundação Cultural Palmares e a Associação Rio Comitê da Cidadania Contra a Fome a cumprir as obrigações acordadas com a UNESCO acerca da conservação e promoção do sítio arqueológico do Cais do Valongo. A bola está agora nas mãos dos responsáveis para que a decisão saia do papel e se torne efetiva.

Corria os anos de 2014 e 15, quando pesquisando para o meu primeiro romance, a história ocultada no solo do Valongo me arrebatou. Passei a acompanhar e colecionar de perto todas as notícias a respeito. Aprendi a pesquisar os jornais antigos nos arquivos da Biblioteca Nacional e encontrei centenas de notícias sobre este lugar.

Eram avisos de escravizados fugidos, achados, perdidos, anúncio de vendas de embarcações “com tudo para a escravatura”, movimento de navios com os números exatos dos escravizados embarcados (também centenas) e o número espantoso de mortos nas viagens que duravam mais de 40 dias. Notícias de uma sociedade toda erguida em uma lógica que revelava um “corpo-moeda” vendido em armazéns, alugado em lojas, traficado e profundamente marcado por ferros, castigos, doenças, maus tratos, mutilações… dor em estado puro.

Curiosamente também foi em 2014 que uma juíza negra chamada Adriana Cruz assumiu a titularidade de uma vara na Justiça Federal do Rio de Janeiro. Minha irmã foi trabalhar com a justiça, em um prédio localizado bem ali, no antigo Valongo. O edifício está em um local que foi aterrado. Significa dizer que em tempos antigos, estaria dentro d’água, flutuando no mar como uma caravela. Os ancestrais estavam nos dizendo algo.

Na cerimônia que lançou o projeto, ela foi uma das conferencistas em uma aula magna, junto com a professora Thula Pires, a historiadora Ynaê Lopes dos Santos e Ana Cristina Rosa. Mulheres negras se movendo pela justiça que nada nos deu sem luta.

Escrevi “O crime do cais do Valongo”, entendendo que tudo o que aconteceu sobre aquelas pedras foi, junto com o genocídio indígena, o maior e mais longo caso de polícia da história brasileira. A polícia da época, certamente condenaria todos à morte outra vez, e a de hoje — cega aos efeitos colaterais desta história macabra —, inconsciente de sua própria negritude, segue condenando à morte os “Pretos Novos”, completando um ciclo que parece não ter fim.

Apesar de tudo, quando a instituição chamada Justiça Brasileira começa a reconhecer e registrar para a posteridade esta história, algo se move. Neste dia 20 de novembro, feriado nacional único dedicado inteiramente à negritude, uma fagulha se acende para que ninguém precise fugir de um destino desumanizador e que no futuro não precisemos negociar pelo básico direito à dignidade.

 

 





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