Por Gustavo Cabral*
Escrever sobre a leucemia não é simples — embora seja necessário. Há mais de um ano, vivo uma luta dura contra a doença, mais especificamente a Leucemia Linfoblástica Aguda de células T, uma forma extremamente agressiva. Falar sobre isso exige atravessar sentimentos difíceis, porque a doença ocupa grande parte dos meus dias e impõe adaptações constantes à rotina, seja pelos efeitos colaterais do tratamento, seja pelas limitações impostas pelo próprio quadro clínico.
Ainda assim, fiz uma escolha consciente: não permitir que a doença me defina por completo. Sempre que me sinto bem, procuro ir além da luta diária. Cozinho, produzo mudas de plantas e hortaliças para levar à roça, escrevo artigos científicos, elaboro projetos de pesquisa, produzo matérias para o ICL Notícias, etc. Não baixar a cabeça tornou-se, também, uma forma de resistência.
Nesse contexto, o mês de fevereiro – marcado pela campanha Fevereiro Laranja – ganha um significado especial. Trata-se de um período dedicado à conscientização sobre a leucemia e à importância da doação de medula óssea, um gesto que pode representar a diferença entre a vida e a morte para milhares de pessoas.
Assim, além deste breve relato sobre minha condição atual, conversei com um especialista no tema: o médico Wellington Fernandes, assistente do ICESP e doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que contribui com esclarecimentos fundamentais sobre a doença, o tratamento e a relevância da doação de medula.
Confira a entrevista
Dr Wellington Fernandes, quais são os principais tipos de leucemia e o que os diferencia em termos de causas, evolução da doença e tratamento?
As leucemias são proliferações de glóbulos brancos do sangue. Se diferenciam pelo subtipo (se é linfoide ou mieloide) e pelo tipo de glóbulo branco (aguda, células imaturas e agressivas, e crônica, células maduras). As leucemias agudas em geral se instalam rapidamente e podem evoluir rapidamente se não adequadamente tratadas. Usualmente são tratadas com quimioterapia venosa. Já as leucemias crônicas se apresentam de modo mais lento, e, atualmente, são tratadas com comprimidos.
Quais sinais e sintomas costumam ser ignorados pela população e que podem atrasar o diagnóstico da leucemia?
Importante pergunta! Fraqueza fora do normal, manchas roxas nos membros, febre persistente e percepção de aumento de gânglios (“ínguas “). O primeiro exame nestes casos é um hemograma simples, que já auxilia bastante na investigação.
De que forma o diagnóstico precoce influencia as chances de cura e a qualidade de vida do paciente?
O diagnóstico precoce é considerado fundamental pois evita que complicações maiores da doença apareçam e impeçam que o tratamento seja realizado, como infecções, sangramentos dentro da cabeça, pulmão ou tubo digestivo, ou compressão da medula espinhal. Quanto menor o volume da doença, mais rápida será alcançada a remissão.
Quais avanços recentes na medicina têm mudado o prognóstico da leucemia nos últimos anos?
Os principais avanços são a disseminação das imunoterapias e terapia celular nas linfoides, que fazem o nosso sistema imunológico combater a leucemia de modo mais eficaz. No caso das mieloides, o maior entendimento das alterações genéticas tem permitido o surgimento de pequenas drogas contra cada alteração, com bons resultados.
Qual é a importância da doação de medula óssea no tratamento da leucemia e por que ainda há tanta dificuldade em encontrar doadores compatíveis?
O transplante de medula óssea é uma etapa fundamental necessária para boa parte dos pacientes adultos com leucemia aguda. Hoje, com as novas estratégias de transplante, temos conseguido realizar o procedimento com doadores 100% compatíveis e também com doadores haploidenticos, como irmãos e filhos.
Existe algum grupo de risco mais vulnerável à leucemia ou a doença pode atingir qualquer pessoa?
A doença mais comumente afeta pessoas saudáveis, mas alterações genéticas familiares podem aumentar o risco de desenvolver a doença, assim como a exposição anterior a quimioterapia ou radioterapia por outro câncer.
Além do tratamento médico, quais são os principais desafios emocionais e sociais enfrentados pelos pacientes e suas famílias?
É um desafio gigantesco. Na maior parte dos casos, o paciente precisa parar de trabalhar por cerca de 6-12 meses nos casos das leucemias agudas, a depender da programação do tratamento, e em muitas vezes, o paciente é jovem e não tem arcabouço financeiro para se sustentar durante este período. É uma causa importante de abandono do tratamento pois alguns pacientes não conseguem ir “até o fim” nos protocolos mais longos.
Tem mais alguma informação que gostaria de compartilhar, que não perguntei?
Acho muito importante que na suspeita, mesmo em pessoas jovens e saudáveis, realizar um hemograma simples já permite que a suspeita diagnóstica seja realizada. É necessário disseminar não somente os profissionais de saúde, mas também a população geral com relação à necessidade de realizar este exame tão simples e de baixo custo. Obviamente, a melhora da rede de atendimento e encaminhamento no SUS também é necessária, visando atendimento especializado cada vez mais cedo.
*O professor e doutor Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP, pós-doutor pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pós-doutor sênior pelo Hospital Universitário de Bern (Suíça).




